Siza em Serralves. "Também acho que já vivi demais, mas não quero ir de férias"

O Museu de Serralves é, a partir desta quinta-feira, morada de uma retrospetiva de um dos mais importantes arquitetos portugueses.

Até fevereiro do próximo ano é possível ver maquetes, desenhos, esquissos e fotografias. São objetos que recolhem memórias e traçam o trajeto do primeiro arquiteto do país, a receber em 1992, um Pritzker, o prémio mais importante a nível mundial nesta área. Aos 86 anos, Álvaro Siza brinca com a vida e com a disciplina, ou a falta dela.

Afinal, quanta indisciplina cabe em Álvaro Siza? Nuno Grande, curador da exposição sobre o arquiteto, responde que Siza "é uma pessoa para quem a inquietude, a indisciplina... é a forma de estar dentro da disciplina".

O Museu de Serralves, a comemorar vinte anos, expõe o trajeto do seu criador. Álvaro Siza é revisitado ao longo de seis décadas de trabalho. "Imagino a trabalheira não só para reunir o material, como para o distribuir e a conceção da sala".

Agradecido por ter, em Serralves, uma segunda grande exposição, Álvaro Siza vê neste mar de memórias um privilégio. "Estes senhores e senhoras que montaram a exposição devem ter pensado porque é que este homem viveu tanto e fez tantos desenhos? É verdade. Muitas vezes tenho a sensação de que já vivi demais, mas isso não quer dizer que me apeteça ir para férias".

Nuno Grande, e também Carles Muro, são os responsáveis pela mostra que convida a um olhar específico. "Normalmente nos museus de arte contemporânea, as exposições estão nas paredes. Nós queríamos mostrar que a arquitetura é outra disciplina. É uma disciplina que é feita sobre a mesa, o lugar onde se desenha, redesenha, onde se constroem maquetes, onde se experimenta a relação entre o bidimensional e o tridimensional. Portanto, a exposição é toda feita a partir de mesas".

Na parede, logo na entrada da exposição, no Museu de Serralves, sobressai o esquisso que deu mote à exposição. Vê-se uma mesa longa onde estão espalhados membros de um corpo humano: pés, mãos, tronco, pernas. Foi feito há quase quarenta anos. "Julgo que foi feito em Berlim, uma cidade grande, com um passado riquíssimo onde se pode ler a história do nascimento da arquitetura moderna. Aquela visita, para mi, foi fundamental e entusiasmante". Para Álvaro Siza, as cidades são feitas de fragmentos, "o trabalho do arquiteto é tentar relações entre eles".

De 1954 a 2019 há trinta projetos para ver através de maquetes e desenhos entre os quais se destaca um banco, em Vila do Conde, projetado nos anos oitenta. Nuno Grande considera que foi mais do que uma obra, foi um ponto de viragem. "Na altura foi muito criticado, até que um dia ganha o prémio prémio Mies van der Rohe, [instituído pela Comissão Europeia]. No mesmo ano em que ganha este prémio dá-se o incêndio no Chiado, em 1988. É também este prémio que contribuiu para o presidente da Câmara de Lisboa se lembre que afinal há um arquiteto português premiado no estrangeiro, que não seria mal consultar sobre a reconstrução do Chiado".

O apoio que recebeu do então autarca de Lisboa, Nuno Kruz Abecasis, é de boa memória para Álvaro Siza. "Quando confiava numa pessoa era fantástico. Ao fim de oito dias tratava-me por 'ó menino!'. A história mais incrível, foi quando um dia me ligou para ir a uma reunião, onde estava um vereador. Quando entrei ele disse, 'ó minha pomba!'. O vereador ficou completamente em estado de choque".

Os anos noventa trouxeram algumas das obras mais conhecidas no país. Siza desenhou o Museu de Serralves, no Porto, a igreja de Santa Maria, em Marco de Canaveses e, em Lisboa, o pavilhão de Portugal para a Expo 98. "No início foi difícil. Envolvia muita gente, muitos engenheiros... e depois havia o dinheiro".

O novo século trouxe desafios em novas paragens, a Oriente. A expansão foi o caminho escolhido para fugir à estagnação. "Aqui a manutenção de um atelier de arquitetura é impossível. Lá tem corrido bem. Pagam, e respeitam os projetos".

No fim da exposição vemos o princípio de tudo. A vida de Álvaro Siza é mostrada através de retratos, desde a infância, até aos tempos que correm. Num dos lados da mesa, um pequeno ecrã exibe o momento mais alto da carreira de Álvaro Siza, a cerimónia em que recebe o prémio Pritzker, o galardão mais importante na área da arquitetura. Foi atribuído em 1992, pela renovação do Chiado.

O corredor que nos guia até à saída está forrado com fotografias de várias obras do arquiteto.

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