Tirar o rabo do sofá e sentá-lo... na sala de cinema

A defesa do cinema enquanto "experiência coletiva, em sala". Mafalda Melo, a diretora e programadora do Indie Lisboa, reconhece que esta terça-feira arranca um festival... diferente.

Programar a décima sétima edição do Indie Lisboa não foi propriamente distinto de anos anteriores, uma vez que, quando começaram as medidas de confinamento, quase há seis meses, os filmes já estavam selecionados e a programação definida. Ainda assim, em entrevista à TSF, Mafalda Melo, diretora e programadora do festival, identifica de modo inequívoco aquilo que torna, necessariamente, diferente a edição que, hoje começa ao fim da tarde (19h00), na sala Manoel Oliveira do cinema São Jorge:

"Claro que ponderámos todos os cenários possíveis, mas entendemos que era ainda mais importante, dado este afastamento físico que se seguiu, fazer um festival presencial, com todas as medidas de segurança necessárias, mas fazer com que as pessoas não se esquecessem que o cinema é uma experiência coletiva, em sala". Uma oportunidade para abandonar os hábitos mais sedentários trazidos pela pandemia.

Com todos os cuidados, assegura a organização. As salas reservadas para o Indie Lisboa, da Culturgest ao São Jorge, da Cinemateca ao cinema Ideal, passando pelo Capitólio, vão ter "metade da ocupação normal que teriam, além de diversas medidas de segurança como desinfeções periódicas entre as sessões, os públicos nunca se poderão cruzar, está tudo assegurado para que o festival decorra da melhor forma possível".

A programação do Indie Lisboa 2020 presta tributo ao Fórum da Berlinale, o festival de cinema de Berlim, bem como uma retrospetiva integral da obra do cineasta senegalês Ousmane Sembéne, que vai ser apresentada na Cinemateca Portuguesa. Trata-se de um nome grande do cinema produzido em África, considerado - Mafalda Melo admite o perigo deste tipo de chavões - "um dos pais do cinema africano".

Mas também escritor, além de vários outros ofícios: pescador, mecânico, pedreiro e militar na 2ª Guerra Mundial, tendo estado nas trincheiras de Itália e França contra o fascismo e o nazismo. Depois, trabalhou em Marselha como estivador, foi ativista sindical, experiência que lhe serviu de mote para a estreia em livro com Le Docker Noir (1956). Autodidata persistente, em todas as atividades, de regresso a África, Sembéne entregou-se entusiasticamente a uma dupla atividade criativa: a de escritor e a de cineasta. As curtas-metragens Borom Sarret e Niaye, bem como as longas La Noire de... e Mandabi são obras dos anos sessenta do século passado; na década seguinte realizou Emitaï (1971), Xala (1975), Ceddo (1977); nas décadas seguintes, os derradeiros filmes: Camp de Thiaroye (1988), Guelwaar (1992), Faat Kiné (2000), Moolaadé (2004), este três anos antes da morte do realizador de Casamansa.

Filmes de competição nacional e internacional, longas e curtas-metragens e uma permanente aposta na produção nacional, garante Mafalda Melo: "Sempre, é uma das nossas missões desde a primeira edição. Este ano apresentamos cerca de cinquenta filmes portugueses, em todas as secções do festival, temos a secção Novíssimos" que destaca aqueles "que estão a fazer a sua primeira viagem pelo cinema, muitos destes filmes são filmados ainda em contexto escolar ou de uma forma completamente autodidata; no Indie Music vamos ter, por exemplo, um filme sobre o mítico músico José Pinhal, portanto, um bocadinho por todo o festival, vamos fazer esta aposta no cinema português, como já é hábito".

Na área da música, além do já referido José Pinhal, há filmes sobre Charles Aznavour (por ele próprio, com imagens pelo cantor e compositor francês com recurso a uma câmara de filmar que lhe foi oferecida por Edith Piaff), Rolling Stones (Gimme Shelter), música eletrónica brasileira, além de White Riot, documentário de Rubika Shah, dedicado ao movimento Rock Against Racism, que há mais de quarenta anos surgiu para combater o racismo supremacista branco protagonizado pelo National Front britânico.

Há também na programação várias sessões especiais e uma área chamada 5L que relaciona o cinema com os livros e a literatura. Neste dia de arranque, além da abertura oficial com o divertido La Femme de Mon Frére da atriz e agora cineasta canadiana Monia Chokri, há ainda Billie, filme de James Erskine sobre uma das maiores vozes de todos os tempos, Bilie Holiday.

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