Três retratos, oito pastéis e um chouriço doce: a obra e "a gula" de Paula Rego em Belém

Com Paula Rego "nunca havia tédio, ela era o oposto de uma pessoa chata", a evidência exclamada sem rodeios por José Manuel dos Santos, desdobra a conversa numa paleta de histórias. Das obras doadas pela pintora ao Estado Português, à compra de roupa interior feminina numa loja de bairro, aos almoços jantares e muitos passeios pelas ruas de Belém, o antigo assessor cultural de Jorge Sampaio guarda retratos doces duma mulher que não precisava de posar a sua originalidade " tudo era natural nela."

"Já vi que gosta"

Tinham amigos comuns, como era o caso de Mário Cesariny, mas foi o trabalho como assessor cultural de Mário Soares e de Jorge Sampaio que aproximou José Manuel dos Santos da pintora Paula Rego. Com Mário Soares, já tinha tido oportunidade de visitar o atelier da pintora em Londres, mas com Jorge Sampaio a relação foi mais estreita: "eles eram amigos, Jorge Sampaio tinha sido advogado de Paula Rego e a admiração era mútua."

José Manuel dos Santos leva-nos até 2005, ano em que Paula Rego é convidada a fazer o retrato do então Presidente da República, e recua ainda mais no tempo para fixar o dia em que a pintora aceita contar a história de Nossa Senhora, para a Capela Nacional do Palácio "desde que comecei a pintar que espero por este convite" respondeu prontamente a autora, cujo Ciclo da Vida da Virgem Maria, oito pastéis a óleo é, porventura, ainda uma das obras menos conhecidas de Paula Rego.

Do "ensaio de uma certa agitação que alguns meios mais conservadores tentaram à época", ao consenso que acabaria por recolher na hierarquia da Igreja Católica, José Manuel dos Santos guarda no olhar o dia em que foi a Londres para ver a obra concluída "estavam ao fundo os oito quadros, o atelier tinha um pé alto e ela tinha limpado tudo. Fiquei em silêncio deslumbrado e ela exclamou: 'já vi que gosta'".

"Uma dança feroz com a tela"

Em 2005, Paula Rego aceita fazer o retrato de Jorge Sampaio para a Galeria dos Presidentes, o que acaba por acontecer em dois períodos, depois do primeiro retrato não ter correspondido ao desejo de ambos. Mais do que contar a história já conhecida e que acaba por resultar em 3 retratos, José Manuel dos Santos abre a porta do estúdio fixando o cenário onde pintora e Presidente, numa sintonia quase perfeita desempenham o seu papel " ouviam música, ela ficava calada, e só falavam no final, eram os dois muito disciplinados. Às vezes falavam em inglês. Ela tinha uma quase devoção a pintar, e creio ter sido um período de grande felicidade para os dois."

José Manuel dos Santos também já posou para Paula Rego, num quadro que já esteve exposto no museu Amadeo Souza-Cardoso. "Vê-la pintar e desenhar era o feitiço maior , era como uma espécie de dança com a tela, uma dança feroz. Empoleirava-se num banco e só falava em monossílabos, em acordo ou desacordo, era uma entrega total." Citando o poeta Mallarmé, "tudo no mundo existe para acabar num livro" e José Manuel dos Santos acredita que em Paula Rego " tudo no mundo existia para acabar numa pintura."

A memória e a gula de um chouriço doce

"Gostava imenso de ver as pessoas e de passear pelo bairro", alimentava-se disso, recorda ainda José Manuel dos Santos, que, no ano de 2005, acabou por almoçar e jantar muitas vezes com a pintora. Alojada num hotel perto de Belém, Paula Rego ora a pé, ora de autocarro, preferia circular pelo meio das pessoas "como fazia no metro de Londres, a caminho do atelier, observando os rostos estremunhados" no despertar para um novo dia de trabalho. Certo dia pararam numa loja de bairro, cuja montra fez arregalar os olhos da pintora "pijamas de um lado, e do outro roupa interior feminina, daquela mais tradicional, com tamanhos grandes e muitas rendas", José Manuel dos Santos conta como a pintora entrou de rompante, comprou a quase totalidade da "lingerie" feminina, e a levou para o atelier como adereços para próximos quadros.

O chouriço doce, típico da Ericeira, era um dos sabores da infância da pintora, e calhou em conversa certo dia, lamentando a pintora nunca mais ter comido o doce. José Manuel dos Santos acabou por falar a um amigo , e este acabou por desencantar o doce, e Paula Rego acabou por recebê-lo em Londres: "Foi uma gula, nem imagina.", respondeu-lhe deliciada a pintora, "nunca pensei na vida voltar a comer este doce."

A sabedoria, a inteligência, a originalidade e até uma certa loucura, "nela tudo era natural".

José Manuel dos Santos recorda a vivacidade, a sedução, " alguém que não precisa de posar a sua diferença " e que, a qualquer instante, podia soltar uma boa gargalhada.

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