Uma "travessia" que quis aproximar mulheres ciganas das outras

O projeto cultural insere-se no Programa PARTIS & Art for Change, financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian e pela Fundação "La Caixa".

Dois grupos de mulheres que residem na cidade de Faro e são provenientes de contextos e realidades diferentes participaram durante dois anos num projeto de práticas artísticas para a inclusão social. Umas pertencem à etnia cigana, as outras são habituais espectadoras dos eventos promovidos pela DeVir. Promoveram-se encontros e, durante o percurso, houve uma aproximação destes dois grupos muito distintos, tentando esbater as diferenças entre eles.

"São mulheres que vivem em territórios diferentes. Umas vivem para cá da linha de comboio e outras para lá. É a linha de comboio que marca a fronteira", afirma José Laginha, o coordenador da DeVir.

De facto, é junto à linha de comboio que se situa o bairro da Horta da Areia, onde reside o grupo de mulheres ciganas. Um bairro onde falta quase tudo, com casas pré-fabricadas degradadas, sem quaisquer condições de habitabilidade.

O projeto TRAVESSIA foi possível graças à intervenção do Centro Comunitário da Horta da Areia, financiado pela Fundação Vítor Reis Morais. O responsável pelo Centro considera que este projeto levou as mulheres ciganas a perceberem que há mais vida para além das responsabilidades familiares diárias e a sentirem mais empoderamento.

"Não é fácil para quem habitualmente não participa em atividades culturais, ainda mais com outro grupo de mulheres com as quais não têm qualquer tipo de relacionamento", afirma David Fernandes. "Só esta abertura já foi uma mais valia, o facto de elas mostrarem interesse em estarem presentes e virem aqui bater à porta e perguntar quando é a próxima sessão. Isso é muito gratificante".

Num texto de apresentação do projeto explica-se que os criadores se serviram de "técnicas que tiveram a sua origem no que designamos como "teatro-documental".

"Estes 2 grupos de mulheres de Faro criaram um vastíssimo arquivo composto por memórias e histórias pessoais, textos mais ou menos ficcionais, fotografias, vídeos, desenhos, depoimentos registados em áudio, materiais utilizados para a edificação de um espetáculo multidisciplinar, onde se cruza o teatro e a dança, o cinema e a música, a literatura e as artes visuais e onde, propositadamente, se apagam as fronteiras que poderíamos entender que separariam o real da ficção ou a vida das artes".

O espetáculo vai ter uma primeira parte com um grupo de dança de crianças ciganas. "É um projeto para dar voz a quem não tem voz", garante José Laginha.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de