A fábrica alemã que transformou Palmela e garante 1,4% do PIB. Os 30 anos da Autoeuropa

Esta sexta-feira, assinalam-se os 30 anos do início da construção da Autoeuropa, em Palmela. Nas últimas três décadas, a fábrica tem tido um forte impacto notório não só no território onde esta se instalou, mas em toda região.

Às portas da fábrica da Autoeuropa, em Palmela, fica o "Bairro Alentejano" da Quinta do Anjo. Uma povoação pacata onde vive, maioritariamente, gente que deixou o Alentejo à procura de uma vida melhor e acabou por assentar nos arredores da grande capital, na Margem Sul do Tejo. Desde há três décadas para cá, contam com a vizinhança dos alemães da Volkswagen, que vieram trazer um novo fôlego à zona.

Quem entra no café Sol Posto, à hora de almoço, não nota a presença dos vizinhos operários. A gerência do estabelecimento explica que só devem aparecer no final do turno. É aí que os funcionários da Autoeuropa, por hábito, passam pelo bairro e o número de pedidos a balcão aumenta.

"A Autoeuropa, para nós aqui, é uma mais-valia. São pessoas que, quando saem dos seus turnos, vêm sempre cá comer e convivem todos juntos aqui. Quase todos os dias temos aqui clientes da Autoeuropa", revela a gerência do café.

Além de trazer mais população e dinamizar o comércio local, a Autoeuropa veio também empregar muita gente cá da terra. Nos primeiros 20 anos da empresa em Palmela, a variação da população total a nível nacional foi de mais 7%. Em Palmela, o aumento de pessoas no concelho foi de 43%. No mesmo período, enquanto a variação da população empregada a nível nacional ficou nos 5,6%, em Palmela a população empregada aumentou 46,5%.

"A Autoeuropa tem, de facto, uma importância relevante na fixação [de população no concelho], dada a oferta de emprego qualificado. Somos o terceiro concelho do país com a maior percentagem de crescimento demográfico", sublinha o presidente da Câmara de Palmela, Álvaro Amaro, em declarações à TSF.

O concelho de Palmela tem, de acordo com os dados dos últimos censos, 68.879 habitantes. A maioria da população empregada no concelho está no setor do comércio e nas indústrias transformadoras.

É que, além da própria Autoeuropa - que é uma fábrica multiproduto e multimarca, que emprega mais de 5.200 pessoas - há que ter em conta todo o parque industrial que a rodeia e onde estão fixados fornecedores de peças e materiais.

"É a Autoeuropa e tudo aquilo que ela arrasta consigo", frisa o autarca de Palmela. "Há um conjunto de outras empresas, na área do armazenamento e da prestação de serviços, da logística,... Estamos ali num hub".

É um verdadeiro cluster automóvel que atinge também os concelhos vizinhos. "Aqui há uns anos até fizemos um estudo, por causa das questões da mobilidade, para perceber de onde vinham os empregados da Autoeuropa. Há quem venha até da Margem Norte do Tejo, mas, de facto, a esmagadora maioria está nos concelhos do Seixal, Barreiro, Sesimbra, alguns em Setúbal e na Moita, e um grande núcleo em Palmela", relata Álvaro Amaro.

Pode haver muita mais gente e mais emprego, desde a chegada da Autoeuropa, mas, ainda assim, no Bairro Alentejano, há quem não veja mudanças no que realmente lhe interessa. É o caso de António Sabino, um habitante do bairro que até já teve um filho empregado na fábrica.

"Os moços trabalham lá, têm os seus empregos, mas aqui não há um hipermercado como deve ser, não há um posto médico como deve ser, não há nada! Nada mudou aqui!", queixa-se o morador.

O autarca de Palmela também defende que é preciso fazer mais, especialmente em termos de acessibilidades. O município afirma quem tem feito sozinho, sem qualquer ajuda do Governo, tudo o que é necessário para arranjar as vias de acesso ao parque industrial - e nota que os impostos da derrama não ficam todos no concelho.

"Não se pode fazer uma estrada à pressa, como foi feita há 30 anos, preparada para receber 30 a 40 camiões TIR de longo curso por dia, quando hoje circulam 600. Felizmente, a Autoeuropa já utiliza também a ferrovia para a exportação dos seus veículos [na última semana, foi até anunciada uma nova ligação por comboio à fábrica de Barcelona], mas para a mobilidade interconcelhia e para a ligação a estes eixos de fixação de empresas, são necessários investimentos públicos", defende Álvaro Amaro.

Apontando a requalificação das zonas de acolhimento industrial como prioritária, e lembrando que tal que não foi contemplado no Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), o município deixa a bola nas mãos do Estado central.

No último ano, a Autoeuropa produziu 192 mil automóveis e 20 milhões de peças para outras fábricas do grupo alemão, representando 1,4% do PIB e 4,7% das exportações portuguesas.

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