Alexandre Soares dos Santos, o empreendedor que criou um império

Nasceu com o génese dos negócios de família a correr-lhe no sangue. Herdou do pai e do avô a ambição dos criadores de riqueza. Aprendeu no seio da família as regras básicas da construção dos impérios empresariais. E fez o seu, o grupo Jerónimo Martins, um talismã que a família Soares dos Santos nunca deixou fugir.

Elísio Alexandre Soares dos Santos nasceu no Porto a 23 de setembro de 1934, no seio de uma família com longas tradições de comerciantes de produtos alimentares. Estudou no colégio Almeida Garrett, no Porto, onde concluiu o ensino secundário, transferindo-se depois para Lisboa, para frequentar a Faculdade de Direito. Morreu esta sexta-feira, aos 84 anos.

A meio do curso, e desiludido por uma reprovação, aproveitou um convite para trabalhar na multinacional anglo-irlandesa Unilever, onde entrou como gestor estagiário. Mas a perspetiva que lhe foi oferecida de poder viajar pelos vários continentes no âmbito de uma promissora carreira profissional fez com que agarrasse a oportunidade e a convertesse num desafio pessoal.

À medida que o seu sonho de empreendedor foi dando sinais de concretização, Alexandre Soares dos Santos foi enriquecendo os seus conhecimentos com novas oportunidades, nomeadamente em países estrangeiros como a Alemanha, a França e a Irlanda. No seu horizonte não estava o ingresso na empresa de família, a curto ou médio prazo.

De resto, em criança, o contacto de Elísio Alexandre com a "Jerónimo Martins" fora muito limitado. O avô materno apreciava a sua companhia, e o pai levava-o aos domingos para o trabalho, com uma paragem pelo caminho na Pastelaria Bijou; estes relacionamentos não se baseavam, porém, no acalento da imagem de um futuro sucessor.

Morte inesperada do pai empurra-o para a liderança

O verdadeiro sonho que o pai alimentava era o de ver o filho formar-se em Direito, o que explica a prolongada tensão causada pelo abandono do curso, já no terceiro ano curricular, ao ter optado pela sua autonomia profissional, e aceitar o convite da multinacional.

Em 1969 Alexandre Soares dos Santos era diretor de marketing na filial do Brasil da Unilever quando foi surpreendido com a morte do pai, então presidente da "Jerónimo Martins". Antecipando as dificuldades que um eventual retorno implicaria, agravadas por um inevitável choque de mentalidades, Alexandre Soares dos Santos sentia-se renitente em ligar-se a um projeto que via mal preparado para sobreviver às turbulências modernas.

Após o desaparecimento do pai, Alexandre dos Santos, foi a intervenção amigável do então vice-presidente da Unilever (que seguira de perto e desde o início a sua carreira internacional) que muito contribuiu para o seu regresso ao país e enquadramento na gestão da empresa de família. Para tanto, o jovem herdeiro e gestor exigiu que lhe fossem reconhecidos plenos poderes de administração, exigências que foram aceites.

Os desafios que marcaram a fase inicial da sua liderança da empresa prenderam-se com a urgência da renovação dos quadros, traduzida numa série de aposentações difíceis de compreender para os colaboradores, cujas carreiras se tinham desenrolado em muitas instâncias exclusivamente no seio do grupo, e na sequência da revolução democrática.

Descolonização foi trágica para a empresa

Por outro lado, os atrasos nos pagamentos oriundos de Angola, colónia pela qual a "Jerónimo Martins" se tinha interessado nas décadas anteriores, tinham conduzido a uma retirada progressiva, a partir de 1970, do investimento feito na ex-colónia portuguesa, agora Estado independente.

Mesmo assim, a ocupação em Angola das instalações pertencentes à empresa teve graves consequências financeiras e humanas. Uma centena de trabalhadores foi transferida e acomodada na colónia de férias da Praia das Maçãs, obrigando a uma recolocação problemática. Em Lisboa, urgia resguardar as estruturas da casa, ameaçadas pelas convulsões do ambiente político nacional.

Passada a tempestade, Alexandre Soares dos Santos centrou as suas preocupações no desequilíbrio provocado na "joint-venture" pela tentativa de controlo por parte da Unilever da esfera da produção, e arriscou a distribuição como estratégia de contrapeso.

Após o 25 de abril de 1974 a área industrial da "Jerónimo Martins" ficou sob a sua alçada, passando a gerir todos os negócios com as associadas Fima, Lever e Iglo. Soares dos Santos iniciou, então, o processo de transformação da empresa no segundo maior grupo nacional de distribuição alimentar.

O regresso às origens em versão gigante

Em 1980 foi inaugurado o primeiro Pingo Doce; o ano marcou o regresso da "Jerónimo Martins" à atividade da pequena "mercearia real" da Rua Garrett, em Lisboa, desta feita concretizada através de uma extensa rede de grandes superfícies rapidamente desenvolvida. De novo, foi a partir de uma conversa com o antigo vice-presidente da Unilever, em visita ao supermercado de Linda-a-Velha, que foi lançada a ideia por detrás do passo seguinte de Alexandre Soares dos Santos.

Para tal, contribuiu o arrojado investimento da família Soares dos Santos na aquisição dos estabelecimentos "Jerónimo Martins & Filhos", em 1989. Esse ano marcou a entrada do grupo na Bolsa de Valores de Lisboa, uma das formas encontradas para financiar a operação.

Daqui ao passo da internacionalização não demorou muito tempo. O grupo expandiu-se para a Europa de Leste, para o mercado polaco, onde atualmente tem mais de 2000 lojas. Além da Polónia, o grupo tem hoje uma forte presença na Colômbia.

Nomes como os hipermercados Pingo Doce, Olá, Recheio, Iglo, Fima, Lever, Vidago, Melgaço & Pedras Salgadas, Azeites Gallo, supermercados da Sé no Brasil, e Lilly Wite no Reino Unido e Irlanda do Norte fazem parte, entre outras marcas, do império "Jerónimo Martins".

Fundação Francisco Manuel dos Santos

A larga fortuna que foi acumulando ao longo dos anos fez com que Alexandre Soares dos Santos tivesse o seu nome inscrito em várias listas da Revista Forbes durante a última década. Preocupado em deixar um contributo sólido à comunidade nacional, Alexandre Soares do Santos criou em 2009, junto com a sua família, a Fundação Francisco Manuel dos Santos.

O empresário quis assim homenagear o homem que esteve na génese da criação do grupo "Jerónimo Martins", seu avô materno e tio-avô de Alexandre Soares dos Santos, perpetuando o seu papel no desenvolvimento da sociedade portuguesa. A fundação visa estudar os grandes temas nacionais, gerindo e alimentando, com tais estudos, o portal "Pordata", base de dados do Portugal Contemporâneo. Recentemente lançou a coleção de livros de ensaio, a preços reduzidos, sobre temas da atualidade sob o desígnio conhecer Portugal, pensar o país, e contribuir para a identificação e resolução dos problemas nacionais.

Alexandre Soares dos Santos casou em Lisboa, na igreja da Madre de Deus, em dezembro de 1957, com Maria Teresa Canas da Silveira e Castro, de quem teve sete filhos e filhas. A sua atividade empresarial mereceram-lhe várias condecorações e homenagens, tendo sido agraciado, em 1992, com a comenda de Grande-Oficial da Ordem de Mérito Empresarial Classe Comercial; em 2000 com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, e em 2006 com a Grã-Cruz da Ordem de Mérito.

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