António Comprido faz aviso: "Tentar artificialmente intervir nos preços normalmente dá mau resultado"
A Vida do Dinheiro

António Comprido faz aviso: "Tentar artificialmente intervir nos preços normalmente dá mau resultado"

A guerra na Ucrânia e esta crise energética vieram demonstrar que a economia ainda depende muito dos combustíveis​ fósseis. Neste contexto geopolítico é inevitável que o processo de descaracterização desacelere ou, pelo contrário, vai haver ainda mais investimento?

É uma pergunta que muita gente faz e há respostas até contraditórias. Por um lado, sente-se um pouco a urgência de nos libertarmos dos combustíveis fósseis, principalmente os [países] que não têm esses recursos. Os que têm recursos provavelmente prefeririam que demorasse mais algum tempo. Por outro lado, toda esta turbulência nos mercados financeiros, a maneira como os investimentos se vão dirigir, as dúvidas que se põem também podem colocar algum abrandamento. Por isso, não sei responder se de alguma forma vai ser um incentivo para acelerar a transição energética ou se pelo contrário vai haver um retardamento. Acho que direccionalmente estão estabelecidas as metas que da União Europeia (UE) e de outros países do mundo, nomeadamente com os acordos de Paris e em Glasgow. Há compromissos a cumprir e julgo que não haverá um retrocesso, poderá haver é alguma alteração do ritmo, mas não retrocesso.

Portanto, está convencido que não haverá aqui nenhum atraso em relação aquilo que foram as metas pré-estabelecidas?

Eu creio que não, mas tudo vai depender muito de como é que as coisas vão evoluir. Eu julgo que ainda não temos totalmente consciência do que é que se está a passar e é um bocadinho difícil adivinhar o futuro. Isto é uma guerra curta ou é uma guerra longa? É uma guerra que se vai cingir à Ucrânia e à Rússia ou, esperemos bem que não, vai estender-se a outros protagonistas? Qual é o impacto que isto tem no comércio mundial? Como vão reagir países emergentes como a China, a Índia e outros a toda esta crise? Não é fácil anteciparmos o que vai ser o futuro a curto-médio prazo [...] nem quais vão ser as consequências das sanções. Destinam-se a sancionar o que a Europa considerou o estado agressor, mas tem um bocadinho o efeito boomerang, vai haver sem qualquer sombra de dúvidas repercussões na nossa própria economia. Aliás, já estamos a sentir com as taxas de inflação (que já se estavam a começar a sentir antes da guerra), em crescente como já não estávamos habituados. [...]

Falava nas sanções . O Conselho Europeu admitiu esta semana que é uma questão de tempo até as sanções contra a Rússia se alargarem às importações de petróleo e gás. Isto é exequível? Qual é a alternativa?

Quando falamos na Europa temos tendência a pensar num bloco homogêneo, e está muito longe de ser homogêneo. Nem todos os países estão na mesma situação e nós temos, por exemplo, refinarias na Europa central que estão ligadas diretamente por oleoduto aos campos de produção da Rússia e também noutros países à volta. E esses [países] não têm grandes alternativas se for cortada a importação de petróleo. Eventualmente vai paralisar essas refinarias porque não é de um momento para o outro que se instala outro oleoduto para substituir o existente. Depois temos todos países da Grã-Bretanha, que já não fazem parte da UE, os países da Europa do Sul e Ocidental, como é o caso de Portugal onde felizmente não estamos ligados fisicamente ao produtor Rússia e, portanto, o petróleo é um mercado global e existem muitos produtores e é possível substituir fisicamente a produção e exportação russa. É tudo uma questão de preço depois, obviamente. Mas de escassez de produto isso não acontecerá. Portanto, o efeito que vai estar em países como a Hungria, República Checa e, eventualmente, a Polónia, e em países como Espanha, Portugal, Itália e Grã-Bretanha será totalmente diferente, daí também a dificuldade por vezes em arranjar consenso relativamente às sanções. Eu diria que um embargo total à importação de petróleo russo vai ser difícil de concretizar a curto prazo principalmente porque há países que estão totalmente dependentes das importações da Rússia e, com certeza, se não tiverem alternativas, vão-se opor. Mas, enfim, os valores políticos e as questões políticas ultrapassam muitas vezes a questão da racionalidade económica e não sei exatamente como é que esses países estão dispostos a ceder e como a um interesse global que seria de facto sanções adicionais cortando a importação de petróleo e gás, o carvão já está. Mas o carvão também é mais fácil porque se pode importar e descarregar em portos e depois ser transportado por via férrea ou rodovia aos sítios onde é consumido e na Europa também cada vez se consome menos carvão e também não é a matéria principal para a produção de energia. Já o mesmo não se passa com o gás onde também muitos países estão fisicamente ligados por gasodutos à Rússia. Não é o caso, mais uma vez, de Portugal onde sim, temos gasodutos, mas para o Norte de África onde também há problemas porque há o conflito entre a Argélia e Marrocos que tem impedido a importação do gás da Argélia para a Península Ibérica. Mas temos em contrapartida os terminais para receção de metaneiros com gás natural liquefeito (GNL) o que também nos dá uma flexibilidade bastante superior àquela que existe nalguns países como na Alemanha que tomou uma decisão há uns anos - e que hoje deve estar muito arrependida - de não ter avançado com a construção dos terminais de receção de GNL e avançar para o Nordstream2, reforçando a ligação por gasoduto à Rússia. A Alemanha estará numa posição muito difícil como estarão também outros países da Europa Central.

No caso português o Governo tem vindo a anunciar uma série de medidas para mitigar o impacto desta guerra e desta crise energética e anunciou há pouco tempo o aumento do apoio à aquisição de veículos elétricos. É por aqui o caminho? Como é que o sector vê esta aposta?

Há dois aspetos a considerar. Os apoios são limitados apesar de tudo, o número de veículos que têm direito ao benefício é relativamente pequeno e há outra coisa que é importante recordar que é o nível de preços de veículos elétricos ainda ser elevado e não estar ao alcance da maioria das pessoas. Devo recordar que na maioria dos países da Europa, mesmo até na Alemanha, a maioria dos carros são adquiridos em segunda mão, as famílias não têm dinheiro para comprar carros novos. Por acaso Portugal é um bocadinho exceção, temos um número de carros novos e especialmente de veículos elétricos que quando correlacionados com o PIB estão completamente fora da linha de correlação. Por isso, poderá suavizar para algumas pessoas e diria que até se calhar não para aquelas que precisam mais porque de facto as pessoas que têm meia dúzia de milhares de euros para investir num carro, ou nem isso têm e terão de arranjar, não vão conseguir aceder a esse benefício. Achamos que a eletrificação em termos de descarbonização é uma linha a prosseguir em paralelo com outras [...], mas é uma via importante e a prosseguir principalmente num país que como forma de energia a única que tem é a energia elétrica a partir das fontes renováveis. Portanto, isso faz sentido numa ótica portuguesa, mas não vai resolver o problema do preço do petróleo e do gás nos próximos meses ou nos próximos anos. É o caminho de longo prazo e na lógica da descarbonização. É um caminho e não o único caminho, e não é com certeza a medida com mais impacto para enfrentar o problema dos preços do petróleo ou do gás nesta fase.

Que outro caminho defende?

Estamos muito focados no preço da energia porque de facto tem reflexos em toda a economia, mas estamos a assistir a um aumento não só na energia, mas em muitas matérias-primas. os preços estão a disparar desde produtos agrícolas...e não é só por causa do custo do transporte. Mesmo antes do custo do transporte já temos nos mercados internacionais matérias-primas a disparar os preços sejam eles para a indústria, para a construção civil, aço, alumínio, cimento, farinha....Há de facto um disparo que tem muito a ver com estas mercadorias serem transacionadas em mercados financeiros. Há um grande nervosismo nos mercados financeiros, há uma perspetiva que os preços podem continuar a subir e isto é um bocadinho bola de neve e vai haver uma altura em que vai parar e amainar porque não há nada que suba sempre ou nada que desça sempre. Mas na realidade se nós pensarmos que as cotações internacionais são algo sobre as quais qualquer Estado individual não consegue intervir, portanto somos um tomador de preços, pagamos os produtos petrolíferos ao preço que os mercados internacionais definem. Aí não podemos definir. E depois o que é que sobra quando olhamos para o preço que pagamos na bomba [de gasolina]? Sobra uma carga fiscal assinalável e essa sim é da soberania dos Estados ao nível de ISP [Imposto sobre Produtos Petrolíferos], não ao nível de IVA que como se sabe até há um pedido do Governo português que eu, enfim, pessoalmente tenho algumas dúvidas que seja bem-sucedido porque não sei se a própria Comissão Europeia tem autoridade para conceder essa autorização porque estão definidos quais são os produtos que podem ser elegíveis para taxas reduzidas de IVA. Não me parece que os produtos petrolíferos estejam nessa categoria, mas enfim, é um momento excecional pode ser que haja um tratamento excecional da Comissão Europeia. [Continuando a analisar a fatura dos combustíveis] depois temos aquilo que sobra de distribuição, armazenagem, reservas, tudo isso que é pago em território nacional e, além disso, as margens que remuneram todos os intervenientes da cadeia de valor. E se olharmos para essa componente é muito pequenina, estamos a falar em 10 ou 12% do valor final. Portanto, o grosso da coluna é a cotações dos produtos - não conseguimos fazer nada a -, ou os impostos. Decompondo o imposto em IVA e ISP parece obviamente o único sítio que há para mexer do ponto de vista de composição de preço. Agora se há margem orçamental para fazer isso ou não isso é uma questão que só o ministro das Finanças é que poderá responder. A única ferramenta disponível é mexer no ISP que aliás é o que outros países têm feito. Por exemplo, Espanha anunciou uma redução de 15 cêntimos por litro no ISP, França anunciou também reduções e apoios porque é a única ferramenta que os Estados têm, mas obviamente que isso tem consequências orçamentais, há muita gente a necessitar de apoios e como o dinheiro não é infinito compete ao Estado ver qual é a melhor solução.

Face ao atual cenário, poderemos vir a ter algum racionamento de bens energéticos?

Eu não creio. Nós do ponto de vista de produção de eletricidade não parece que haja problemas, quer pela produção endógena, apesar de termos fechado as centrais a carvão, mas temos as centrais de cogeração a gás e já vimos que não temos problemas em princípio de abastecimento de gás. Por aí, na produção de eletricidade, não me parece haver problema. Às vezes diz-se que eletricidade é igual a energia, mas não é bem assim. A eletricidade representa entre 20 a 30% do consumo final de energia, há muita energia que é a partir do gás diretamente, seja GPL ou gás natural, a partir dos combustíveis líquidos, e aí também não me parece que haja [problemas]. Portugal está bem posicionado pela tal razão de não estar [ligado] por tubos rigidamente aos produtores, pode ir buscar petróleo praticamente à América do Norte, à América Central, África, Médio Oriente... portanto, não me parece que haja problemas. Há sempre a questão do preço, mas não a questão da escassez. Também a refinaria nacional consegue-se abastecer de crude e tem produção suficiente para abastecer o mercado nacional quer em gasolina, gasóleo ou em jet para a aviação. E depois temos as refinarias aqui ao lado em Espanha, nós não temos as fronteiras fechadas, é perfeitamente possível e vai-se já hoje buscar produtos às refinarias espanholas. Portanto, não adivinho ou não antecipo necessidades de racionamento, deixem-se usar a palavra, por escassez de produto. Pode haver por outras razões, por razões económicas, de preço, por razões de eficiência energética que se queira efetivamente levar a uma redução do consumo, mas não me parece que estejamos numa situação de risco de escassez de produtos.

Falou no preço do petróleo que tem disparado nos mercados internacionais, mas que se tem refletido, obviamente, nos preços dos combustíveis que têm atingido máximos. Até onde poderá chegar este aumento?

Nós agora até estamos num certo abrandamento, esta semana as cotações têm-se mantido ligeiramente estáveis até com uma tendência para reduzir. Como já disse, isto é um mercado que é influenciado pelas expectativas. Cada vez que se diz que há alguma probabilidade de haver progressos nas negociações [entre a Ucrânia e a Rússia] normalmente conduz a um abrandamento nas cotações internacionais. [...] Também há a questão do anúncio das sanções. Entre o anúncio de uma sanção e o impacto efetivo dessa sanção é capaz de demorar meses e, no entanto, o efeito às vezes nos preços internacionais é imediato porque vive-se muito destas expectativas. Não sei, até há pouco havia gente a dizer que ia chegar aos 200 dólares, o que é facto é que já desceu para mais, já está neste momento na casa dos 105 e 110 dólares. Eu acho que a não ser que aconteça, e esperemos todos que não, um alargamento do conflito com mais intervenientes e que se tornasse um conflito geral e não apenas local, não me parece que haja razões objetivas que levem a uma escalada incontrolada dos preços. Poderá subir mais um pouco, mas também poderá descer se de repente começar a haver expectativas que o conflito se possa resolver pela via diplomática e que haja um fim da guerra ou pelo menos um abrandamento das hostilidades.

As gasolineiras têm sido bastante criticadas por terem subido tão rapidamente os preços quando, na realidade, o que estava a ser vendido era combustível armazenado e, portanto, comprado a um valor mais baixo do que era praticado no início da crise energética. Existe uma explicação para isto?

Existe. Mas já agora deixe-me fazer uma observação, eu nunca vi essa preocupação levantada quando em 2020 os preços vieram por aí abaixo e ninguém se preocupou em dizer que as companhias tinham comprado ao preço mais caro e estavam obrigadas a vendê-lo mais baixo. Isto são negócios de grandes quantidades e de margens muito estreitas. Não estou aqui a dizer que tenho muita pena das companhias petrolíferas. Elas perdem dinheiro às vezes em alguns sectores e ganham noutros e, já agora, deixem-me fazer uma observação que quem ​efetivamente está a ganhar são os produtores de petróleo, quer a nível de empresas quer de países porque quando estamos a falar da parte do donwstream [refinação e venda dos produtos] aí ninguém ganha por os preços estarem muito altos.

Os preços são normalmente calculados numa lógica de custo-reposição. O que eu quero dizer com isto? Como as margens são muito estreitas não permitem acomodar as variações dos valores dos stocks. Portanto, eu estou a vender um produto hoje e não me interessa a quanto o comprei, se mais caro ou mais barato. Eu faço as contas é a quanto é que me vai custar repor o produto que estou hoje a vender. Trabalha-se com os chamados custos de reposição porque, pondo alguns números em cima da mesa para se perceber melhor, eu comprei a 100 vendi a 105, mas, entretanto, o produto já está a 110, portanto eu com os 105 a que vendi já não ia conseguir repor o produto a 110. se for ao contrário também é verdade, estaria a fazer um lucro extraordinário. Ou seja, trabalha-se numa lógica de custos de reposição, por isso é que os preços normalmente refletem em Portugal as médias da cotação da semana anterior. Mas posso dizer que na maioria dos países europeus os preços refletem os preços do momento, há países onde varia todos os dias e há países que variam até mais do que uma vez ao dia. Aqui em Portugal, porque esta é a prática comercial do nosso aparelho refinador, está estabelecido preços para a semana baseados nas cotações médias da semana anterior e, portanto, é sempre numa lógica de quanto me vai custar repor os stocks e não numa lógica quanto é que me custou adquirir o produto quer ele tenha sido adquirido mais caro ou mais barato.

Estamos a falar em variações em função da cotação, mas o que temos assistido é que de facto as descidas não têm sido proporcionais não só às subidas como às oscilações da própria cotação. As empresas continuam a rejeitar a explicação que a maioria dos consumidores encontra. Mas então...porque é que isto acontece?

Isso é não acontece, peço desculpa por rejeitar a sua opinião. Isso é uma ideia feita, mas que não encontra suporte na realidade. Se formos a qualquer site ver as variações dos produtos vemos que as curvas são perfeitamente paralelas: quando há descidas o preço com uma semana de atraso desce, quando há subidas com uma semana de atraso sobe.

O que eu disse foi não proporcionalmente, ou seja, quando vemos a fórmula utilizada pelo Governo para cálculo do ISP e que está indexado à cotação no mercado internacional e nos valores semanalmente divulgados dos preços médios de venda não coincide com o que depois...

Nem tem de coincidir por várias razões. Primeiro porque essa fórmula não representa todas as componentes do preço. Por exemplo, não tem em conta a questão dos biocombustíveis que também tem um peso razoável na composição do preço e que se bem me lembro pela fórmula [do Governo] não tem em conta efetivamente o custo dos biocombustíveis que também variam muito, às vezes estão mais longe outras vezes mais perto dos combustíveis fósseis. Além disso, posso estar aqui a cometer uma gafe, mas julgo que não, o Governo faz [os cálculos] numa base de semana incompleta, não entra com os valores do último dia [sexta-feira], o que significa que está a fazer uma média de quatro dias que depois pode ser alterada. Depois há outra coisa, nós vamos aos sites da DGEG ver os preços, mas também há atrasos na comunicação. Eu vejo o site da DGEG todos os dias e vejo que quer nas subidas quer nas descidas não acontece... elas poderão acontecer todas na segunda-feira, mas na realidade a comunicação das variações não acontece logo na segunda-feira. [...] E estamos sempre a falar em valores médios, é preciso ver que alguns comercializadores como é o caso de hipermercados que praticam preços mais baixos e em grandes quantidades influenciam muito a média, porque a média que a DGEG publica é ponderada, provavelmente tem tendência para fazer variações menores. É preciso não esquecer que também há outra coisa muito importante é que isto é um mercado onde se praticam imensos descontos, imensas campanhas, e realmente não é o preço que está anunciado no pórtico que a maioria das pessoas paga. Todos estes aspetos, e eu tenho assistido agora que muitas empresas têm reforçado as suas "ofertas", entre aspas porque ninguém dá nada a ninguém. Mas para tornar mais apelativo e ajudar a mitigar as alterações para os consumidores, têm aumentado os descontos, feito campanhas...[...] Isso por vezes não é refletido no preço que é publicado. Porque o preço que é publicado é o que está no pórtico baseado num desconto médio do ano anterior. Nem tudo é imediatamente refletido. Além disso, não nos podemos esquecer que isto é um mercado liberalizado, onde cada posto, pelo menos em teoria, pode estabelecer o preço que quiser.

Tem defendido que a descida do preço ao consumidor só poderá ser feita através da fatia da fiscalidade. Mas, atualmente, qual é a margem de lucro das petrolíferas, e como é que compara com a que se verificava há uma ano?

Olhe, não sei dizer qual é a margem de lucro porque, como imagina, isso vai depender muito da estrutura de custos de cada companhia, que é diferente de companhia para companhia. [...] Posso ter duas empresas - quer seja no retalho ou no mercado por grosso - a vender a preços semelhantes e têm margens de lucros diferentes, dependendo se são mais ou menos eficientes. O que posso dizer é que com os dados que estão disponíveis, olho para o preço médio de venda - e enfim, os preços da DGEG têm como disse alguma componente de descontos, mas são baseados em valores que foram praticados no ano anterior e, portanto, não correspondem imediatamente à realidade - retiro o preço da cotação, retiro os valores dos impostos e sobra-me uma tal fatia que são os custos de operação das empresas mais a sua margem de lucro e não tenho visto essa fatia aumentar. A minha constatação é que essa fatia não aumenta. Estou a falar sempre em termos médios, agora se há uma empresa A, B ou C porque é mais capaz ou é mais eficiente ou está a conseguir ter melhores resultados... Mas sabe que há uma coisa que muitas vezes as pessoas confundem. Fala-se na indústria petrolífera e faz-se isso como se fosse uma coisa homogénea. Mas devo dizer que quem está a fazer mais dinheiro, porque é lógico já que a matéria-prima está mais cara, é quem a produz. [...] No caso português temos a Galp, o único refinador em Portugal. Provavelmente a sua área de produção que tem no Brasil e noutras áreas está a fazer mais dinheiro, porque uma coisa é estar a vender o petróleo a 30 dólares ou a vendê-lo a 100 dólares. Se bem que nem todo o dinheiro vai para o fornecedor porque normalmente as taxas que se pagam aos países onde é feita a exploração também estão indexadas ao valor do produto. Não vai tudo, nem pouco mais ou menos, para o produtor, e depois olha-se para as contas e diz-se que a empresa A aumentou os seus lucros em relação ao ano passado - ainda por cima quando vínhamos de um período de grande queda nos resultados - mas normalmente aumentou do lado da produção e não propriamente do lado da refinação e comercialização de produtos. Não tenho os dados das empresas - só posso olhar para os relatórios e contas que são publicados - mas da análise que faço da evolução não me parece que haja qualquer aumento de margens das companhias.

As comercializadoras não estão a ganhar mais com este forte aumento?

Não me parece que estejam, na atividade de comercialização de produtos petrolíferos. Poderá a refinaria estar a ganhar mais porque as condições são mais ou menos vantajosas. Mas lembro que a atividade de refinação é em muitos períodos de tempo até deficitária. Não é infrequente as refinarias estarem a trabalhar com margens negativas porque estão entaladas entre dois mercados: o da compra da matéria-prima e o da venda dos produtos refinados, que são independentes. Portanto, posso estar a comprar matéria-prima muito cara e não conseguir vender os meus produtos tão caros como isso, como pode acontecer ao contrário, haver uma escassez de produtos e eu estar a ter matéria-prima a um preço e a vender os meus produtos acima. A margem da refinação também varia ao longo do tempo. E isso depois acaba por influenciar o preço final.

O ex-ministro da Economia mostrou-se crente, quando anunciou as medidas que estão atualmente em vigor, que não haveria aproveitamento nenhum por parte das gasolineiras. Por outro lado, também disse que o instrumento preferencial para a intervenção do governo era o IVA, ao contrário do que já defendeu aqui, precisamente porque as gasolineiras tendem a absorver as descidas do ISP, palavras do agora ex-ministro. Também Matos Fernandes insinuou que haveria subidas duvidosas no preço e até concertação entre as marcas. Estamos a assistir a uma passagem desta desconfiança do plano do consumidor para o plano político?

Não gosto muito de comentar as afirmações dos políticos, mas devo dizer que as afirmações dos políticos são muitas vezes influenciadas por aquilo que acham que as pessoas vão gostar de ouvir que eles digam. Tenho que dar sempre um desconto às afirmações dos políticos. O engenheiro Matos Fernandes fez várias vezes afirmações completamente desprovidas de propósito, de oportunidade e até injustas, levantando suspeitas relativamente a um setor que não tem razão nenhuma para levantar suspeitas. Relativamente a essa história que é melhor o IVA do que o ISP, francamente vi sempre ao longo da minha vida - e já estou há muitos anos nisto - as alterações de ISP que normalmente são decretadas à meia-noite de um dia de sexta-feira para serem refletidas nos preços da segunda-feira seguinte. Seja para descer, seja para subir. Infelizmente assistimos muito mais a subidas do que a descidas. Assistimos a descidas agora pontualmente com esta crise. Mas carece de fundamento essa afirmação. Diria que há algum populismo nessas afirmações só isso para mim é que justifica que isso seja feito. Evidentemente que o IVA tem um tipo de controlo diferente porque as empresas não podem ficar com o dinheiro, têm de o entregar ao Estado, e sob esse​ ponto de vista sim, é um sistema mais controlado. Mas só sob o ponto de vista, digamos, administrativo do tratamento do IVA em relação ao tratamento do ISP.

Já teve ou já pediu o agendamento de alguma reunião com o novo ministro? E aproveito também para perguntar o que pensa desse novo ministro e como vê a junção das secretarias de Estado do Ambiente e da Energia? Existe alguma colisão ou esta junção é preferível?

É uma tendência que vem desde a organização da própria Comissão Europeia, com os seus vários comissários, que junta as áreas do Ambiente e da Energia, e o Ambiente no sentido alargado, incluindo também a parte das ações climáticas. De facto, a energia tem um peso grande principalmente a nível das ações climáticas e até de outros fatores de clima, embora haja outras atividades como a agricultura, as pescas e a atividade industrial que têm um impacto enorme no ambiente. A questão da energia tem mais a ver com​ a questão das emissões. Portanto, não me choca nada. Desde que, e esperemos que isso aconteça, os responsáveis governamentais tenham posições equilibradas - as palavras não são minhas, são de qualquer especialista na matéria - de sustentabilidade do ponto de vista ambiental, do ponto de vista social e do ponto de vista económico. Se pegarmos apenas numa das dimensões e a fizermos prevalecer desprezando as outras duas podemos conduzir a maus resultados. Desde que haja esse equilíbrio, de pensar que temos que ser sustentáveis, mas do ponto de vista económico, social e ambiental, e não ponhamos o ambiente como prioridade absoluta em relação a tudo o resto e que se tenham em conta os outros aspetos, não temos absolutamente nada contra o modelo de juntar o Ambiente à Energia. Quanto à sua pergunta, ainda não pedimos, mas tencionamos pedir. O governo praticamente só agora é que vai começar a entrar em funções. Mas iremos muito rapidamente solicitar, como é costume sempre que há posse de um novo governo. Estas conversas são normalmente calmas e não vamos com cadernos reivindicativos, não é esse o nosso tipo. Mas sim apresentar quais são as nossas preocupações e os nossos pontos de vista relativamente a questões que consideramos importantes para a economia nacional.

Como avalia de forma global e resumida o que os Estados-membros da UE estão a querer implementar para mitigar o aumento dos preços da energia. São suficientes? E nomeadamente a medida para impor tetos ao preço do gás natural para a produção de eletricidade. Que impacto poderá ter?

Não sou especialista, mas já falei com alguns especialistas e isso não é tão simples como isso. Porque às vezes quando é dito dessa maneira dá impressão que vamos impor um preço no gás natural em Portugal. Não vamos impor preço rigorosamente nenhum. O gás natural em Portugal vai ser pago ao preço dos mercados internacionais. Quando se diz que o produtor de eletricidade que usa gás natural para produzir eletricidade não pode usar o preço acima de um determinado valor, está a criar-se aqui um défice tarifário. E esse défice tarifário vai ter de ser pago por alguém e isso ainda não foi explicado e, portanto, tenho uma ideia do que irá acontecer. Nenhum Estado consegue impor limitações, pode impor limitações legislativas, mas depois vai ter que compensar de outra maneira. Quando estamos em crises como esta, penso que o essencial é dar apoio e suporte à economia, quer às famílias mais vulneráveis, quer às empresas mais vulneráveis. Porque tentar artificialmente e administrativamente intervir na lógica do mercado e nos preços normalmente dá mau resultado. A maioria dos países estão efetivamente a entrar pela lógica de dar suporte aos mais vulneráveis e aí temos o problema da situação portuguesa quando comparada por exemplo com a situação alemã. É evidente que os alemães têm muito mais capacidade de suportar as suas empresas e as suas populações do que Portugal com o nível de dívida que temos. Temos um nível de dívida enorme e o suporte que possa ser dado tem que ter isso em conta porque não vai ser indefinidamente e eternamente que nos vão continuar a emprestar dinheiro a juros baixos. Aliás, já vemos os juros a aumentar, mas isso está a aumentar para todos. Portanto, tem variado muito de Estado para Estado e julgo que depende muito da economia de cada um. Há quem tenha condições para dar suporte mais relevante e há quem não tenha essas condições.

Quando diz que tem uma ideia, quem é que vai pagar esse défice?

Todos nós porque, repare, o défice tarifário que ao longo dos anos se constitui na eletricidade depois era repercutido por todos os consumidores. E ainda existe, ainda não foi completamente esvaziado. Costumo dizer uma coisa que não sei se é muito politicamente correta, mas quem acaba por pagar sempre é o cidadão. Na figura de contribuinte ou na figura de consumidor. Ou paga com os seus impostos, ou paga com o preço que dá pelos bens. Porque os Estados não têm uma mina de ouro ou uma fábrica de dinheiro para acorrerem a essas situações. Usam as receitas e as receitas são os impostos que nós pagamos e, mais tarde ou mais cedo, os contribuintes através dos seus impostos ou os consumidores - e normalmente temos a figura dupla de consumidor e de contribuinte - vamos ter que ou pagar pelo preço das coisas ou através da subsidiação, utilizando o dinheiro dos nossos impostos.

Na próxima semana os portugueses vão poder abastecer mais caro ou mais barato?

Esta semana está incompleta, ainda só temos cotações de três dias, mas a tendência é de uma certa acalmia com uma ligeira tendência de descida das cotações. Não posso falar em preços, o mercado é livre cada um faz os preços que acha por bem, mas olhando para as cotações da gasolina e do gasóleo nos mercados internacionais assistimos a uma ligeira descida nos três primeiros dias desta semana. Se quinta e sexta-feira confirmarem esta tendência é natural que tenhamos na próxima semana preços idênticos ou até provavelmente mais baixos do que os que tivemos esta semana.

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