ANTRAM pede que, "à boleia da guerra", as gasolineiras não possam aumentar os lucros
A Vida do Dinheiro

ANTRAM pede que, "à boleia da guerra", as gasolineiras não possam aumentar os lucros

Com uma crise à espreita no setor devido aos aumentos sucessivos no gasóleo os empresários dos transportes rodoviários reúnem este sábado em Pombal.

Da reunião da Associação Nacional dos Transportadores Públicos Rodoviários de Mercadorias (ANTRAM) vai sair um caderno reivindicativo para ser entregue ao Governo.

O porta-voz da ANTRAM, entrevistado este sábado pelo programa da TSF e do Dinheiro Vivo, A Vida do Dinheiro, diz esperar na reunião centenas transportadores.

André Matias de Almeida pede que o executivo lute em Bruxelas pela redução do IVA dos combustíveis, porque "a questão do IVA tem muito mais impacto para a vida dos portugueses - respeita à tesouraria que as empresas poderiam ter para que as nossas empresas não tivessem de repassar imediatamente esse custo" do aumento do gasóleo para a fatura dos clientes.

Nesta entrevista a ANTRAM pede ainda ao Governo uma linha de apoio à tesouraria das empresas. Um apoio "fundamental para assegurar a continuidade destas empresas, dos postos de trabalho e das entregas sem interrupção".

Outra reivindicação que a ANTRAM coloca em cima da mesa é o cumprimento do acordo estabelecido com a Associação das Empresas de Distribuição (APED) para as cargas e descargas.

"Eu não posso ter uma carga e descarga a demorar seis horas quando se prevê que leve duas - esse veículo já não fará as mesmas entregas no dia, a horas" e por isso não há produtividade no setor, argumenta André Matias de Almeida.

Face aos aumentos sucessivos nos combustíveis o porta-voz da ANTRAM denuncia que as gasolineiras estão a lucrar com uma melhoria das receitas. E, "não se pode, à boleia de uma guerra e de problemas económicos, ter margens mais altas de lucro - as pessoas não o entenderiam e as empresas não o suportariam", defende.

Assim, o Governo deveria ter sido rápido a fixar um teto para as margens de lucro, uma Lei que foi aprovada há meio ano mas que tem uma fórmula de cálculo que ainda está a ser afinada pela Entidade Reguladora do Setor Energético (ERSE).

André Matias de Almeida é o rosto e a voz da ANTRAM, a Associação Nacional dos Transportadores Rodoviários de Mercadorias (ANTRAM), que representa 2600 transportadoras, ou seja, 80% dos camiões em Portugal. Tem uma carreira na advocacia onde exerce atividade na área do direito comercial e das sociedades.

O governo agiu relativamente a essas subidas anteriores à guerra da Ucrânia. Essas medidas não tiveram impacto nenhum nas transportadoras?

Tivemos duas reuniões com o governo antes de se lançar as medidas de 2021, o IUC e o primeiro pacote de Autovoucher. Este é uma medida exclusivamente aplicada aos consumidores, não tem impacto para as transportadoras. E o IUC tem um efeito de 200 euros por veículo - logo tem pouco sumo para a sobrevivência das empresas de forma mais competitiva num mercado global. Também nas medidas de agora, o Autovoucher tem mais uma vez impacto só para as pessoas e o ISP tem efeito nulo, porque as empresas já estavam no escalão mínimo. Por isso, mais do que nunca, olhamos isto com toda a preocupação - por isso queremos avaliar medidas, anseios, preocupações e uma visão de futuro para este setor.

Que medidas podem ser apresentadas ao governo para mitigar o impacto dos aumentos dos combustíveis no transporte de mercadorias - tendo o governo já dito que o IVA depende de Bruxelas?

A questão do IVA tem muito mais impacto para a vida dos portugueses - respeita à tesouraria que as empresas poderiam ter para que as nossas empresas não tivessem de repassar imediatamente esse custo. Seria importante para nós que o governo levantasse a questão em Bruxelas. Mas há duas outras essenciais que apresentámos. Em primeiro lugar, a possibilidade de podermos deduzir ao IRC o investimento em frota sustentável. É hoje evidente que uma frota sustentável e eficiente melhora as entregas, entrega mais rápido, melhora a eficiência das empresas e a produtividade - fator que importa sublinhar, porque mais produtividade significa melhores resultados para as empresas, para os clientes delas e menos custo para o consumidor final. A produtividade não está só nas mãos da ANTRAM e do governo, está sobretudo nas dos clientes. Só a união entre os três - medidas governamentais e alterações necessárias à lei, empresas de transporte rodoviário de mercadorias e clientes, que vão de hospitais, a gasolineiras, grandes superfícies e APED - pode melhorar a produtividade. Eu não posso ter uma carga e descarga a demorar seis horas quando se prevê que leve duas - esse veículo já não fará as mesmas entregas no dia, a horas, terá de haver afetação diferente...

Porque demora tanto mais?

Pedro Nuno Santos já teve uma reunião com ANTRAM e APED para que esta consequência desaparecesse. Na sequência da crise dos combustíveis foi criado um grupo de trabalho que previa medidas, sendo uma das mais importantes esta regularização das cargas e descargas. Chamou-se-lhe mesmo Grupo das Cargas e Descargas. E não estamos com eficiência máximo, o que significa baixa produtividade e impacto no consumidor final, porque as empresas passarão o custo ao cliente - e alguns já entendem isso. Aumentando produtividade, diminuirão os custos no consumidor final. Isto é caminho a fazer entre as entidades envolvidas para que as empresas não olhem só para a eficiência dos seus veículos como veículos que circulam sem consumir combustíveis fósseis. A produtividade tem mais caminhos.

Não se avançou no protocolo assinado por esse grupo?

Esse acordo foi um grande passo, há que sublinhá-lo, com esforços de todas as entidades. A verdade é que passar da teoria à prática não teve eficácia a 100%, continua a haver falhas, a discutir-se de quem é a responsabilidade na carga/descarga, se é do motorista se da entidade, em que casos... isso continua a criar deficiências nas entregas que nos retiram eficiência e produtividade.

O peso do combustível na estrutura de custos de um camião passou de 30% a 40% desde o início do ano (são dois milhões de litros de gasóleo gastos todos os meses). Isto é comportável?

De fevereiro de 2021 a 2022, o aumento nos combustíveis foi de 27%. A percentagem de peso que o combustível tem numa empresa de transportes são 40%. Basta olhar para a gestão de uma empresa para entender que uma das variáveis aumentar 27% num ano é incomportável e tem de se fazer uma de duas coisas: reduzir despesa ou aumentar receita. A despesa só pode ser por uma via: despedir pessoas e reduzir frota. A receita passando custos ou arranjando novos clientes. Não é ciência atómica. Por isso há muito alertamos que haverá - e já está a acontecer - um número elevado de empresas a estudar vias alternativas para reduzir custos. Porque nem sempre é possível, contratual ou negocialmente, chegar a entendimento com o cliente para aumentar custos, nas mais das vezes ele não o pode suportar. E quando assim é, só resta a via do despedimento. E este despedimento representará redução acentuada da receita para o Estado, porque as empresas deixarão de ter contribuições fiscais no que respeita a estes trabalhadores e no IRC; e mais despesa para o Estado, que terá de pagar subsídios de desemprego, mais os problemas fiscais das empresas insolventes. É preciso alterar a visão destas empresas, ou seja, hoje olhar o setor rodoviário de mercadorias e tratá-lo como se de mero transporte se tratasse é um erro crasso. Creio que as pessoas compreendem que não podemos deixar de ter transporte e que isso tem impacto no círculo do consumo do produtor ao consumidor final - e estas empresas têm um papel fundamental. Somos um importante player, no sentido em que se houver aumento de custos no transporte, obviamente vai subir o preço no consumidor final. É isso que mais nos preocupa hoje: os números que avançámos em fevereiro de 2021 já eram assustadores, e a cada ano que o governo aumenta o salário mínimo (SMN) isso tem impacto direto e imediato nos trabalhadores destas empresas, porque pela convenção coletiva do setor os salários destes trabalhadores sobem na proporção do aumento do SMN. Isto somado ao aumento de custos nos combustíveis deixa claro que as empresas deixarão de ter viabilidade num futuro muito próximo.

Que vias alternativas podem as empresas adotar contra os despedimentos coletivos e para não se refletir os aumentos no cliente?

A ANTRAM representa dezenas de milhões de contribuição para o Estado e é responsável. Por isso entendemos que esta altura é de união e desígnio nacional, por isso devemos olhar o problema que todos atravessamos de forma unida. O preço do barril está em números nunca vistos e a diminuição da procura em face da oferta relativamente à Rússia pode fazê-lo subir ainda mais, mas queremos acreditar que esta situação é passageira. Que vivemos uma situação imprevisível, mas momentânea. E por isso pedimos medidas momentâneas. Uma, fundamental para assegurar a continuidade destas empresas, dos postos de trabalho e das entregas sem interrupção, seria uma linha de apoio à tesouraria destas empresas, que permitisse que neste período extraordinário as empresas tivessem ajuda face ao aumento brutal.

Uma maior redução do IUC poderia fazer também diferença?

A redução que foi feita teve aquele impacto de 200 euros. Uma isenção total seria um passo, mas sendo importante o IUC não resolve o problema. Numa visão de futuro do setor, o fator chave é a produtividade. Que encerra em si uma quantidade de elementos, como o IUC, o IVA, poder deduzir no IRC investimentos em frota sustentável... Não se entende que o Estado tenha uma carga tão grande de impostos a menos que seja para fazer investimento em frota renovável - poder deduzir no IRC investimentos em frota sustentável. O SIFIDE permite a qualquer empresa que invista em I&D deduzir isso à sua coleta. Estas empresas podem usá-lo, mas não na compra de veículos. Não podemos querer frotas sustentáveis sem ajudar as empresas a ter essa frota mais sustentável e produtiva.

Em novembro, o governo anunciou que o benefício de gasóleo profissional, passou de 35 mil litros para os 40 mil litros por camião e ano. Devia haver um reforço desse abatimento?

Os 17 cêntimos de desconto no gasóleo profissional e o aumento para 40 mil litros só no transporte internacional de mercadorias têm algum impacto, mas mais uma vez peca por escasso. A ANTRAM quer destacar o passo do governo, dadas as declarações anteriores - em que deixara claro que não se podia mexer em nada nos combustíveis. É evidente que é pouco: 5 mil litros no transporte internacional tem algum impacto mas não resolve o nosso problema, nem das empresas nacionais. É importante que se olhe para esta situação e agir rapidamente, porque sem uma estratégia responsável entre governo, fornecedores e clientes caminharemos para um cenário de insolvências e de clientes nacionais a terem de começar a recorrer a transportadoras nacionais e porventura espanholas a preços diferentes dos que têm hoje, diminuindo a competitividade face a empresas espanholas e francesas.

Mas o gasóleo está bem assim?

Não, mas o que estas empresas precisem não é de mais desconto - é claro que se o governo fizesse esse esforço era importante e aumentava o nível de competitividade, mas hoje o maior flagelo das transportadoras tem que ver com os combustíveis. Determinantes seriam os apoios à tesouraria, poder ter descontos na frota, poder ter benefícios fiscais pelos postos de trabalho criados. E isso ainda não foi discutido, ainda que já o tenhamos pedido.

Os vossos camiões andam e abastecem por toda a Europa. Sentem que o preço em Portugal reflete, além da fiscalidade, as margens das gasolineiras?

As gasolineiras e a APETRO já o reconheceram: a margem aumentou em 2021. Relativamente ao aumento do preço de combustíveis de 2022 é também inequívoco que a margem está a aumentar. Também é verdade que, comparando mercado português e espanhol, há diferenças.

Aumentam menos aqui?

Aumentam menos do que a curva do mercado espanhol. Mas se a 31 de dezembro analisássemos o preço de compra no mercado regulado de petróleo de Portugal e Espanha, víamos que o valor era o mesmo, mas na venda não. E isso deve-se a dois fatores, aos impostos que o Estado imputa aos combustíveis e às margens das gasolineiras. Só de forma responsável e unida conseguiremos ter em Portugal uma visão global e concorrencial para o mercado português. Não se pode, à boleia de uma guerra e de problemas económicos, ter margens mais altas de lucro - as pessoas não o entenderiam e as empresas não o suportariam.

O preço em Espanha subiu mais do que em Portugal nesta semana. Isso teve reflexos?

Teve. Há empresas que pela primeira vez em 15 anos abasteceram em Portugal. Mas não há veículo que consiga fazer um transporte de Portugal atravessando Espanha sem abastecer, por isso quem faz cargas aqui só pode abastecer aqui ou em Espanha e com aumento de mais de 40 cêntimos em Espanha e os que vimos aqui, as empresas estão impossibilitadas de abastecer a preço mais baixo. Haverá maior abastecimento em Portugal do que antes, mas é dramático para as empresas. Para se entender o impacto na vida das pessoas - porque este setor tem impacto direto em tudo, pessoas, gasolineiras, hospitais, supermercados, agricultura, etc. - o preço de um transporte Lisboa-Porto não subia há mais de dez anos. E isso não se discutia porque se podia perder clientes. Isto tem de acabar. O preço não pode ser igual porque o produto que eu transporto aumentou, isto não é sustentável em nenhum mercado. Nem os clientes o quererão porque isso traz empresas mais deficientes, frotas mais velhas, e produtos menos bons.

O governo chegou a aprovar a possibilidade de introduzir limites máximos nas margens de comercialização de combustíveis. Cinco meses depois, ainda não foram concluídas as regras para calcular como e a proposta está em consulta pública. O Estado é mais lento do que a realidade?

Tem dificuldade em acompanhar factos internacionais que não controla. Isso levanta um problema imediato para nós: quando isso for uma realidade, haverá aplicação retroativa dessa medida? Em princípio isso não poderá acontecer, o que significa que os preços dificilmente serão reduzidos, a não ser que haja visão responsável quer do governo, nos impostos sobre combustíveis, quer das gasolineiras na margem de lucro.

Recuperar medidas como o lay-off simplificado podia ajudar?

O lay-off foi extraordinário e ajudou algumas empresas de transporte que viram os seus clientes impossibilitados de funcionar, mas na maioria dos casos os transportes tiveram de continuar a trabalhar. Se houver novamente redução de clientes em função das condições económicas isso será determinante.

Neste momento não se põe a questão?

Não, nem serve de remédio para o que atravessamos.

Face às dificuldades, ponderam regressar a protestos veementes?

A ANTRAM nunca incentivará ou fará parte de um protesto que passe por paragens que possam causar disrupção de bens de primeira necessidade, mas não escondemos a insatisfação crescente a que assistimos junto dos associados, aquilo que devem ser as preocupações em face de empresários que sofrem em silêncio, de trabalhadores que veem as suas empresas em dificuldades. Admirar-nos-ia muito pouco que algumas empresas, de forma voluntária e por sua iniciativa, tomassem o caminho de medidas de protesto - que redundariam sempre na interrupção de bens.

Mas tem informação de que possa acontecer?

Temos informação de que há muitos empresários insatisfeitos, de que hoje a preocupação é maior do que alguma vez foi e do que foram os impactos em dois meses de janeiro - 2020 e 2021, quando houve atualizações salariais - de grande impacto económico. Estamos preocupados e por isso convocámos esta reunião com os associados para auscultarmos as suas dificuldades.

O adiamento da tomada de posse do governo está a atrasar a implementação de medidas setoriais?

Parece que não há interlocutor. Os intervenientes que havia, quer nas Infraestruturas quer nas Finanças, têm respondido às nossas perguntas e preocupações no que respeita a agendamento de reuniões. Mas desconhecemos que capacidade tem de tomar decisões neste momento. É desejável saber rapidamente quem são os novos ministros, para se poder delinear planos que não contrariem quem vier depois. A tomada de decisões está comprometida enquanto não houver governo.

É o caso do adiamento da criação do Observatório Económico dos Transportes - para monitorizar e divulgar os custos associados à atividade transportadora?

É verdade. E esse observatório é algo que gostaríamos de poder discutir com detalhe - ainda não saiu do papel e é muito interessante para todos os intervenientes, como é o Grupo das Cargas e Descargas. Foi a primeira vez que se reuniu todos e isso determinou legislação totalmente nova relativamente a matérias que encerram um problema de produtividade.

Nesta guerra, vários operadores de transportes mobilizaram camiões com ajuda humanitária. Aqui também tem havido esta mobilização?

Temos notícia de uma sensibilidade enorme dos transportadores. Empresas que enviaram camiões e trailers carregados de bens de primeira necessidade e mercadorias, que já estão na Polónia; uma empresa disponibilizou veículos para terceiros e financiou ela própria o combustível para as viagens; outras que se associaram a clientes para fazer mais entregas na Ucrânia. A ANTRAM representa empresas muito responsáveis e será sempre muito firme nas preocupações dos seus representados, mas também entende qual o momento de exigir medidas ao governo e qual o momento de estarem unidos com clientes e governo - e este é um deles.

E está também disponível para aceitar refugiados?

Temos nisso um duplo interesse: primeiro, o comunitário e de ajuda, de compreender as preocupações dos refugiados que vêm; segundo, não é claro que no futuro a oferta de mão-de-obra seja tão evidente como é hoje no que respeita a motoristas. Portanto isso é importantíssimo não só do ponto de vista humanitário mas também profissional e negocial para essas empresas. Essa é das coisas que olhamos com muita atenção, não apenas os desenvolvimentos legais mas também o que pode ser a intervenção das nossas empresas para contribuir para a vinda dessas pessoas, que precisam de emprego, não só como motoristas, mas também noutras funções.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de