"Call me Joe." As frases que marcam a vida e ascensão de Berardo

Desde críticas a devedores à banca, a chamar 'babe' a Joana Vasconcelos. As palavras que marcam o percurso de Joe Berardo e que ajudam a defini-lo.

José Manuel Rodrigues Berardo, de 75 anos, natural da Madeira, é Joe Berardo, o empresário, "filantropo e colecionador". Mas, para lá dos títulos, ficam as frases, imortalizadas em papel ou em vídeo, em entrevistas que podem ser revisitadas quando as contradições saltarem à vista.

Afinal, quem é o Joe Berardo? O homem que nos últimos dias - pelo menos desde que depôs no Parlamento - não tem saído das manchetes de jornais e dos discursos políticos?

O empresário respondia, em 2007, numa entrevista realizada no CCB: "É um cidadão que tem muito orgulho de ser português. Fez a sua vida, até aos 18 anos, na Madeira, uma vida um pouco difícil."

"Uma das grandes coisas que fiz pela Humanidade"

"Fui para a África do Sul, tentei ajudar o povo africano. Contribuí muito para acabar com o sistema do Apartheid. Eu e o doutor Almeida Santos tentámos que se assinasse um acordo. Foi uma das grandes coisas que fiz pela Humanidade", revelou ainda Berardo, em 2007.

Em África, a venda de produtos alimentares para as minas de Joanesburgo, e um contacto privilegiado com o setor mineiro, fez Berardo dar o salto em direção a uma grande oportunidade. A aposta foi feliz. A reciclagem dos desperdícios de ouro era uma ideia pioneira. Num ato de ousadia financeira, comprou as minas abandonadas e reiniciou a sua exploração, com recurso das tecnologias existentes.

Proprietário de quatro minas de ouro, avançou para os diamantes. Arriscou também no ramo da banca, e o passo seguinte seria o mercado acionista. Após o ouro e os diamantes, voltou-se para o petróleo, os mármores e granitos, as telecomunicações, material informático, o papel, e até o cinema.

Mas uma das ações mais relevantes de Berardo no território africano foi mesmo a luta pela igualdade étnica. O madeirense assumiu-se contra o Apartheid, e escolheu atuar através do Partido Nacional, com o propósito de pôr fim ao regime. Por estas iniciativas, Joe Berardo recebe, em 1979, o grau de Comendador, pela Ordem do Infante D. Henrique, entregue pelo então chefe de Estado General Ramalho Eanes.

"Muita gente pensa que colecionar é um negócio. Não é. Para mim, colecionar é preservar a nossa História"

Quando Berardo quis "voltar às nossas raízes, ao nosso Portugal, que todos nós criticamos por isto e por aquilo", o objetivo em mente era "voltar a este país para dar apoio ao povo em geral, pela sua cultura e educação".

"Temos cerca de mil bolsas de estudo", revelou na altura dos 31 anos da Fundação sua homónima. "Queria dar aos portugueses a oportunidade de ver os seus melhores artistas e os melhores artistas internacionais", de forma "livre de ser visitado sem qualquer pagamento", acrescentou.

E Joe Berardo frisou ainda, em entrevista divulgada pelo site WN : "A cultura é uma coisa de que todos nós precisamos como de pão para a boca. Se queremos melhorar as nossas vidas, temos que ter a nossa experiência cultural". "Quando eu era criança, embora os museus fossem mais baratos nessa altura, eu tinha dificuldade, porque tinha muito pouco", sublinhou.

O sétimo filho de uma família com poucos rendimentos diz que o bichinho do colecionismo o tocou desde cedo. "Quando eu tinha 10 anos, comecei com a minha coleção de selos, de cartões postais de pessoas que nos vinham visitar à Madeira e caixas de fósforos", analisou.

"Muita gente pensa que colecionar é um negócio. Não é. Para mim, colecionar é preservar a nossa História", disse o empresário.

"Melhorar a vida só tem utilidade para mostrar às pessoas com quem convivemos quando tínhamos uma vida pior"

Joe Berardo conseguiu subir no escalão social, a pulso, segundo anunciava Joaquim Letria, na RTP, que o descrevia como "exemplar, para quem gosta de histórias de sucesso, com muita luta e muito trabalho". Pouco depois do seu retorno à terra-mãe, Berardo confidenciou-lhe que o que mais gostava de fazer era cantar, "mas a natureza não nos dá tudo".

Ironias à parte, o jornalista dizia, na altura: "É uma coisa que não se explica e que os ricos nunca contam. Como se chega a ser rico?" "Trabalhar, dedicação e aproveitar as oportunidades que haja", foi a resposta pronta de um homem disléxico - tal como fez questão de dizer na Comissão Parlamentar de Inquérito à Caixa, na última sexta-feira, quando pediu ao advogado para ler o seu testemunho.

"Quase todos nós temos oportunidades na vida, mas as boas oportunidades deixamos para amanhã, e amanhã, às vezes, é muito tarde", explicou o empresário que considera que "[sem ambição,] continuamos a ser o que nós somos".

Foi necessário "ir ver o outro mundo, sem família, sem meios, sem saber a língua." Foi o que fez aos 18 anos. "Se eu tivesse ficado na minha terra natal, nunca teria tido oportunidades como aquelas que tive", admitiu Berardo. "Eu ia preparado para tudo", mas o que aconteceu foi a concretização dos melhores prognósticos.

"Melhorar a vida só tem utilidade para mostrar às pessoas com quem convivemos quando tínhamos uma vida pior", salientou.

"Vai acabar mal para Jorge Jardim Gonçalves. Não se pode ser acima da lei"

Acionista do Millenium BCP, diria, anos mais tarde na RTP, já em 2011 e a propósito da crise financeira em Portugal: "Vai acabar mal para Jorge Jardim Gonçalves. Não se pode ser acima da lei."

"Ainda se fosse um ignorante, mas um presidente de um conselho de administração que diz - coitadinho - 'não sabia que o meu filho tinha um emprego de 20 milhões'". Eram dois milhões e meio que estavam em causa, mas Berardo não hesitou em inflacionar o número em causa. Em 2010 foi aplicada a Jardim Gonçalves uma multa de um milhão de euros pelo Banco de Portugal, devido a nove infrações com dolo, e ficava então nove anos inibido do exercício de cargos em instituições de crédito.

Na altura, o empresário deixava um apelo: "O Banco de Portugal, o ministro das Finanças, e até o próprio Governo que não deixem isto em branco."

Já à SIC, em entrevista a Mário Crespo, dizia: "Eu acho que a maior parte dos economistas dos Governos sabe onde está o problema, mas têm medo de ir ao problema de raiz". E a raiz de todos os males eram "pessoas individuais têm o poder de manipulação dos mercados", envolvidas em casos com "tantos zeros que nem vale a pena".

"Uma pessoa que não tem responsabilidades fiscais nem de nada", com "o objetivo de fazer dinheiro, custe o que custar" era o principal alvo das suas críticas. No entanto, o jornalista apontava a hipocrisia: "As pessoas estão a pensar 'olha quem fala'".

"Compro e vendo o que é meu"

"Compro e vendo o que é meu. Estes homens não fazem isso", destacou-se assim o filantropo."Tudo na vida tem de ter limites", rematava.

Outro aspeto que revoltava Berardo era a reviravolta da vida do devedor Jardim Gonçalves. "Um homem que levou à bancarrota e tem uma passadeira vermelha estendida pelos políticos... E agora escreve livros", salientou.

Mário Crespo perguntava-lhe, então, se apenas é possível enriquecer contraindo dívidas. "Claro", foi a resposta de Berardo. "Faz parte da natureza humana contrair cada vez mais dívidas. Quando as contraímos, não somos mal-intencionados, estamos a pensar pagar", revelou o madeirense.

"Não sou dono do BCP, sou investidor, sou investidor na bolsa. O meu ativo já diminuiu, e muito, como o de todos nós", esclareceu, adiantando que também foi à China comprar estátuas para o Buddha Eden Garden ao preço da chuva.

Sobre o estado da economia portuguesa, Berardo tinha muitas convicções próprias. "Precisamos de um plano Marshall a nível europeu", concluiu.

"Eu ofereci as minhas opiniões ao ministro das Finanças, e o Governo respondeu-me que eu era muito 'to the point, muito objetivo'"

A afirmação dada perante Mário Crespo foi, mais tarde corroborada no programa do Herman da RTP: "A minha única forma de estar na vida é frontalmente, é dizer o que sinto", explicava sobre as declarações em relação a Rui Costa (na altura, jogador do Benfica).

"Tive uma exposição em Miami, e o mayor deu-me a chave da cidade", foi outra das frases que pontuaram a entrevista.

"O Estado só não compra a coleção se for estúpido"

O homem que queria possuir a maior coleção de arte contemporânea do século XX explicava ao JN, em 2007, que "as pessoas pensam que fiz um grande negócio porque não fazem ideia do que é trabalhar com dinheiros públicos".

Em 2016, após o período de concessão das suas obras de arte, o investidor estaria, segundo declarações da época, disponível para reembolsar o Estado. "O Estado só não compra a coleção se for estúpido", considerou.

"O problema é que José Sócrates exigiu que eu desse a opção de compra da coleção ao Estado por uma avaliação feita agora, e cujo valor permanecerá inalterável durante dez anos. Enquanto a inflação estiver em 2,5%, a assinatura do protocolo vai custar-me, por ano, 7,5 milhões de euros. Isto é uma cedência pouco comum. Quando se dá uma opção de compra a alguém, a pessoa tem que fazer um depósito inicial e o objeto vai sendo valorizado", disse ainda.

O filantropo, que não identificou a litografia da Mona Lisa em 1969, em Joanesburgo, tinha a convicção de que "se queremos um Portugal melhor temos que investir seriamente na cultura. Eu sou peanuts".

"Então 'babe', o que precisas mais?"

Joana Vasconcelos mobilizou Joe Berardo, para lhe pedir que pagasse uma obra que tinha feito para ele. Enquanto Joana esperava pelo cheque, Berardo perguntou-lhe: "Então 'babe', o que precisas mais?"

Um dos prémios da carreira da artista foi o concurso do Museu Berardo. Em 2010, Joana Vasconcelos apresentou a sua primeira exposição antológica intitulada "Sem Rede" no Museu Coleção Berardo.

"Uns call me José Manuel, outros call me Joe, outros call me Comendador. (...) So, call me Joe."

Em entrevista a Anabela Mota Ribeiro, Joe Berardo demonstrou querer ser sempre o primeiro. "Não é bem de ser o primeiro. É de ganhar. Todos nós. Quem é que não gosta de ganhar? Há pessoas que têm na mentalidade: ficaste em segundo, ficaste em primeiro dos últimos... É uma consolação. Eu não quero ser consolado. Eu quero ganhar", clarificava então.

"Uns call me José Manuel, outros call me Joe, outros call me Comendador. A minha família call me José Manuel, o meu irmão, a minha irmã, os meus sobrinhos; estavam habituados desde pequenos. Quando fui para a África do Sul disseram-me que José Manuel não dava. So, call me Joe. I know who I am. A minha mulher chama-me Joe, que ela nasceu na África do Sul", dizia Berardo, o homem de que agora se fala por falar ele sempre de forma tão peculiar.

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