Casas perdidas, juros de 300%, ameaças. Pandemia faz disparar fraude financeira

Burlas aumentaram em 2020. Há emprestadores que desaparecem depois de exigirem dinheiro para conceder crédito. Há quem tenha perdido a casa depois de pedir 20 mil euros emprestados.

Perder uma casa no valor de 180 mil euros por causa de um empréstimo de 20 mil que resultou em prestações mensais de 800 euros que a partir de certa altura não se conseguiu pagar.

Sofrer atos de cobrança agressiva, intimidação e por vezes ameaças à integridade física.

Perder um carro ou o recheio da habitação por ter de pagar juros de 300% sobre um empréstimo de poucos milhares de euros.

Pedir por desespero um crédito cuja aprovação depende de pagamentos à cabeça de centenas de euros em múltiplas "comissões" e "taxas", momento a seguir ao qual a suposta instituição financeira não volta a responder.

A TSF apurou que estes são apenas alguns casos ilustrativos das fraudes financeiras que cresceram em Portugal em 2020, ano que trouxe dificuldades económicas a milhares de famílias.

A tendência é confirmada por números avançados nesta quarta-feira por fonte oficial do Banco de Portugal (BdP): de 2019 para 2020, o número de averiguações feitas pelo supervisor cresceu 50% para 350 processos, enquanto as medidas de atuação tiveram uma variação positiva de 184%, adianta fonte da instituição liderada por Mário Centeno.

Foram instaurados "14 novos processos contraordenacionais contra diversas entidades, pela prática indiciada de atividade financeira não autorizada e de publicidade reservada a entidades habilitadas", indica fonte do BdP, acrescentando que foram feitas "47 comunicações às autoridades competentes para a investigação criminal de indícios da prática de 69 crimes associados ao desenvolvimento de atividade financeira ilícita (receção de depósitos/fundos reembolsáveis, burla, falsificação de documentos, usura, extorsão, ameaça, branqueamento de capitais e infrações de natureza fiscal)"

O supervisor emitiu avisos públicos relativos a 40 entidade e promoveu o encerramento de 15 sites.

Parte das atuações do BdP acontecem em resposta a denúncias do público: houve 106 participações de particulares.

A informação avançada pelo Banco de Portugal permite concluir que há atividades ilícitas em duas vertentes: aquela em que existem operações financeiras, mas as entidades por elas responsáveis não estão autorizadas a praticá-las; e a das burlas, em que nem sequer existe uma operação financeira (há transferências de dinheiro mas são num único sentido: do burlado para o burlão).

Nas burlas nem há papeis assinados. A TSF sabe que existem vários tipos, desde as mais primárias que chegam através de mensagens de correio eletrónico, de telemóvel ou nas redes sociais até às mais sofisticadas, que passam frequentemente por sites que imitam a estética de páginas de internet de bancos reais.

Tanto num caso como noutro prometem empréstimos fáceis, com poucos juros (por vezes nenhuns). O modo de atuação passa tipicamente por exigir pagamentos de múltiplas "comissões", "taxas" ou "despesas de abertura do processo", após os quais o burlão não volta a responder.

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