Stress financeiro? Portugal está mais preparado do que em 2016, garante Centeno

O governador do Banco de Portugal acredita que há "boas notícias" para a economia portuguesa. Os sinais positivos só são possíveis "porque fizemos o trabalho de casa", com a criação de um espaço orçamental na anterior legislatura, garante Mário Centeno.

Na última década, foram expostas as lacunas do sistema financeiro. No final de 2015, o sistema financeiro estava subcapitalizado, mas hoje ninguém reconhece estes problemas no sistema bancário português, considera Mário Centeno, numa exposição realizada na Money Conference, da TSF e do Dinheiro Vivo.

O processo de integração europeia teve nesta preparação um papel "importante, crucial", vinca o governador de Portugal, e a estabilidade financeira auxiliou a intervenção rápida aquando da chegada da pandemia.

Temos hoje um sistema financeiro "resiliente", o que foi fundamental para a intensidade e rapidez da aplicação de medidas. "Os bancos fizeram parte da solução e não do problema", garante o governador do Banco de Portugal.

"Mesmo que não tivéssemos uma segunda vaga, poderíamos ter certezas de que a crise económica não teria passado", mas as medidas de apoio à retoma criaram bases para uma estabilidade financeira futura, assinala Mário Centeno. O governador do Banco de Portugal apresentou mesmo gráficos que expuseram como em junho, aquando do desconfinamento, o país começou logo a recuperar.

Outra das garantias deixadas por Centeno foi a de que a ação dos bancos centrais continuará a flexibilizar-se para apoiar de forma rápida os Estados.

Em dezembro, o BCE calibrará de novo os seus instrumentos para assegurar a atenuação da inflação negativa causada pela pandemia. Mário Centeno exorta, por isso, os portugueses a terem confiança nas políticas e instituições europeias, "fundamentais" para fomentar o acesso ao financiamento.

O governador do Banco de Portugal também alertou que os riscos de uma retirada precoce dos apoios "parecem sérios", salientando a importância de monitorizar a evolução da crise sanitária. As crises não atingem todos da mesma forma, lembra Centeno. A dívida pública e privada aumentaram, bem como as desigualdades, o que tem de ser tido em conta na definição das políticas públicas.

Ainda assim, os cenários económicos não são tão negros, já que "dependem sempre do ponto de partida", diz. O INE atualizou no final do mês de outubro dados que assinalam que certos setores atingiram a estabilidade, apesar da desconfiança que inspirava a sua possível convergência com as médias e metas europeias.

O excedente de exploração aumentou em mais de 50%, devido a dois fatores que usualmente não ocorrem em simultâneo: aumento massivo do investimento (mais do que duplicou - 150%) e uma diminuição do rácio ativo da dívida.

Também a produtividade do trabalho aumentou em 15%, com aumento das remunerações (41%), em apenas seis anos, num contexto de muito baixa inflação. Desalavancagem financeira, investimento e produtividade do trabalho: é este o cenário traçado por Centeno e do qual Portugal partiu para a crise pandémica.

Estes números são devidos ao esforço das empresas portuguesas, com o "trabalho de casa feito". Com estes números Portugal chegou ao fim de 2019, sobretudo devido ao que aconteceu no investimento em pequenas e médias empresas, com um aumento de 131%.

Desafios da Banca

"Temos de estar conscientes de que a médio prazo o sobre-endividamento pode levar à redução de investimento, enfraquecendo a competitividade", refere ainda Mário Centeno, que sublinha a necessidade da boa mobilização de fundos públicos. O sistema bancário continua a enfrentar desafios, sobretudo ao nível da digitalização. O setor bancário resistiu "bastante bem" à crise até ao momento e ajudou a evitar uma crise de crédito, que teria sido "dramática" para Portugal, argumenta Mário Centeno. "É necessário garantir a resiliência do sistema bancário, face a um provável aumento das perdas de crédito."

Se, "por um lado, as entidades bancárias começaram desde logo a provisionar os riscos de crédito", por um outro lado, a banca continua a enfrentar "problemas de rentabilidade" e tem de responder aos desafios provocados pela digitalização, sustenta.

Portugal preparado para lidar com a crise

Portugal, no espaço orçamental que tem, tem respondido de forma semelhante aos seus congéneres europeus. O governador do Banco de Portugal apresenta os gráficos relativos ao stress financeiro em 2016 e 2020, duas curvas que, sobrepostas, mostram que o stress financeiro em 2020 é praticamente "indistinguível" do de 2016, devido ao nível de preparação das instituições e ao nível de resiliência alcançado pelas Finanças portuguesas.

Portugal já enfrentou tempos mais desafiantes, defende Mário Centeno, devido aos créditos hoje existentes e que no passado não existiam.

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