Douro atrai mais turistas mas não consegue fixar a população

Região que é Património Mundial perdeu 30 mil pessoas desde 2001. Os 20 anos da classificação da UNESCO começam a ser celebrados em dezembro com mais de 100 iniciativas.

No próximo dia 14 de dezembro começam as celebrações dos 20 anos do Alto Douro Vinhateiro Património Mundial. O galardão foi atribuído pela UNESCO em 2001. De lá para cá, a região passou de 220 mil para 190 mil habitantes. Uma sangria que o enorme desenvolvimento turístico não conseguiu travar.

A necessidade de encontrar formas de valorizar mais a região onde se produz o vinho do Porto foi destacada, esta terça-feira, por António Cunha, presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDR-N), durante a apresentação, no Peso da Régua, do programa comemorativo, que vai durar um ano.

De acordo com o presidente da CCDR-N, entidade que gere o bem classificado, a região do Douro conseguiu criar "uma referência internacional que é muito positiva". Todavia, salienta que é necessário que seja transformada em algo que permita "uma melhoria significativa da qualidade de vida das pessoas" que resistem na região demarcada e regulamentada mais antiga do Mundo.

Admitindo que este é um dos "maiores desafios" que se colocam ao Douro no momento em que se celebram 20 anos de Património Mundial, António Cunha salienta que só pode ser concretizado com "uma forte aposta na excelência". É que "enquanto as pessoas não tiverem níveis de rendimento que sejam adequados à sua manutenção acabarão por sair".

Falta de investimento

O presidente da Comunidade Intermunicipal do Douro, Carlos Silva Santiago, acha bem que se faça a festa, mas também que se reflita sobre "como a região poderia estar se tivesse as mesmas oportunidades de outras zonas do país".

Convencido que a perda de pessoas do interior tem a ver com falta de investimento, Carlos Santiago dá exemplos do que acontece nos grandes centros urbanos: "a extensão do metro em Lisboa e no Porto, uma nova ponte na Invicta, um aeroporto na capital... E no Douro fala-se da comemoração dos 20 anos de Património Mundial".

O também presidente da Câmara de Sernancelhe desconfia que o futuro "ainda vai ser pior" se não se encontrar forma de valorizar mais a região, nomeadamente com a reativação da linha ferroviária entre Pocinho (Vila Nova de Foz Côa) e Barca d"Alva (Figueira de Castelo Rodrigo), a melhoria da navegabilidade do rio Douro e a construção do Itinerário Complementar 26, entre Amarante e Trancoso.

Salto notável

Apesar de tudo, o presidente da CCDR-N nota que "o Douro fez um salto notável de desenvolvimento nos últimos 20 anos" em resultado da classificação e da aplicação dos fundos comunitários.

Como exemplo desse salto, António Cunha realça que o Douro convergiu com a região Norte e com o país ao nível de riqueza média per capita. Em 2001, era de 73% da riqueza média produzida per capita no Norte. Atualmente é superior a 85%.

No setor do turismo, o Douro "mais que duplicou o número de dormidas e, sobretudo, incrementou o seu valor". Por exemplo, em 2019, o Douro representou mais de meio milhão de ​​​​​​​dormidas em unidades hoteleiras. Neste número não estão incluídas as dormidas em turismo em espaço rural.

Nos vinhos, principal produto da região, ganhou-se "um prestígio internacional assinalável", o que permitiu obter "melhores níveis de rendimento".

Há duas décadas, os números do abandono escolar. Há 20 anos era de 17% no 2.º ciclo e de 25% no 3.º ciclo. Hoje "é marginal". A taxa de conclusão do Ensino Secundário era inferior a 60% e agora é de quase 95%.

Mais de 100 iniciativas

A comemoração dos 20 anos do Douro Património Mundial arranca no dia 14 de dezembro deste ano com uma cerimónia evocativa, em Lamego, e prolongam-se até 14 de dezembro de 2022. O programa, apresentado esta terça-feira no Peso da Régua, inclui mais de uma centena de iniciativas.

A estreia da ópera duriense "Mátria" é um dos pontos altos da programação. É a primeira ópera original criada em Trás-os-Montes e Alto Douro, escrita a partir da obra de Miguel Torga". Tem libreto de Eduarda Freitas e música do compositor Fernando Lapa. Sobe ao palco do Teatro de Vila Real nos dias 17, 18 e 19 de dezembro.

Uma campanha de marketing vai destacar 20 durienses: uma artesã e um artesão, um enólogo, um tanoeiro, um investigador, um maquinista de um comboio histórico, um jardineiro de um jardim classificado, um arquiteto paisagista, uma professora, uma padeira artesanal, uma bombeira, uma dirigente social, uma promotora de voluntariado, um desportista da seleção nacional, uma profissional de hotelaria e um pároco.

A campanha baseia-se na comunicação de "20 histórias pessoais", refere Jorge Sobrado, secretário técnico de estratégia e comunicação da CCDR-N. São "20 histórias de durienses do quotidiano, heróis anónimos, valorizando o seu testemunho e factos do seu trabalho ou dedicação a causas sociais e culturais", precisa.

Em parceria com a Direção Regional de Agricultura e Pescas do Norte vai ser implementado o prémio "Vinha D´Ouro 2022". Pretende distinguir as boas práticas em viticultura que salvaguardem os interesses patrimoniais e que sejam exemplo de boas práticas do ponto de vista ambiental.

O programa engloba a sétima edição do prémio de Arquitetura do Douro. Reconhece as boas práticas de arquitetura no Património Mundial. Este ano, o júri contará com a presença do arquiteto Eduardo Souto Moura, vencedor da última edição.

Também estão previstos muitos outros eventos, como concertos, exposições, seminários, conferências, participação em feiras nacionais e internacionais, ações de marketing de território e de internacionalização e iniciativas de educação para o património.

A comissão organizadora das comemorações dos 20 anos do Alto Douro Vinhateiro Património Mundial engloba também a Comunidade Intermunicipal do Douro, a Entidade Regional do Turismo do Porto e Norte, as direções regionais de Cultura e de Agricultura e Pescas do Norte, a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, o Instituto dos Vinhos do Douro e Porto, os Museus do Douro e do Côa e a Liga dos Amigos do Douro Património Mundial.

As comemorações contam com o "alto patrocínio" do Presidente da República.

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