Lisboa, 31/03/2022 - Filipe Costa, presidente da AICEP Global Parque de Sines.  (Leonardo Negrão / Global
A Vida do Dinheiro

Filipe Costa: "Sines já não é um elefante branco, é um grande hub logístico, energético e cada vez mais tecnológico em Portugal."

O Presidente da AICEP Global Parques revela investimentos em curso de 17 mil milhões para transformar Sines, incluindo um projeto dos Países Baixos e da Dinamarca de hidrogénio e amónia verde.

Um consórcio de hidrogénio verde dos Países Baixos e da Dinamarca vai ser instalado em Sines, a reserva de terreno já foi feita e é um investimento de 1300 milhões de euros.

Este será o primeiro grande investimento no hidrogénio e amónia verde em Portugal, uma solução tecnológica que vêm facilitar os problemas de transporte do hidrogénio enquanto combustível usado nos transportes.

Um investimento revelado à TSF e ao Dinheiro Vivo por Filipe Costa, o presidente executivo da AICEP Global Parques é o convidado desta semana da entrevista a Vida do Dinheiro.

Filipe Costa é o presidente executivo do Conselho de Administração da AICEP Global Parques desde 2018 e já passou por São Francisco, como delegado da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP) e foi cônsul Económico e Comercial de Portugal em Xangai, além de outras funções na diplomacia económica portuguesa, incluindo em Madrid. Na AICEP foi ainda Técnico dos PIN - Projetos de Potencial Interesse Nacional.

A AICEP Global Parques é a empresa do Setor Empresarial do Estado especialista em gestão de parques empresariais e na prestação de serviços de localização para investimento nos setores da indústria, energia, logística e serviços em Portugal.

A maior área gerida pela Global Parques é a Zona Industrial e Logística de Sines. São 2375 ha. Sines ainda é um elefante branco?

Não. Sines já não é um elefante branco, é um grande hub logístico, energético e cada vez mais tecnológico em Portugal. Os nossos parceiros do Porto de Sines estão em franco crescimento em roll on-roll off e nós na zona logística estamos a crescer muito nas empresas instaladas - muitas delas a investir fortemente, a acrescentar investimentos a setores como a energia e indústrias intensivas em energia, a logística e agora também o novo setor das infraestruturas tecnológicas.

A estratégia passa por onde? Que investimentos terão mais força?

A estratégia passa pelo desenvolvimento dos nossos três verticais de negócios. O primeiro é a logística, e aí fundamentalmente o que fazemos é acompanhar o Porto de Sines, que está a tornar-se o grande porto de mercadorias, contando com um terminal de contentores com capacidade de handling de 2 milhões de contentores por ano, que está agora em duplicação. É um terminal gerido em concessão pela PSA Sines - uma joint venture entre a PSA de Singapura, o Porto de Sines e o armador MSA.

E vai ser duplicada a que prazo?

Até 2025. Passará da atual capacidade de 2,3 milhões de TEU (contentores de 20 pés) para 4,1 e depois pode crescer mais um pouco com automações e otimizações. A este terminal seguir-se-á um segundo, cujos termos de concurso já estão aprovados pelo governo e que será lançado em breve e irá acrescentar mais 3,5 milhões de contentores por ano. Portanto, diria que até 2030 temos uma quadruplicação da atual capacidade de movimentação de contentores para perto de 8 milhões de contentores. O que já é um valor parecido com o Porto de Hamburgo (8,5 milhões/ano). A isto acresce, dos parceiros do Porto de Sines, uma reorientação do terminal de carga a granel sólida - o terminal multipurpose, que foi agora desafetado do carvão e que tem uma nova concessão à procura de cargas, sejam minérios, agro, equipamentos ou eventualmente roll on-roll off para automóveis. Ao lado disto, na retaguarda destes tês terminais de mercadorias, estamos a desenvolver a zona de atividade logística - já sob nossa gestão. E lançámos agora um concurso para um estudo de viabilidade económico-financeira, plano de pormenor, de loteamento, projeto de infraestruturação e avaliação de impacto ambiental. Nesta nossa zona de atividade logística de Sines, acabámos de lançar um estudo de 2 milhões de euros que será cofinanciado a 50% pelo Connecting Europe Facility e que prevemos que esteja concluído em 2024.

O carvão é mesmo para ser desativado? Portugal vai terminar com o ciclo do carvão?

Isso é matéria do Porto de Sines, mas o cliente do carvão - a central termoelétrica da EDP Produção - está na nossa zona industrial e logística e já não há movimentação de carvão há algum tempo. O terminal está completamente desafetado e a ideia agora, com nova concessão, é que esse terminal multipurpose, que sempre foi de carga geral e podia já fazer outras coisas mas acabava por fazer 95% de carvão, não tendo essa carga, faça outras. Estamos a apostar muito e ainda no início de março, por exemplo, estivemos, com a Associação Portuguesa de Portos e o Porto de Sines, a participar na Intermodal South América, uma feira logística em São Paulo, para desenvolver contactos, nomeadamente com o Ministério da Agricultura e as grandes empresas agrícolas brasileiras, para que olhem para este terminal como um hub para entrada de produtos agro exportados pelo Brasil e outros países da América do Sul para a Europa, o Médio Oriente e o Norte de África.

Os projetos em curso têm alguma alavanca orçamental? Quais os montantes totais nas áreas de conexões digitais, plataformas logísticas, etc.?

Neste momento, excluindo investimento público, os dados somados de projetos em curso, confirmados e potenciais - muitos em que ainda concorremos com outras geografias - ascendem a 17 mil milhões de euros. Temos por exemplo a duplicação do atual terminal de contentores e futuro segundo terminal, em que só na componente privada são 940 milhões. No vertical que referia de tecnologia - o Sines Tech Innovation and Data Centre Hub -, a perspetiva no horizonte 2030, é de 3555 milhões em projetos de estações de amarração de cabos marítimos de telecomunicações e centros de processamento, computação e armazenamento de dados. E no outro vertical, o que chamamos Energia Sul, que junta todo o hub energético de Sines com as indústrias intensivas do ponto de vista energético (refinação, petroquímica, química, indústria circular descarbonizada, novos projetos de amónia e hidrogénio verde) um total perspetivado de 12 679 milhões de euros, dos quais cerca de 5 mil milhões são reinvestimento de empresas já presentes, como Galp, EDP Produção e Repsol Polímeros. Depois há mais 7500 milhões de investimentos por novos players que estão a olhar para Sines para entrar.

Entre esses, há investimentos industriais puros - materiais pesados, aço - com inovação?

Tirando uma pequena parte que são projetos agroindustriais, quase todos estes investimentos são de descarbonização. Mesmo nas unidades já existentes - há por exemplo uma série de investimentos em curso na refinaria da Petrogal. São todos na lógica da descarbonização, de transformação do ativo num green energy hub, de introdução de produção de combustíveis alternativos, projetos para a mobilidade que não vai ser eletrificada num futuro próximo e portanto precisará de combustíveis líquidos - transporte aéreo, marítimo e rodoviário pesado. A própria EDP Produção, para a antiga central termoelétrica de Sines, tem um plano de desativação mas ao lado o projeto Green H2Atlantic, aproveitando os ativos que ali tem - há entradas de água do mar, pode ser feita uma unidade de dessalinização, tem as interligações elétricas da antiga central, com capacidade de transmissão de 1,5GW... tem condições ideais para ali desenvolver um projeto de hidrogénio verde e amónia, hidrogénio esse que terá fundamentalmente dois destinos: injeção na rede, onde o gás natural será um vetor de distribuição portanto o ponto de injeção no gasoduto que liga Sines à rede Mibgás em Setúbal, e a refinaria na Petrogal.

Tendo estas áreas de energia impacto grande no ambiente, está acautelado o passivo ambiental dessas unidades?

Com certeza. A EDP Produção, que é a que está em perspetiva de reconversão, tem um plano de desativação que acautela todas as questões ambientais e é um passo de sustentabilidade, porque deixamos de ter uma central a carvão e passamos a ter um hub de energia verde com produção de fontes renováveis - eólica, fotovoltaica, eletrolise para o hidrogénio verde e amónia. E depois temos o reinvestimento da Repsol em duas novas fábricas de polímeros, matérias-base acabadas para a indústria transformadora. E está acompanhado de um projeto de ecofábrica para reciclagem química para produção de etanol circular, biometanol. Portanto todos estes investimentos em Sines, os grandes reinvestimentos das grandes unidades em presença - Galp, EDP e Repsol - são da transição verde, seja de energia seja de descarbonização e produção de matérias base para a indústria, sempre com essa perspetiva de descarbonização e introdução de circularidade.

Também há espaço para a aquacultura: está previsto um investimento de 80 milhões para produzir salmão e bacalhau. É sustentável criar pescado de águas frias na costa alentejana?

O promotor considera que é sustentável. Mais uma vez, é um investimento que vem aproveitar algumas das infraestruturas do complexo. Temos duas de tomada e rejeição de água do mar - a da central da EDP Produção e a da infraestrutura do terminal de gás natural - que podem ser partilhadas e são muito atrativas para a aquacultura. E podem ser encontradas sinergias. Até com o setor das tecnologias - não a estação de amarração de cabos, naturalmente, mas os centros de processamento e armazenamento de dados olham a possibilidade de partilha dessas infraestruturas, nomeadamente para arrefecimento dos data centres. O que mais uma vez é uma medida de sustentabilidade, porque ou se faz isso com água - e aí pretende-se que seja do mar - ou é feito com consumo de eletricidade, o que se quer evitar.

Quantos empregos poderá representar Sines?

No projeto do salmão e bacalhau são 200 postos de trabalho, mas no total são muitos, mas não tantos quanto se esperaria dado o montante de investimento em logística, energia, indústria e tecnologia. Estamos a falar de investimentos muito intensivos em capital. Por exemplo, o da Repsol, que provavelmente neste ciclo vai ascender a 1170 milhões de euros entre as duas novas fábricas, a ecofábrica de reciclagem química e outros investimentos complementares, não gera um número desmesurado de empregos, prevê-se que adicione 160 postos de trabalho.

É capital intensivo mas não mão-de-obra intensiva...

São investimentos muito intensivos em capital - são grandes unidades de refinação, petroquímica, química - mas a perspetiva que temos neste contexto de menos desemprego, nomeadamente naquela região, é que haja um exercício de apreciação de salários, uma dinâmica de diminuição de desemprego e de valorização salarial. Nos últimos seis anos, o desemprego baixou de 12% para 6% apesar da subida de 40% no SMN, portanto podemos estar felizes por ter investimentos intensivos em capital que criam empregos mais bem remunerados.

A questão da mão-de-obra é recorrente em Sines?

Não, os promotores destes projetos muito intensivos em capital, de logística, energia, indústria verde e tecnologias de informação e comunicação, não apresentam muito essa dificuldade. E creio que precisamente porque são muito intensivos em capital, logo estão dispostos a pagar o que for necessário para atrair o talento de que precisam.

Que questões então são mais levantadas?

São as do ordenamento do território, de tudo que se relaciona com licenciamentos, urbanismo, etc., que vamos resolvendo no dia-a-dia, conforme alargamos a área ocupada. E temos crescido muito em Sines. O volume de negócios da AICEP Global Parques cresceu 9,43% em 2021 e por trás disso estão mais direitos de superfície em Sines. O crescimento foi bom e prevemos 14% a 15% em 2022, mas muito mais importante é o que está por trás: o arrendamento de mais terrenos para instalação de investimentos estratégicos. A segunda questão mais levantada é a infraestrutural: os acessos rodo e ferroviários na logística, até pela indústria. As interligações elétricas, em que trabalhamos, e também um pouco - mas isso é trabalho que está a ser feito pelos promotores - na conectividade de fibra ótica. O Porto de Sines é o interface entre mar e terra mas até há pouco funcionava em sistema de ilha, porque entravam sobretudo produtos energéticos, havia alguma transformação petroquímica e esses produtos tornavam a sair por via marítima.

As acessibilidades terrestres não eram tão importantes...

Elas existiam, mas antes do terminal de contentores e deste desenvolvimento industrial resumiam-se ao pipeline de distribuição multiúsos para produtos refinados até Aveiras, centro de distribuição, e o gasoduto até Setúbal. Com o desenvolvimento de um terminal de contentores, a possibilidade de um novo, uma reorientação do terminal multiúsos pós-carvão, desenvolvimento da zona de atividades logísticas e o complexo industrial, nomeadamente petroquímico a emitir matérias-base já finais para a indústria transformadora, que tem de se distribuir com maior capilaridade, o objetivo é que os novos produtos feitos em Sines venham abastecer em proximidade, segurança de fornecimento, preço e qualidade a indústria nacional. Há um grande efeito multiplicador. Pegando na Repsol Polímeros, já em curso, terá um efeito multiplicador enorme nos clusters exportadores nacionais, sejam componentes automóveis, aeronáuticos, food packaging, medical devices, etc. Isso implica uma melhoria de acessibilidades de e para o complexo de Sines. E aí está a ser feito um trabalho muito forte pelo governo, através da IP. Está em curso investimento nas acessibilidades que calcularia em 480 milhões de euros, há 60 milhões para ligar Sines à A2 em autoestrada até 2026, com ligação em Grândola Norte, há 28,5 milhões para reforço da ligação ferroviária entre a linha de Sines e a do Sul até 2023, e mais 321 milhões no corredor internacional Sul, troço Évora-Elvas, até fevereiro de 2024.

E trará mais investimento?

Sem dúvida, e é tudo alinhado com o prazo de conclusão do Terminal XXI e o lançamento do Vasco da Gama, o desenvolvimento da logística e o início do output dessas matérias finais com grande relevância no complexo petroquímico, em particular a entrada em operação das novas fábricas da Repsol Polímeros no verão de 2025.

O concurso do Terminal Vasco da Gama ficou deserto. Foi só culpa da pandemia?

Isso é do Porto de Sines, mas creio que sim. Eu acompanhei, porque trabalhamos em conjunto e também com a CM Sines. O Porto de Sines fez um excelente trabalho, mas é inegável que a crise pandémica gerou grande disrupção logística e adiou decisões de investimento.

E já está a atrair candidatos ou a guerra causou nova paragem?

Sem dúvida que a guerra veio agravar a disrupção logística e a crise energética, e isso obviamente apresenta desafios. Desde logo porque as nossas áreas principais são energia e logística e indústrias intensivas em energia. Isto pode provocar novo protelar de decisões de investimento - e sentimo-lo em Setúbal, onde também temos um parque sob gestão, na indústria química, que está com dificuldades em finalizar o conceito de bens de equipamento por causa da disrupção das cadeias logística. E também em Sines há um ou outro caso de indústrias mais tradicionais que abriram mais o leque de possibilidades, eventualmente estão a estudar geografias com custos mais favoráveis do que a Europa. Mas também há o reverso: uma dinâmica grande de reforço de capacidade logística, energética e até tecnológica da UE. E o governo português tem mais que acompanhado, tem liderado esta dinâmica no Conselho Europeu. Nós sentimos esse interesse, uma vez que estamos na frente atlântica, no lado oposto ao conflito. E quando se fala em diversificação do fornecimento energético, em trazer mais energia dos EUA, de África, do Médio Oriente e evitar ou não depender só da que vem por terra ou gasoduto do Leste, está-se a dar relevância a Sines. Quando se fala em aumentar capacidade logística da Europa, nomeadamente a intercontinental, está-se a dar força a Sines. Porque é o nosso grande porto intercontinental. Quando se fala em soberania europeia, resiliência, capacidade no que respeita à futura economia digital, na estação de amarração de cabos submarinos de telecomunicações e de estações de tratamento de dados, também se dá força a Sines, porque ali lançámos o Sines Tech Innovation and Data Centre Hub. O nosso objetivo ali é ter as grandes estações de amarração de cabos, os grandes centros de processamento e armazenamento de dados, as grandes infraestruturas que venham beneficiar de termos terra disponível, água de uso industrial disponível, acesso a água do mar, morfologia e jurisdição portuária para amarração segura de cabos, intensidade energética, capacidade de interligação elétrica em alta e muito alta tensão... temos ali um hub que vai habilitar o país a desenvolver uma economia digital. E Sines apresenta-se como esse hub para o desenvolvimento do país, como faz na logística e sendo hoje o grande hub energético nacional. E aqui beneficiamos também da estratégia europeia de maior soberania, segurança, autonomia. Posicionamo-nos como hub da EU data gateway platform.

Um ecossistema da economia de dados. E em Sines sempre vamos ter nesse âmbito o Equiano da Google, o 2Africa do Facebook e o Medusa do operador de Telecom da AFR-IX, que se juntaram ao já existente cabo de dados de fibra ótica Ella Link, que atualmente liga a Europa à América do Sul (Sines-Brasil). A meta é 2025?

Nós posicionamo-nos nessa lógica muito europeia, porque alinhamos Sines com as redes transeuropeias - há a de transportes, a de energia e a de telecomunicações - e queremos ser esse hub de estações de amarração de cabos submarinos de telecomunicações e centros de processamento e armazenamento de dados.

E Sines está em condições de concorrer com Marselha?

Tem, de acordo com os promotores que nos têm abordado e se têm instalado em Sines, condições de concorrer com qualquer dos grandes localizações, seja o famoso FLAP (Frankfurt, Londres, Amesterdão e Paris) seja com localizações como Marselha. Alguns desses cabos - e isto é maior do que Sines, é uma coisa nacional -, o Equiano e o 2Africa, vêm aqui para a área metropolitana de Lisboa. Para Sines estamos a contar ter o Medusa, que nos vai ligar inclusive a Marselha, portanto é uma questão de conectividade mais do que concorrência, queremos que Sines esteja diretamente ligado com menor distância e menor tempo de comunicação com os grandes centros de amarração. E o Medusa virá provavelmente ligar Sines diretamente a Marselha. E temos o projeto de um cabo que é o Piscis, que podia ligar Sines à Irlanda e Bilbau e seria importante uma vez que a Irlanda também é um grande centro nesta área.

Estamos a ir mais depressa no digital do que no rodoviário quando o hinterland ibérico ainda não está ligado?

São questões distintas. Claro que ficamos muito contentes por o nosso complexo de Sines deixar em termos de logística internacional é um hub de mercadorias relativamente recente e eu acho que o governo através da IP está a trabalhar muito bem, o calendário está bem afinado porque há uma relação ideal de calendário quando pomos de um lado as ligações ao hinterland, rodo e ferroviárias, e do outro o desenvolvimento de terminais da zona de atividades logística e do output industrial de Sines. Começámos como hub energético, já somos também de mercadorias e vamos ser também de dados.. O que é importante é que os cabos amarrem em Portugal e o split seja feito ali numa estação onde o cabo amarra. Porque não queremos que o país fique a ver passar cabos, que amarrem aqui e Sines seja a praia de Madrid. Queremos que amarrem aqui, façam o split aqui e isso nos permita desenvolver ali à volta centros de comutação e armazenamento de dados. E depois é a lógica de hub. Os grandes centros de dados querem estar perto dos centros de amarração de telecomunicações onde é feito o split do cabo, as estações também querem estar ao pé dos grandes data centres. E acho que já temos um hub, porque como dizia há pouco temos a estação Ella Link, o primeiro cabo que liga a Europa diretamente à América do Sul, reduzindo a latência para metade porque não tem de passar pela América do Norte. E já temos o projeto do Start Campus (Sines Transatlantic Renewable & Technology Campus), que é um projeto muito grande, joint venture da americana Davidson Kempner e da britânica Pioneer Point Partners, um investimento de 3380 milhões num grande centro de dados de 495 MW de potência, uma coisa verdadeiramente de nível global. E isto é o início do nosso hub e está a ter grande atratividade na atração de mais cabos e players. Temos um novo lead que é um potencial player para instalação de um novo centro de computação.

A deficiente ligação rodoviária de Sines a Beja, a não existência da A26 estrangula Sines de se desenvolver mais ainda?

É precisamente por isso que a IP relançou a ideia de fazer a ligação Sines-A2, não o traçado do IP8 até Beja mas o do IP33, portanto a ligação Sines-Grândola Norte em autoestrada, investindo 60 milhões até 2026 - estas coisas demoram sempre entre declarações de impacto ambiental e infraestruturação. Mas é um bom calendário. Já se sente - e aí está um bom indicador de que Sines não é de todo um elefante branco - um grande aumento do volume de trânsito rodo e ferroviário de e para Sines. Nomeadamente no transporte rodoviário até vou além: há duas preocupações, a de que é necessário esta ligação em autoestrada para Sines ser mais competitivo, mas também uma adicional de que muito do trânsito é de pesados, alguns a transportar mercadorias perigosas, e o governo e a IP foram muito sensíveis às duas questões, competitividade e segurança, e não só retomaram o projeto de ligação de Sines à A2 como o retomaram com muito empenho, força e rapidez.

A AICEP Global também gere os 56 ha do Parque Empresarial da Península de Setúbal, o BLUEBIZ, ainda há espaço e perspetiva para a instalação de novas indústrias, depois da químicas Euronavy e Clever Leaves no ano passado?

Sim sim, esse parque é a antiga fábrica da Renault, portanto tem sobretudo instaladas indústrias de componentes aeronáuticos, metalurgia de precisão. Há expansão sobretudo na área das indústrias químicas porque o parque tem vantagens: possibilidade de uso industrial, fornecimento elétrico favorável e uma estação de tratamento de águas residuais que o torna particularmente apetecível para as químicas. Mas também em Sines trabalhamos muito com a área, temos um novo grande projeto que será o primeiro grande investimento em hidrogénio e amónia verde, no valor de 1300 milhões, sobretudo investimento holandês e dinamarquês, para que contratámos reserva do direito de superfície no mês passado e que será tornado público pelos promotores já em abril.

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