"Fim das moratórias vai trazer um problema de emprego ainda maior"

Presidente da ANJE quer transparência na gestão dos fundos europeus que vão chegar e pede a criação da "secretaria de Estado da bazuca", uma "task force" semelhante à das vacinas. Entrevista A Vida do Dinheiro, da TSF e DV.

Quando em fevereiro de 2020 Alexandre Meireles assumiu a presidência da Associação Nacional dos Jovens Empresários o país crescia. Duas semanas depois foi registado o o primeiro caso de Covid-19 e um mês mais tarde o país entrava em confinamento.

O Presidente da República disse que o confinamento pode ir até ao final de março. Que impacto é que isso pode ter nas empresas e no emprego?

Foi um ano difícil, mas já passámos por um confinamento há um ano, pelo que há já alguma experiência, no governo e nas instituições. Quanto mais tempo tivermos de estar em casa, piores serão os resultados económicos e no desemprego. Vimos que o último confinamento nos trouxe 100 mil desempregados, neste não sei quantos mais serão, mas é um tema que me preocupa muito. Quero acreditar que alguns problemas da primeira fase - como dificuldades burocráticas no acesso aos lay-offs, o tempo que o dinheiro demorou a chegar às empresas - podem ser ultrapassados e espero que o impacto no emprego e nas empresas seja menor.

Como é que a decisão de fechar as escolas e manter o ensino à distância - que se prevê que possa durar até à Páscoa - afeta a produção nas empresas?

O fecho das escolas tem duas vertentes. Tem impacto direto nas famílias e na educação das crianças - que ainda não está bem estudado mas que terá repercussões importantes e graves no futuro desta geração de 8-10 anos, mesmo com o ensino à distância. É difícil ensinar as crianças em casa. E depois tem o impacto dos pais que têm de ficar em casa e vão produzir menos nas empresas e contribuir menos para a economia. É um mal necessário nesta fase, os números são complicados e entendo que não havia outra opção, mas é talvez a medida que trará mais complicações no futuro.

Devia haver apoios mais alargados e pagos a 100% pelo Estado para quem tem de ficar em casa a acompanhar os filhos?

Sim, estou de acordo. É difícil estar em casa com os filhos. Falamos muito do teletrabalho e da evolução que houve, mas isto não foi um teste real ao teletrabalho, foi imposto. E quem tem filhos pequenos como eu, e tem de tomar conta deles em casa, percebe a dificuldade e sacrifício que implica apoiá-los na escola e durante o dia, enquanto trabalham. Por isso a produtividade vai cair.

Falou na experiência adquirida no primeiro confinamento. Nota essa diferença?

Nós criámos um gabinete de crise de apoio ao associado e parece-me, do que oiço, que as coisas estão um pouco mais céleres. Mas logo em abril chamámos a atenção para a importância de o governo criar estruturas para reduzir burocracia. Nós trabalhamos muito com estruturas nas candidaturas e percebe-se que a máquina do Estado é lenta e o Estado tem de investir nisso, na modernização de meios e capacitação de pessoas. Nós falamos com as estruturas intermédias do Estado e elas dizem-nos que não têm capacidade.

Nos lay-off percebo que a segurança social não tivesse mãos a medir, mas agora o governo tem de ser mais célere - está a melhorar mas tem de ir mais longe e fazer chegar mais rapidamente o dinheiro às empresas.

As medidas têm regras suficientemente claras ou há queixas de complexidade e dificuldade acrescida por as regras mudarem de 15 em 15 dias?

Isso não ajuda, não. No fim do verão, ainda havia empresários que não sabiam que o lay-off existia. O país não é só o litoral e a zona de acesso direto à informação. Se já é difícil criar uma medida e explicá-la, ainda pior é quando passado uma semana se faz um ajustamento, depois uma alteração... Percebo totalmente a dificuldade do governo, ninguém esperava isto, vínhamos de um ciclo ótimo. Mas as empresas vinham de um ciclo de investimento. Na restauração por exemplo, estava a investir, como o turismo, e fomos apanhados em contraciclo. Todos sabemos a situação de endividamento das empresas. De repente vem isto... o Estado tem de dar informação clara e direta - há muita contrainformação a circular.

O lay-off simplificado só está disponível para empresas que sejam obrigadas a fechar por ordem do governo. Devia voltar a ser generalizado, como no primeiro confinamento?

Sim, porque a situação não é muito diferente do primeiro confinamento. Devia generalizar-se.

Tendo em conta a crise e como pode ainda prolongar-se, a meta do governo para o salário mínimo (SMN), de 750 euros em 2023, é exequível?

O tema é antigo e acho que temos um problema claro de défice de salários. E há também um problema de produtividade que acredito que está muito ligado aos baixos rendimentos das pessoas. Se há uma meta, não devemos adiá-la porque isso prejudica todos. Nós fomos a favor da subida do SMN e o que achamos é que, pelo menos para os setores mais afetados pela crise, se deve criar algum apoio que traga conforto às empresas que têm de o acomodar. Em 2001, 4% dos empregados recebiam o SMN, em 2019 são 25,6%. Ou seja, os quadros seguintes congelaram. Isso é que é preciso combater.

As queixas das demoras e da burocracia são recorrentes. Melhorou alguma coisa?

Nós temos 98% de PME e dentro dessas 90% são microempresas e os sócios-gerentes - no café, na pastelaria - são donos mas vivem do salário. Portanto vejo com agrado que num dia e meio 50 mil pessoas, trabalhadores independentes e sócios-gerentes, se tenham candidatado a apoios. Acho que o governo está mais ágil, mas a questão burocrática é complicada.

No tempo da troika, falava-se em destruição criativa: falência de empresas inviáveis e sobrevivência ou até fortalecimento das que tinham melhor gestão e se adaptavam. Faz sentido usar a mesma expressão nesta crise?

Não sei se a expressão é certa, mas vimos exemplos positivos das empresas. Por exemplo, a capacidade que nós, empresários da restauração, tivemos de nos adaptar a passar para o digital, a indústria têxtil, que rapidamente adaptou o modelo de negócio para fazer máscaras... comunitárias. As empresas e os empresários são resilientes, estão a aguentar e a tentar preservar ao máximo o emprego, que é o mais importante neste momento.

O plano de vacinação está a levantar preocupações e já há quem alerte para o perigo de estragarmos o verão se não aceleramos. Se o verão não puder ser mais ou menos normal, pode haver consequências graves?

Estando a nossa economia muito dependente do turismo, se o verão não puder ser vivido o mais parecido com o normal possível, vai haver consequências graves, seguramente. É fundamental que o plano de vacinação seja o mais rápido possível, já se percebeu que é a única forma de ganharmos esta batalha, criar imunidade de grupo.

No fim do verão acabam as moratórias bancárias. Que cenário antecipa para esse momento?

Nós vivemos na bolha das moratórias e dos lay-offs. Estamos em crise económica, mas quando as moratórias acabarem muitas empresas não terão tesouraria e entrarão em incumprimento. A banca terá de incorporar e vamos juntar uma crise económica a uma financeira. A bazuca será fundamental. E temos dois caminhos: esticar de novo as moratórias - acho que até fim do ano, pelo menos, poderá acontecer - e a bazuca, que tem de ser célere ou a banca não vai ter depois condições para emprestar dinheiro às empresas.

A maioria dos restaurantes está fechada ou a funcionar com muitíssimas limitações há meses. Vão desaparecer muitos?

Sim, infelizmente é inevitável. Com muita pena minha, porque a restauração estava num ciclo incrível. Por isso há que olhar para estes setores. Eu entendo que um perdão fiscal seja uma caixa de Pandora, mas o diferimento de algumas obrigações fiscais, nomeadamente IVA, era útil. Permitir às empresas pagar durante os próximos anos sem juros ou com juros muito reduzidos.

O IVAucher ainda faz sentido, quando puder concretizar-se?

Tudo é importante, mas é uma medida pequenina. O diferimento de impostos - e já falámos nisso ao governo - era importante. Uma situação excecional pede medidas excecionais e um diferimento a quatro ou cinco anos podia ajudar as empresas a respirar um pouco.

Falou em criar uma espécie de ANJE Business School. Como está essa ideia?

A nossa estratégia ao tomar posse era essa, mas com a pandemia fomos alterando objetivos. Apostamos mais do que nunca na transição digital, agora através de um modelo que criámos com a Câmara do Porto (CMP), com que a ANJE pretende trazer tecnologia às empresas não tecnológicas, ao tecido tradicional português. Mais de metade das nossas empresas ainda não tem presença digital e com esse projeto vamos capacitar 120 empresas, fundamentalmente na área digital. Até ao fim do mandato, queremos chegar a 3 mil, com um investimento de 500 mil euros. É o nosso contributo. Já temos o Porto, agora vamos falar com mais autarquias para executar esse investimento e passar know how para cerca de 30 municípios.

Um mês depois de assumir a presidência da ANJE o país estava em confinamento. Como é que a ANJE se adaptou no apoio às empresas?

Criámos logo o gabinete de crise para ouvir os associados. Depois tentámos fazer chegar ao governo as preocupações. Logo desde abril propusemos medidas que ajudassem à capitalização das empresas - por exemplo que quem tivesse disponibilidade para o fazer pudesse ter um benefício fiscal. E defendemos desde o início a importância de uma task force como a que se criou para a vacinação, um rosto responsável pelo que está a acontecer, para a bazuca.

Faz falta alguém que dê a cara pelo que se responsabilize por as coisas correrem bem ou mal?

Claro que faz. E para garantir que há responsabilidade política direta, o governo podia criar uma secretaria de Estado da bazuca. Os portugueses precisam de saber o que vai acontecer a estes fundos. E precisamos que deixem falar os empresários jovens. O dinheiro que aí vem é muito importante para a reconfiguração da economia portuguesa e mais do que os empresários que falam habitualmente - e a maioria muito bem -, nós vamos ser os mais impactados pelo que acontecer. O escrutínio nas vacinas é enorme e deve ser igual quando vier o dinheiro de Bruxelas. É fundamental aproveitar muito bem esses fundos, analisar e tentar resolver os problemas que temos. Por isso repito e apelo ao primeiro-ministro para que crie um gabinete de crise, uma figura à prova de bala, para que percebamos que o dinheiro está a ser bem gerido.

A ANJE mede o pulso ao tecido empresarial. Qual é a expectativa para 2021?

Neste momento, vejo algum desânimo. No final do ano passado, havia esperança na vacina e num segundo semestre de regresso ao crescimento económico. Eu continuo a ter esperança de que a imunidade de grupo ainda se atinja este ano e o último trimestre seja já de sinal positivo, mas vejo muita preocupação nos empresários, sobretudo com este novo confinamento. Temos de debelar o problema de saúde pública rapidamente, porque sem isso não há economia.

Enquanto empresário, como é a relação com o Estado no que diz respeito aos apoios públicos?

Definitivamente, é preciso uma mudança de mentalidade. Há um problema claro de atrasos: nunca se cumprem os prazos dos planos - da aprovação ao adiantamento e ao reembolso de fundos, por exemplo. E depois temos uma Autoridade Tributária que funciona como uma polícia. Os impostos são para pagar e pronto, mas não podemos, sempre que há uma questão ou reclamação, ter de pagar primeiro. Por outro lado, devia haver uma bonificação para quem faz bom trabalho. Tenho dificuldade em entender que uma empresa que deu lucro, contribuiu para a economia e o emprego pague exatamente o mesmo que outra que deu lucro mas por questão estratégica decidiu despedir - sem juízos de valor. Devíamos caminhar no sentido de dar incentivos positivos. Iria melhorar a relação entre empresários e o Estado. E depois é preciso resolver a burocracia e a carga fiscal. Nós, empresários, temos responsabilidade direta nos salários, mas o Estado também, se o que queremos é que as pessoas tenham o maior rendimento possível. Quando comparamos índices de poder de compra, estamos atrás de Grécia e Espanha mas já também de países que entraram na União Europeia quase 20 anos depois de nós.

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