Os manifestantes da restauração em frente à Assembleia da República
Movimento a Pão e a Água

Há três hipóteses: o Governo "receber-nos", "levarem-nos de ambulância" ou "de caixão"

Há mais de 48 horas nove manifestantes não arredam pé do passeio em frente ao Parlamento. Agora, estão só com água e cobertores. O pão não lhes chega às bocas, porque mantêm a greve de fome até que o Executivo decida marcar reunião para negociar os apoios à restauração.

Nove pessoas em quatro tendas, montadas num passeio em frente à Assembleia da República, mantêm-se no mesmo local desde sexta-feira. Há três noites que não arredam pé. Fazem parte do movimento "A pão e a água".

Alberto Cabral admite, em declarações à TSF, que "tem sido muito complicado", e que, no início, não sabia "naquilo em que se estava a meter".

"Muito doloroso." É assim que o manifestante descreve a ação que se prolonga há mais de 48 horas, "uma causa justa", para a qual, salienta, quer ver "respostas". Alberto Cabral garante: "Eu vou ficar aqui até que o Governo nos receba. Eu represento as discotecas deste país, tenho nove espaços fechados. Estou há nove meses sem poder sustentar a minha família, portanto, estou aqui até que o Governo diga alguma coisa, até que o Governo me ajude. Estou sem reservas nenhumas."

O empresário assinala que tem recebido "apoio constante", com oferta de água e de algumas palavras. "Tem sido muito importante." Mas a visita que esperam, a do Governo, ainda não chegou - "nem trazer uma água sequer".

Três aquecedores e mantas nas pernas ajudam a espantar o frio e o desconforto de dormir ao relento. "Pouco dormimos, não comemos, e, se não formos recebidos rapidamente, mais pessoas se juntarão, porque têm sido centenas de pessoas que têm passado aqui, todos os dias, a dar-nos apoio e a dizerem que estão connosco. Nós estamos a representar o negócio delas também." Ricardo Tavares afirma que está junto dos restantes manifestantes, porque também tem "um conjunto de propostas a propor".

"Não percebemos o que este Governo está a pensar, para afundar uma economia em nove meses, e sem dar resposta, porque não nos dão uma luz ao fundo do túnel", critica Ricardo Tavares, que adianta que a 16 de novembro foram enviados pedidos, quer para Marcelo Rebelo de Sousa, quer para Siza Vieira e para o primeiro-ministro.

Há seis meses, os proprietários da área da restauração entregaram 40 chaves de espaços encerrados, junto da Presidência da República. Hoje seriam "milhares", assevera Ricardo Tavares. "Temos tido manifestações por todo o país, e por todo o país nos vêm contar histórias de terror, de famílias que tinham a vida toda organizada. Ontem, esteve aí um senhor que tinha um restaurante há 60 anos. O senhor tem 80 anos e perdeu o restaurante. Disse que não aguenta mais e que, no fim deste mês, vai entregar o restaurante." Na perspetiva do manifestante, o Governo "está a destruir todas as PME [pequenas e médias empresas]", que têm um impacto muito substantivo no PIB português. "Eu não entendo como o tecido empresarial português pode sobreviver se o Governo não resolver isto", sustenta.

"Temos três hipóteses: uma é o ministro, ou o primeiro-ministro, receber-nos, que é aquela que nós achamos mais coerente; a segunda é levarem-nos de ambulância, a terceira, é de caixão. Estamos preparados para tudo." Ricardo Tavares não abdica da firmeza e diz querer uma reunião com membros do Governo e com a Presidência que tenham realmente poder decisório. "Já reunimos várias vezes com o secretário de Estado do Comércio, que tem muito boa vontade mas não tem poder decisivo. É-nos dito que o poder decisivo está no ministro Siza Vieira, e era com o ministro ou com o primeiro-ministro que nós gostávamos de reunir."

Marcelo Rebelo de Sousa também não escapa a críticas: "Gostávamos também muito de ter sido recebidos pelo Presidente da República, e não por dois assessores, porque o Presidente da República, sempre que vê um marginal deitado no chão, em maus lençóis, vai lá para tirar uma selfie. Devia ter atenção aos empresários deste país, que estão aqui representadas por estas nove pessoas que estão em greve de fome, e ter vindo aqui dar uma palavra." "Já que não nos recebeu no Palácio. Se calhar está muito preocupado com a recandidatura, ou não...", lastima Ricardo Tavares.

Com o manifestante, estão mais oito pessoas, duas árvores de Natal que assinalam a época, e velas, algumas quase apagadas, como a quadra natalícia tem sido para estes empresários. Apenas a convicção e a determinação se mantêm como chamas que não se extinguem.

* e Catarina Maldonado Vasconcelos

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