"Não me recordo, não tenho memória." Supervisores da Caixa não se lembram de nada

Diretores do departamento de supervisão do Banco de Portugal entre 2000 e 2010 não se lembram de quase nada relativo à Caixa. Frase "não me recordo" foi dita dezenas de vezes na comissão de inquérito.

Os deputados de todos os grupos parlamentares bem insistiram, mas sem resultado: nem especiais alertas sobre a Caixa, nem a cartas de administradores a alertar para riscos no banco público, nem especiais medidas do Banco de Portugal: os dois diretores do departamento de supervisão entre 2000 e 2010 não têm memória de quase nada.

Na comissão parlamentar de inquérito a Caixa Geral de Depósitos, Carlos Eduardo Santos (diretor do departamento de supervisão entre 2000 e 2008) e José Cunha Pereira (seu sucessor entre 2009 e 2010 e posterior diretor do departamento de ação sancionatória entre 2011 e 2013) afirmaram dezenas de vezes que não têm memória de problemas ou alertas na instituição financeira.

Numa audição que foi por engano agendada para as 09h30 mas que afinal só se realizou pelas 15h00, os dois antigos responsáveis do Banco de Portugal tiveram respostas semelhantes para quase tudo: explicações genéricas sobre as suas funções, e quase nenhuma memória de casos concretos.

Os deputados insistiram em vários ângulos: a carta enviada em 2002 pelo antigo administrador Almerindo Marques sobre riscos nos créditos da Caixa? "Não me recordo" (o antigo governador à altura, Vítor Constâncio, respondeu o mesmo). Ações concretas de supervisão sobre o banco público? "Não tenho memória". Principais recomendações em relação à Caixa no período em que liderou o departamento de supervisão? "Não tenho memória de qualquer atuação particular em relação à Caixa para além da atividade normal de supervisão", respondeu Carlos Eduardo Santos, numa resposta repetida dezenas de vezes ao longo da comissão.

À deputada do CDS Cecília Meireles, o antigo responsável chegou mesmo a garantir não se recordar "se existia algum departamento de análise de risco na CGD".

Após várias perguntas com respostas da mesma natureza, a parlamentar chegou mesmo a questionar: "o que diz é que não se lembra de nada? Que não se lembra de ter feito rigorosamente nada em relação à Caixa Geral de Depósitos durante os oito anos em que foi diretor do departamento de supervisão? Tem alguma explicação a dar acerca de alguma coisa que tenha corrido mal?"

A resposta foi uma repetição: "não tenho memória de situações em particular".

A falta de memória não escapou a reparos de outros grupos parlamentares: "ninguém é obrigado a ter super poderes cognitivos", admitiu a bloquista Mariana Mortágua, "mas é difícil interagir com uma instituição em que sistematicamente assistimos a um passa-culpas e em que quanto mais subimos na hierarquia menos as pessoas sabem", lamentou.

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