Nova geringonça? "Não admiraria. Costa conseguiu equilíbrio fantástico"

A opinião é do diretor da consultora Roland Berger para a América Latina, Angola, Moçambique e Portugal. António Bernardo sublinha que o país é hoje um caso de estudo.

António Bernardo tem um longo percurso na consultadoria. Está na Roland Berger, uma das maiores companhias do sector desde 1990, onde hoje lidera o departamento regional para a América Latina, Portugal, Angola e Moçambique.

Há um abrandamento do crescimento económico mundial, as tensões comerciais entre os EUA e a China e a incerteza política em alguns países pesam na confiança dos empresários. Corremos o risco de ter uma nova recessão?

Sinceramente não acho que vá haver uma nova recessão. Vai haver um pequeno abrandamento mas não há razões estruturais para que haja recessão. Os fundamentais da economia estão bem, os EUA apresentaram um crescimento fantástico no último trimestre, a Europa, ao contrário do que se dizia, também apresentou neste trimestre um crescimento acima do que era esperado, há no mundo um conjunto de desequilíbrios que necessitam de ser resolvidos, portanto grande potencial de crescimento de algumas regiões do mundo como o sudoeste asiático, a América Latina e a África, que é um continente de futuro a precisar de desenvolvimento. Pode haver um abrandamento, não uma recessão. Estas guerras comerciais têm questões ideológicas, não estamos muito convencidos que sejam fatores que possam condicionar o desenvolvimento económico a médio-prazo. A médio-prazo achamos que a economia mundial está relativamente estável e não estamos a prever uma crise como 2008.

Na Europa como olha para o crescimento dos riscos políticos? São um fenómeno passageiro ou que pode ainda aumentar e que impacto económico é que pode ter?

Temos de ultrapassar estes aspetos de pequena política, estes aspetos populistas que estão a ter um efeito que aparece sobretudo porque há uma classe média na Europa que tem sofrido e tem perdido poder económico, não lhe foi explicada o efeito positivo da imigração... que tem um efeito positivo e isso vai-se ver daqui a dois anos na Alemanha. Criticou-se Merkel por abrir a imigração na Alemanha mas a Alemanha vai crescer e vai resolver um pouco do seu problema demográfico através da imigração. Não foi bem explicado e isso criou reações que foram muito pouco pensadas. É verdade, no curto-prazo há um conjunto de fenómenos que pode ter impacto mas acredito que a médio, longo-prazo a Europa tenha novamente um papel mais importante na ordem mundial. O mundo precisa da Europa. Viajo muito para outros continentes e vejo uma diferença grande em tudo. Em igualdade, por exemplo. Temos desigualdades na Europa mas quando comparamos com a América Latina, a China e a Índia, que são os países emergentes, há décadas de diferença para chegarem ao nível da Europa. Ao contrário do que se possa achar, o modelo social e económico europeu - sei que é contra corrente o que estou a dizer - é um modelo de futuro. Agora, precisamos de conseguir um protagonismo mais importante da Europa. É com liderança? É. É com lideranças, com mobilização da população, comunicar à população de uma forma melhor, é verdade. No curto-prazo acho que estes movimentos populistas vão ter efeito.

A Europa tem, nesta altura, um elefante sentado no sofá chamado Brexit. Será que vai acontecer tal como foi pensado de início ou vai ser uma separação amigável que deixa quase tudo na mesma?

A minha ideia é que vai haver Brexit mas não vai mudar muito. E felizmente para ambas as partes, porque precisamos de um Reino Unido (RU) na União Europeia (UE). Sou completamente anti-Brexit. Foi mal explicada a questão, não houve uma decisão racional, os slogans, as ideias muito ligeiras... acho que no final ambas as partes vão querer ter uma relação que seja positiva para ambas. Na forma vai haver um Brexit, no conteúdo real acho que não vai haver grande diferença. O RU é um país diferente, tem um conjunto de ideias fora da caixa, os ingleses são diferentes, não são continentais. A Europa precisa do RU e o RU precisa da Europa. Penso na realidade que o Brexit não vai ser o bicho papão que estávamos a pensar.

Olhando para o Brasil, como é que está a assistir à fase pós-Bolsonaro?

O Brasil é um laboratório fantástico para quem vem de fora e tenho a vantagem de estar fora e dentro. Passo muito tempo no Brasil e consigo ter esta visão interna e externa... e é um laboratório porque é uma economia extremamente rica, uma economia de dois mil milhões de dólares de PIB, dez vezes maior que a economia portuguesa, e por ser uma economia poderosa aguenta muita coisa. O Bolsonaro sendo um conservador a vários níveis conseguiu atrair para a equipa dele uma equipa muito liberal a nível económico. O Paulo Guedes é um economista de Chicago muito liberal e no início, nós observadores, achamos que talvez houvesse ali um problema de consistência e ainda hoje há um pouco esta ideia de como é que isto vai jogar. Dizendo isso, há uma esperança de que a equipa económica possa tomar um conjunto de decisões. Nós - observadores - esperaríamos que já tivessem sido tomadas mais decisões, nomeadamente nas privatizações, onde achamos que há um potencial grande, vendas de ativos, etc, mas pensamos que se isso acontecer, nomeadamente a reforma da previdência e a reforma fiscal pode haver um movimento de crescimento do Brasil de uma forma interessante.

No caso de Angola, como é que vê as mudanças que ocorreram nesta nova presidência?

Vejo muito bem e estou muito positivo sobre Angola. Este ano já lá fui 3 vezes. Como sabem a Roland Berger é alemã e os alemães gostam muito de Angola e estão muito satisfeitos. Eu vi escrito na imprensa alemã que pela primeira Angola tem um estadista com visão estratégica. Para os alemães dizerem isto é muito difícil, fiquei surpreendidíssimo. João Lourenço foi à Alemanha. Foi muito bem recebido, a Merkel já foi a Angola, acredito que Angola tem uma grande oportunidade. O que está a ser feito vai a tempo mas não se pense que se vão resolver os problemas rapidamente. Como é que nós usamos as mais-valias do petróleo, quando elas existem, para fomentar a economia? Há 20 anos que vou a Angola e que se diz "vamos canalizar as mais-valias, criámos um fundo soberano" mas depois nada acontece.

Quais são as principais áreas onde as empresas podem apostar?

Angola tem um défice enorme em várias áreas mas maior nas infraestruturas, que são áreas básicas para desenvolver o país. Eletricidade e energias são básicas senão as empresas não podem produzir, as pessoas têm de ter geradores em casa, etc, tudo o que tenha que ver com estradas, ferrovias, aeroportos são importantes, e depois questões básicas de cariz social, como a educação, que é a mola para resolver todos os problemas.

Já que falamos de possibilidades para empresas em Angola, Portugal tem alguma coisa a ganhar?

Portugal tem muito a ganhar mas as empresas têm de ter uma visão de médio, longo-prazo. Nós como empresa alemã - somos a sucursal portuguesa de uma empresa alemã - a Roland Berger está em Angola para estar e não queremos o curto-prazo e acho que isso é uma mensagem importante para as empresas. Houve exageros nos preços que cobravam, era tudo fácil... não só de empresas portuguesas mas no geral. As empresas têm de pensar em Angola como uma estratégia de médio, longo-prazo e pensar que têm de ajudar a construir e a desenvolver o país. Uma questão fundamental é a formação de quadros angolanos. Ainda há dias aconselhei um ministro angolano ligado às infraestruturas a exigir que as empresas, no seu pacote de projetos, tenham uma área de formação. Acho que as empresas portuguesas têm uma vantagem competitiva em Angola inequívoca, mesmo comparando com outros países que falam a mesma língua. Por exemplo os brasileiros não se conseguem integrar em Angola. Nós entendemo-nos bem, não somos arrogantes, somos muito sérios, costumo dizer que somos os alemães do sul e os alemães concordam, acham que somos os latinos mais sérios e rigorosos.

A evolução da economia portuguesa nos últimos anos não sendo fulgurante, é positiva. Mas será sólida?

É muito positiva. Portugal está a passar para a fase do 4.0 e tem conseguido desenvolver-se de uma forma muito mais moderna, atraindo sobretudo o sector terciário avançado. Temos uma base de engenharia muito importante e estamos a criar bases de desenvolvimento em questões como mobilidade, tecnologia e outros serviços como o turismo, etc. Portugal tem tido um desempenho muito interessante. É sempre importante e costumo dizer isso aos membros dos diferentes governos, que é que se deve ter uma visão de médio, longo-prazo para o país. Eu costumo dizer que Portugal podia ser a Suíça do sul. Temos uma base de infraestruturas muito boas, um nível de educação muito bom, somos um povo muito persistente, quando temos um objetivo global temos um bom desempenho. Quando foi para entrar no euro dizia-se que Portugal não seria capaz de entrar na primeira fase, e entrou. Também com a crise de 2008... Há tempos estava em Itália e dizia-me assim um amigo: Portugal é um case study. E eu disse: comparado com a Itália, é. Depois podemos argumentar que houve um conjunto de situações que foram interessantes e que proporcionaram esta vantagem mas acho que estamos a fazer um bom trabalho de casa. Agora é talvez altura de pensarmos a 20, 30 anos. Temos já infraestruturas, um crescimento acima da média europeia, mas ainda pouco na minha ótica. Deveríamos estar a crescer claramente acima de 2,5%, devemos ter uma estrutura económica diversificada, ou seja, não se pense que os serviços resolvem o problema. Temos de ter mais indústria, indústria não poluente e tecnológica, podemos aumentar o nosso peso na agricultura, estamos em contraciclo com muitos mercados, ou seja, conseguimos ter culturas que aparecem no mercado mais cedo do que os outros. Estou muito positivo sobre o desenvolvimento de Portugal, sobretudo se conseguirmos implementar esta visão estratégica.

Mas temos ainda, ou não, uma economia assente em salários baixos e uma grande pressão sobre a classe média?

Ainda temos. Há um problema importante de desigualdade em Portugal que tem de ser combatido mas isso só se consegue com crescimento económico e estamos numa fase interessante, a atrair mais investimento internacional, especialmente investimento produtivo. Vou voltar aos alemães que investem muito em produção. Aqui há meses fizemos uma análise de como atrair mais investimento alemão e os investidores alemães diziam que há 15 anos olharam para a Polónia, República Checa, Eslováquia e investiram lá por ser mais vantajoso do que Portugal: era mais próximo, os mercados eram maiores, a cultura era semelhante, a língua, e hoje chegam à conclusão que foi um erro, que Portugal tem vantagens comparativas claramente superiores em relação aos países de Leste. Fiquei extremamente positivo com isto. Uma empresa de alta tecnologia alemã disse-me que 90% da investigação e desenvolvimento foi passada para Portugal e só não passam 100% porque senão diziam que o produto era português e não alemão. Não é só produção de mão-de-obra barata. É verdade que ainda temos salários baixos mas eu acho que há um grande potencial.

Esse desenvolvimento aconteceu nos últimos anos com a chamada geringonça, uma solução política nova em Portugal. Uma renovação desta solução seria, do ponto de vista económico, uma boa ideia para o país?

Tudo o que dê estabilidade ao país é bom. O primeiro-ministro conseguiu criar um equilíbrio fantástico. É um case study. O governo anterior preparou, fez todo o aspeto difícil de preparar a saída da recessão mas este governo fez esta arquitetura que funciona, e funciona bem. E hoje é um case study na Europa.

Mas será que dá para fazer uma sequela desta geringonça?

Eu sou sempre mais adepto de um consenso ainda maior. Olho para Alemanha e acho interessante como é que eles conseguem fazer ali um "centrão". Hoje já não há uma pressão tão grande, mas no início eu pensei que um "centrão" podia ser solução mas o primeiro-ministro mostrou que com um governo minoritário e com apoio parlamentar ele consegue aprovar as medidas principais e consegue um grande equilíbrio. Não me admiraria que pudesse haver uma repetição desta geringonça, talvez com uma arquitetura diferente.

O Novo Banco tem pesado nas contas públicas. Estas surpresas poderão continuar ou é um setor que está mais estabilizado?

Acho que a grande limpeza dos balanços dos bancos já se fez em grande parte, e bem. Acho que foi bom. Não há economia saudável e que possa crescer sem ter bancos fortes. Acho que agora os bancos vão ter de entrar numa nova fase, e já estão a entrar, já se está a perspetivar uma nova fase de crescimento. Os bancos tiveram alguma dificuldade em investir de uma forma massiva. Os bancos europeus foram um pouco mais rápidos no desenvolvimento da digitalização mas vejo já, e vão sair brevemente ideias muito interessantes, bancos portugueses com ideias muito interessantes e modelos de negócios muito inovadores. Foi feito um bom trabalho de casa. Custou? Custou, mas tinha de custar.

Mas ainda existe um grande nível de crédito malparado, apesar das vendas que têm sido feitas, e por outro lado eventuais necessidades de novas ajudas da parte do Novo Banco.

Hoje estamos com 8,2% de malparado sobre o total de créditos, devíamos estar aí nos 5%. O que se venha a fazer agora já é menos estruturante. É natural que ainda seja necessária alguma recapitalização mas o pior já passou. Vejo uma série de iniciativas na banca, aliás estamos a ajudar algumas delas, de modernização, de mudar modelos de negócio, de fazer associações com fintechs - há aqui uma oportunidade de colaboração e estamos a fazer isso com alguns bancos. As fintechs são mais rápidas no desenvolvimento, tecnologias mais avançadas e achamos que há uma grande abertura dos bancos. Nos próximos 6 a 9 meses vão aparecer modelos de negócio na banca portuguesa muito inovadores - nós estamos a ajudar dois bancos - que vão estar ao nível do melhor que há globalmente.

E já terminaram as práticas de concessão de crédito sem as devidas garantias?

Vemos uma grande preocupação agora nas análises de risco e eu concordo totalmente que se fizeram erros muito grandes na concessão de crédito, na análise de rico, nalguns casos até com influência política. Os bancos aprenderam a lição. A diferença entre depósitos e créditos há 10 anos eram mais de 120% e hoje estão abaixo de 100%. Os bancos reduziram drasticamente o crédito. Claro que temos de ter cuidado porque economia sem crédito não cresce mas os bancos estão muito mais seletivos na concessão de crédito. A média deve estar nos 80 e tal, 90, nos rácios de transformação.

O crescimento do turismo em Portugal terá de parar um dia. vai estabilizar ou quando sair de moda vamos ter problemas no crescimento?

Não há necessidade de o turismo entrar em fase de estagnação. Nós fizemos os dois planos estratégicos de turismo para Portugal e três de Lisboa e estou muito orgulhoso com isso porque de alguma forma contribuímos para esta estratégia de qualidade. Há uma nova fase agora, não pode ser um crescimento explosivo, agora é cada vez mais qualidade, especialmente em termos ambientais e de território. Temos um território fantástico e fizemos alguns erros mas ainda estamos a tempo de ter aqui muita valorização. Agora entramos na fase de maturidade, temos de ter uma atenção à comunicação e envolvimento da população, explicar que o turismo é benéfico e que não é só o problema de ter muita gente e que se perdem as casas no centro. Lançamos agora aqui em Lisboa e em Portugal algumas ideias de como deve ser a nova fase de desenvolvimento e que deve ser ser mais qualidade do que quantidade, mais reforço da digitalização no turismo, mais diversificação. Em vez de estarmos só a pensar em Lisboa podemos pensar na Grande Lisboa, que tem ativos que podem ser claramente melhorados. O foco é qualidade com um aspeto importante: atenção ao preço. Temos de ter preço justo porque a vantagem comparativa de Portugal no turismo é uma excelente relação qualidade-preço. Às vezes pode haver a ideia de aumentar os preços para responder à procura. A nossa proposta de valor tem de ser muito competitiva porque temos aqui ao lado um monstro em turismo, talvez o país que melhor sabe gerir turismo, que é Espanha. Mas temos todas as condições para ter uma proposta interessante. Hoje o turismo representa 8,2% do nosso PIB e não me surpreenderia que chegasse a 10% ou 11%.

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