"Os cidadãos pagam impostos demais, as empresas não"

Fundador da Critical Software entende que tem "obrigações para com a comunidade" e que a carga fiscal é "razoável". Gonçalo Quadros defende que as empresas devem combater o abandono do interior.

Em 1998, Gonçalo Quadros foi um dos fundadores da Critical Software, uma das empresas tecnológicas portuguesas de maior sucesso. Mais de duas décadas depois, a companhia tem escritórios no Reino Unido, Alemanha e Estados Unidos, empregando mais de 800 pessoas, mas mantém a sede em Coimbra, numa opção que tem tanto de prático como de "ligação romântica" à cidade onde a empresa nasceu.

A Critical manteve sempre a sede em Coimbra, prescindindo de ir, por exemplo, para Lisboa ou para o Porto. Porquê?

Havia uma ligação muito forte à cidade de Coimbra, sobretudo à universidade, que deu origem ao projeto. É um exemplo da importância das universidades para o sucesso das startups e das empresas de base tecnológica. A Critical apareceu, no primeiro momento, com um projeto que licenciou tecnologia de propulsão a jato da NASA. Isso deu-lhe credibilidade e notoriedade desde muito cedo e foi determinante para todo o caminho que fizemos. Não teria sido possível termos essa notoriedade se não estivéssemos a fazer os trabalhos de doutoramento na Universidade de Coimbra, num laboratório de nicho, de detetar falhas, que era muito reconhecido a nível internacional.

Não mudar de cidade foi uma opção prática, uma afirmação de princípio ou uma questão romântica?

Um pouco de tudo. Mas mais uma questão romântica, porque há uma ligação a Coimbra, a nossa cidade-natal. Foi uma homenagem às nossas origens.

É uma opção que não é muito comum em empresas de grande dimensão. Porque não vemos empresas com sedes no interior do país?

Não há uma resposta óbvia. Mas é certo que vivemos num país assimétrico, e isso talvez seja consequência de uma política que tem estado sistematicamente centrada em Lisboa. Lisboa é uma espécie de buraco negro que atrai tudo e mais alguma coisa, e o resto do país vai ficando uma espécie de deserto, o que é desanimador. Há um ciclo vicioso, de mais investimento porque há mais pessoas a virem para a capital. Esse investimento gera atividade e depois entram ainda mais pessoas... E não saímos disto! Não é possível construirmos um país melhor se não combatermos essa assimetria, muito forte. Lisboa e Porto - que tem sido capaz de combater - são exceções de um país que está a ficar deserto, abandonado e que não tem esperança.

O Estado deveria ter um papel mais ativo e incentivar a fixação de empresas no interior?

Sim, seguramente. Se há domínio nas políticas públicas merecedor de atenção este será um deles, sem dúvida. Claro que também compete às empresas e a nós, cidadãos, melhorar o mundo em que vivemos. As empresas devem ser um veículo para que os cidadãos possam cumprir essa vontade de deixar aos seus filhos e netos um lugar melhor do que herdaram. As empresas não podem ficar à espera das políticas do Estado para combater este problema - ou outros que são importantes para construirmos uma sociedade melhor.

A Critical presta serviços a empresas em indústrias muito variadas, desde a aeroespacial e automóvel até à energia e serviços financeiros, passado pela saúde, pelo governo e pelas telecomunicações. Quais são as próximas áreas de negócio?

Nascemos no setor do Espaço mas a partir daí fomos para outros, dos quais estamos muito próximos, como aeronáutica, defesa, transportes e mobilidade. Daí, fomos para mercados civis, como as telecomunicações, a energia e o setor financeiro. Há software em todos os setores de negócio e é cada vez mais importante que possamos confiar no sistema operativo utilizado nos dispositivos à nossa volta. Tudo o que permita tornar as plataformas tecnológicas mais fiáveis, íntegras e seguras está na nossa área de responsabilidade. Depois de entrarmos na área da mobilidade - através da parceria com a BMW - queremos apostar no setor dos dispositivos médicos.

Em todos os tipos de dispositivos médicos?

Estamos a estudar a melhor forma de entrar nesse mercado. Certamente vamos escolher uma parte desses dispositivos, para começar, mas temos uma ambição grande de cobertura.

Em que moldes será feita essa aposta?

Estamos a começar a trabalhar no mercado alemão e no Norte da Europa, com alguns parceiros.

Isso pode implicar abrir um escritório da Critical no Norte da Europa?

A abertura de novos escritórios é sempre uma possibilidade. Queremos estar perto dos nossos clientes e sempre que isso se justificar avançaremos com novas aberturas. Movemo-nos com muita facilidade e nem sempre é necessário ter escritórios nas geografias onde vamos atuar. Mas quando há massa crítica, começa a ser difícil não ter um escritório ou ponto de apoio nas geografias em que estamos presentes.

Em que outras áreas poderão apostar nos próximos anos?

Este mundo está em mudança muito rápida. A inteligência artificial, o machine learning e a segurança são domínios muito transversais e onde a Critical se quer posicionar com especial determinação. A maneira de tirar partido das oportunidades que esses domínios nos vão trazer é, no essencial, oportunística. Vamos percebendo que podemos transformar o mundo num determinado setor e investimos muito rapidamente, com muita agilidade, focamos as nossas baterias.

Para já, queremos abrir uma frente na área dos dispositivos médicos, onde as nossas competências se ajustam às necessidades do nosso setor. Isso é uma aposta que tem algum fôlego. Continuamos à procurar oportunidades no mundo que nos rodeia.

No ano passado, a faturação da Critical Software cresceu 42% para 45 milhões de euros, e duplicou o número de trabalhadores para mais de 800. Já disse que a expectativa para este ano é atingir os mil funcionários e 50 milhões de faturação. Esse objetivo está bem encaminhado? Quais são os planos de médio prazo?

Queremos continuar a crescer. Entregamos excelência tecnológica e já fomos reconhecidos por isso mas também temos de ser capazes de entregar volume. Trabalhamos com parceiros de grande dimensão, que têm projetos com uma escala muitíssimo grande. Temos de crescer. O objetivo, este ano, é ultrapassar as metas estabelecidas: queremos ter mais de mil pessoas na Critical e manter uma taxa de crescimento de pelo menos 20% ao ano.

Que parte da vossa faturação é obtida junto de clientes estrangeiros?

Acima de 80% vão para exportação.

Não há também um fator de risco num crescimento tão rápido?

Não é possível desenhar e pôr no terreno um projeto como o nosso sem assumir riscos. Estamos muito conscientes disso mas faz parte do nosso negócio.

Que riscos são esses?

O crescimento da Critical é a sua cultura, a prática, a maneira como olha para o mundo. Antes de sermos uma empresa, somos uma comunidade e só podemos ser bem sucedidos com uma comunidade de sucesso. Dependemos muito da atração e retenção de talento - um recurso escasso. Atualmente, o acesso a talento é um processo particularmente competitivo. Um dos maiores riscos é não conseguir construir essa comunidade com os princípios de solidariedade e de cumplicidade, com uma partilha de valores e que mantenha a solidez do processo. O principal desafio é crescer mantendo os princípios que hoje fazem a Critical. Somos uma escola de engenharia. Para funcionarmos como tal, é preciso que o ecossistema funcione de determinada forma.

Qual é a sua visão do empreendedorismo em Portugal?

É uma explosão que tem óbvias virtudes. É um big bang e vejo com muita expectativa o que está a acontecer. No princípio da Critical, há 21 anos, isso não acontecia. Éramos convidados para falar sobre o nascimento da empresa e os auditórios ficavam vazios. Hoje, é o contrário: a geração mais nova tem uma vontade muito grande de perceber como isto funciona e criar as suas empresas. Não há nenhuma dúvida de que temos de dar um salto, perceber o que queremos para o país e alinharmo-nos, a nível estratégico, para facilitar o caminho.

Que caminho é esse?

Portugal podia ser o centro de engenharia da Europa. Não é muito difícil. Temos aquilo que é necessário: boas escolas de engenharia e capacidade instalada por empresas reconhecidas. O que nos falta é escala.

Temos de crescer muito rapidamente. Por exemplo, uma BMW precisa de milhares de engenheiros. Se perguntarmos a todas as outras empresas que estão em processo de transformação digital, que precisam de introduzir engenharia de software nas suas práticas de fabrico e de produtos e que não têm recursos de engenharia, sobretudo no Centro e Norte da Europa, esses mercados veem Portugal como uma possibilidade para introduzir e acelerar esses programas à velocidade necessária. Uma BMW não se instala em Portugal porque temos salários mais baratos. É por termos engenheiros. Mas, como a BMW, há várias empresas que querem fazer o mesmo. A única coisa que temos de fazer é escalar rapidamente e olhar para a capacidade de abraçar estes projetos.

A Critical sente o abrandamento do crescimento económico mundial na faturação?

Não, pelo contrário.

Temos uma das taxas de IRC mais altas da Europa. Nunca ponderaram mudar a sede para outro país para pagarem menos impostos?

Não, não pagamos demasiados impostos; os cidadãos pagam demais, não as empresas.

Considera que a carga fiscal que incide sobre a Critical é razoável?

Sim. Temos obrigações para com a comunidade em que vivemos e obrigações de devolver valor à sociedade. O que pagamos de impostos é razoável. Fico muito mais preocupado, por exemplo, com o salário mínimo.

Em 2018, a Critical faturou 45 milhões de euros. Quanto pagaram em impostos?

No ano passado, o lucro antes de impostos foi de 7,364 milhões de euros; depois de impostos, foi de 6,885 milhões de euros. Foi menos de um milhão de euros em impostos por causa dos benefícios de investigação e desenvolvimento. Há outros problemas muito mais importantes.

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