Perderam a batalha, mas terão perdido a guerra? Os próximos passos dos motoristas

Há quem considere os motoristas os grandes derrotados. E o Governo o grande vencedor. Mas será que o sindicato que convocou esta greve perdeu a guerra, ou apenas uma batalha? O tempo agora é de diálogo, mas a ameaça de uma nova greve continua a pairar sobre o país.

Prometiam parar o país, manter a greve "dez anos se fosse preciso" e suspender a paralisação apenas quando vissem as exigências satisfeitas. Uma semana - e uma requisição civil - depois, o sindicato que prometeu não dar "nem um passo atrás", acabou mesmo por recuar. Um passo atrás, na expectativa de vir a dar dois em frente. A greve foi desconvocada, mas será o fim desta guerra com os patrões? Os motoristas garantem que não.

Ameaça de greve continua em cima da mesa

Negociar com o "cutelo" de uma greve em riste, não é propriamente novidade. Nem para os patrões nem para os trabalhadores. Mas o Sindicato Nacional de Motoristas de Matérias Perigosas (SNMMP) "apostou alto" nesta greve de agosto e perdeu tudo, ou quase tudo. Por isso, não só lhe sobram poucas "fichas" para esta nova fase de negociações, como manda a prudência, que se retirem ilações dos erros cometidos.

O sindicato representado por Pardal Henriques volta a sentar-se à mesa com a ANTRAM com a ameaça de uma nova paralisação, caso os patrões "demonstrem uma postura intransigente". Para a reunião agendada para terça-feira, e que contará com a mediação do Governo, o SNMMP leva a ameaça de uma greve limitada "às horas extraordinárias, fins de semana e feriados", até que os interesses dos motoristas sejam efetivamente assegurados.

A ANTRAM mostrou-se disponível para negociar, mas sublinhou que as empresas "não podem aceitar aumentos" salariais que possam representar "despedimentos coletivos em massa" ou o "fecho das empresas".

O que querem os motoristas e o que ficou fechado com a Fectrans?

A Federação dos Sindicatos de Transportes e Comunicações assinou com a ANTRAM um acordo considerado "histórico" que implica aumentos de, pelo menos, 140 euros para motoristas indiferenciados e 266 euros para motoristas de matérias perigosas, em 2020.

Mas o SNMMP rejeitou um acordo nas mesmas condições que a Fectrans negociou com os patrões e exige um acordo para aumentos graduais no salário-base até 2022.

O objetivo dos motoristas é terem um salário-base de 700 euros em janeiro de 2020, 800 euros em janeiro de 2021 e 900 euros em janeiro de 2022, o que com os prémios suplementares que estão indexados ao salário-base, daria 1.400 euros em janeiro de 2020, 1.550 euros em janeiro de 2021 e 1.715 euros em janeiro de 2022.

O aumento relativo ao próximo ano foi negociado e fechado nos 70 euros, no que diz respeito ao salário-base (dos 630 passou para os 700 euros), mais prémios, de 55 euros. A estes 125 euros, soma-se um novo subsídio de operações para os motoristas de matérias perigosas de outros 125 euros.

Mas nem só os salários estão em causa. O SNMMP quer também um novo contrato coletivo de trabalho, a clarificação da obrigatoriedade (ou ausência dela) de os motoristas realizarem operações de cargas e descargas de mercadorias, o aumento do valor dos seguros e a exigência de exames médicos suportados pelos patrões.

O que acontece no plenário fica no plenário

Duas greves e muitos soundbites depois, o SNMMP parece querer adotar uma postura menos ruidosa. De acordo com o jornal Público , o plenário dos motoristas de matérias perigosas realizou-se de forma discreta.

O jornal fala numa recusa constante dos motoristas em se identificarem e em dizerem o que foi debatido durante mais de três horas. Segundo o diário, os motoristas que tentaram gravar o plenário foram, inclusive, convidados a guardar os telemóveis.

Muitos avanços e recuos depois, só uma coisa é certa: patrões e sindicato vão voltar a sentar-se à mesa das negociações, com a ajuda do Governo, esta terça-feira. O encontro poderá determinar o fim de um enredo que já se escreve há vários meses ou abrir novos capítulos de um livro que deixará a agenda mediática em ebulição, mesmo à porta das eleições legislativas.

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