Primeiros "alertas" de crise já se sentiram

A seguradora de créditos COSEC está a receber mais alertas de incumprimento de pagamentos do que nos anos anteriores.

Na entrevista desta semana d'A Vida do Dinheiro, a presidente da COSEC, Maria Celeste Hagatong, diz ter indicadores da economia real de que Portugal está a tirar o pé do acelerador e confirma os dados do Banco de Portugal de que a economia vai abrandar já este ano.

Já se sentem falhas de pagamento dos créditos de curto prazo (90 dias). São "pequenos sinais de alerta" que no dão "sinal de que as coisas não estão tão bem como acontecem em casos em que a economia está a crescer a velocidade maior", adianta Maria Celeste Hagatong.

Sobre Angola a presidente da COSEC revela que "temos tido uma grande recuperação dos créditos" e além disso as empresas angolanas estão-se a portar bem com os pagamentos.

Portugal e a COSEC tem sido "bem tratados" pelo Estado e pelas empresas de Angola um país para onde existe uma linha de seguros ao crédito com garantia do Estado português que acomoda 1500 milhões de euros.

Maria Celeste Hagatong licenciou-se no então Instituto Superior de Ciências Económicas e começou a carreira no Ministério das Finanças. Depois passou para a banca e no BPI trabalhou 33 anos, chegou mesmo a administradora desta instituição bancária.

Considerada discreta e reconhecida pela competência técnica, foi uma das primeiras mulheres portuguesas a ocupar um lugar de topo no setor financeiro. Isto numa altura em que ainda não existiam as quotas. Agora é a presidente do Conselho de Administração da seguradora de créditos e cauções, a COSEC, um cargo que ocupa há dois anos.

O Banco de Portugal estima que a economia portuguesa cresça 1,7% em 2019. Estes são dados do final de março, do boletim da primavera, e em dezembro o PIB estimado pelo banco central era de 1,8%. Estamos a tirar o pé do acelerador. Está preocupada com esta tendência?
Sabemos que estamos a chegar a uma altura mais madura do ciclo, portanto como menos crescimento. Não estou preocupada, ainda, com estas pequenas reduções. Ainda achamos que o ano de 2019 é um ano que apesar de não ser tão positivo como o anterior ainda é um ano em que as preocupações não são de maior.

E do acompanhamento que fazem dos primeiros sinais de uma eventual crise, que é o crédito de curto prazo, a 90 dias. Como é que está nesta altura o incumprimento dos fornecedores?
Nós seguimos dois tipos de fornecedores: os do mercado interno e do mercado externo. Podemos dizer que até agora não há razões de preocupação ainda, mas há sinais de alerta mais elevados que haveria o ano passado.

Que sinais de alerta são esses?
Quando os seguros de crédito há um incumprimento, há primeiro um alerta antes de ser declarado um sinistro. Há aqui um período em que as coisas ainda se podem resolver. Estes pequenos sinais de alerta dão-nos sinal de que as coisas não estão tão bem como acontecem em casos em que a economia está a crescer a velocidade maior.

E pode contabilizar esses valores de alerta?
Temo-los contabilizados mas não são ainda significativos para estarmos preocupados.

As exportações, que tanto mexem com a atividade da COSEC, poderão também desacelerar, quer devido ao abrandamento do turismo, em parte pelo efeito do Brexit, que já se está a sentir no Algarve, quer devido ao abrandamento da economia alemã, pondo em causa, segundo alguns economistas, o programa de estabilidade para os próximos 5 anos. O que é que antevê para as exportações portuguesas, para o seu impacto na economia nacional e na própria atividade que a COSEC desenvolve?
Os principais parceiros das exportações portuguesas, até hoje, são os países europeus e os Estados Unidos. Para mantermos os níveis de exportação temos de diversificar mercados, ir para outros mercados.

Para onde?
Há um mercado que neste momento notamos que todos os países estão a olhar com grande atenção, que é o mercado africano, que é um mercado de população jovem, e em que muitos países têm uma situação mais estabilizada do que no passado e que são um mercado de extensão e de grande aproximação relativamente à Europa, que esteve de costas voltadas durante muito tempo mas que nós felizmente nunca deixámos esses países que hoje em dia terão perspetivas de poderem estar melhor no futuro.

Está otimista em relação a Angola e Moçambique?
Não se trata de ser ou não otimista, trata-se de saber se haverá ou não oportunidades para as empresas portuguesas. Eu julgo que nesses dois mercados temos com certeza oportunidades para desenvolver novos negócios, assim haja os apoios necessários, porque os outros países trazem-nos de certeza. Quer os franceses, quer os alemães estão a fomentar imenso as linhas de crédito para exportação dos seus produtos para esses mercados, coisa que não existia nos últimos tempos. Há dias foi anunciada uma linha espanhola com a mesma base, para projeto agrícolas em Angola. Portanto, temos aqui uma atenção especial a estes países, incluindo o Reino Unido.

Não seria essencial, no caso de Angola, abrir as linhas à exportação que está fechada nesta altura?
Não temos as linhas fechadas. Temos duas linhas: uma a de curto prazo que dá para todos os países fora da OCDE, e onde está Angola, e para onde continuamos a exportar. São 200 milhões por anos e é uma linha que desde há 10 anos se vai renovando. E, temos a linha que foi reforçada o ano passado para grandes projetos de investimento, de 1,5 mil milhões de euros e que está em utilização.

Essa seria a linha que estava esgotada e que terá sido esgotada?
Não está propriamente esgotada. Havia alguns compromissos de afetação da linha e que não está ainda totalmente esgotada. Há todo um processo de seleção dos projetos, de inclusão dos projetos, de aprovação dessas operações até ter o financiamento aprovado. Neste momento, é essa linha.

Ou seja, em termos concretos os empresários portugueses podem pedir apoios à exportação para irem para Angola?
Podem pedir, sobretudo para exportações portuguesas de cá para Angola, de curto prazo. Suponha que quer exportar produtos alimentares, materiais para a construção, tudo isso existe uma linha, o problema é se a contraparte que está em Angola, que é o risco assumido pelo governo português, é ou não saudável. Como deve calcular, quando há grandes desvalorizações cambiais há muitas empresas que caem no caminho porque os produtos ficam extremamente caros e impossíveis de poderem ser comprados da mesma maneira. Angola neste momento tem esse problema, que é alguma revisão dos seus níveis de consumo, coisa que não acontecia no passado, e que foi fundamental nos anos de grande crise em Portugal, foi a grande expansão do mercado angolano. Neste momento nota-se que há mais contenção nas aquisições.

E face ao enorme atraso de pagamentos de Angola em relação a Portugal, acredita que estas linhas de crédito serão todas recuperadas?

Só lhe posso dizer é que temos tido uma grande recuperação dos créditos de Angola. Estavam alguns em atraso e o que interessa mais é que não temos tido sinistros, e essa é a melhor maneira de dizer que para o futuro não haverá problemas. Porquê? O que está a acontecer é que do lado angolano tem havido muito mais contenção nas compras ao exterior e isto limita um bocadinho a possibilidade de incumprimentos.

Mas Angola é o mercado mais problemático para a COSEC?
Para a COSEC não é porque só fazemos estas operações com garantia do Estado, porque é um país onde as seguradoras comerciais não estão presentes. O ano passado e há 2 anos com certeza que Angola era um mercado mais difícil, em virtude da dificuldade que tiveram em termos cambiais. Posso dizer que a COSEC foi muito bem tratada - se falarmos com as nossas congéneres, a COSEC comparativamente com outros países, o estado português foi muito bem tratado.

Bem tratado significa que têm conseguido recuperar os créditos?
Não tenho muitos créditos em atraso. Ou seja, o montante que existe em atraso não é muito acima daquele que é o atraso comercial. Não temos atrasos de correntes de transferências cambiais, essas foram todas postas em dia. É evidente que também temos a grande linha de 1,5 mil milhões de euros, que é um "revolving", não só a linha foi aumentada como entretanto vamos tendo reembolsos, o que dá origem a serem colocados novo projetos. E nessa linha, eu gosto muito de referir isso, nunca existiram nenhuns problemas com Angola, porque é uma linha financeira, não acontece nada. Angola nessa parte correu muito bem, na parte dos riscos comerciais houve um período mais difícil mas também tivemos uma atitude mais pró-ativa e isso conduziu a que pudéssemos ter melhores soluções, porque para os bancos também não é bom terem operações em "default".

Há pouco referiu que outros países da Europa estão de olhos postos naqueles que foram sempre os nossos mercados tradicionais. Esta competição que acontece por parte dos nossos parceiros europeus face a esses mercados africanos, tradicionalmente de influência portuguesa, devia justificar a abertura de uma nova linha ou a um reforço de capital nas linhas já existentes?
É conveniente analisar com cuidado o que é que se pode fazer para que as empresas possam continuar a ter o seu ponto. Não é preciso linhas porque as operações podem ser aprovadas de forma avulsa e portanto por linhas é por "plafonds". Aprovar os projetos de forma casuística é outra maneira de podermos ter [seguros]... e trabalhamos com vários mercados dessa forma. Ou seja, não é preciso ter uma linha para o mercado para podermos fazer operações, estamos a fazê-las em vários mercados casuisticamente. A base é só podemos fazer uma operação que tenha em vista cobrir riscos decorrentes de exportações portuguesas. Esses riscos podem ser de curto prazo ou podem ser associados com o financiamento, ou seja são dadas melhores condições de pagamento e isso acontece em muitos casos em que temos de dar pagamentos 4 ou 5 anos para estarmos nas condições de outros países europeus.

Fala-se muito no PALOP, fala-se sobretudo em Angola. E os outros países. Moçambique, por exemplo, como é que está o acesso às linhas?
Em Moçambique voltamos a ter a tal linha dos 200 milhões para coisas de curto-prazo e temos tido maior procura ao redor dos projetos do gás e do petróleo. Angola ainda de pequenas infraestruturas mas estamos a começar a ter alguns pedidos. São analisadas dessa forma e casuisticamente. Os produtos alimentares são uma coisa que acontece em todo o espaço lusófono e o que mais me choca (com surpresa) é Timor, onde temos uma central de compras que compra produtos portugueses: bacalhau, enchidos, vinhos... do outro lado do mundo e num país que tem relações com Portugal mas que estão muito longe mas mantêm essa relação forte com Portugal. Livros, por exemplo, é uma coisa importante e que há uma economia à volta das publicações e que também merece seguro de crédito. Mas tudo depende da contraparte.

Se a contraparte não der informação, se não estiver "bancarizada", é impossível dar seguro de crédito, seja público ou privado. Mas nestes países há boas empresas.

Vamos falar nos BRIC (Brasil, Russia, India e China), todos eles têm revelado potencial diferente, dependendo dos setores e dos momentos conjunturais. Qual o potencial que vê nestes BRIC, nomeadamente depois da visita oficial do PR à China. Como é que analisa esta visita e de que forma é que poderá abrir portas e ter impacto na atividade da Cosec?
Foi muito importante a visita e a forma como foram posicionados os interesses portugueses. Ou seja, foram posicionados no aumento de exportações de Portugal para a China - no início do século exportávamos 50 milhões de euros para a China e o pico que tivemos foram 800 e tal milhões. O ano passado foram 500 e tal milhões, portanto temos aqui um progresso.

Ainda sabe a pouco, dizem alguns empresários...
Claro! Eu estou a falar à vontade porque as minhas origens são de Macau. Nunca vivi lá mas o meu coração está muito próximo daquela região. A China é um país muito grande, muito diferente e estamos longe culturalmente, mas temos uma coisa fantástica que é a relação histórica com aquele país e isso no Oriente é um valor intangível que nós nem nos damos conta do seu valor. O caso da China: foram focadas as exportações, foram focados os investimentos chineses em Portugal e foi focada a possibilidade de ligações para abordar outros mercados, que é importantíssimo, porque a China tem posição em vários mercados onde também estamos e a China traz muitas vezes o financiamento.

Nomeadamente África e América Latina?
Sim. Hoje já começamos a ver algumas construtoras portuguesas com ligações com empresas chinesas em fazer alguns trabalhos de construção civil ou outros de obras públicas. As três dimensões foram muito bem abordadas na visita presidencial e talvez tenha sido a primeira vez que estas três vertentes foram tão bem abordadas numa visita de estado à China.

O Brasil também tem essa vertente sentimental. As relações com o Brasil vão em que sentido?
Apesar de a China estar do outro lado do mundo, os nossos interesses são mais convergentes nestas três áreas. Para a China a Europa interessa imenso, por outro lado em África temos interesses comuns e aquilo que conseguirmos exportar para a China também não vai perturbar, vamos substituir outros. Conseguimos coisas fantásticas: conseguir levar cerveja de Leça do Balio para a China é uma operação fantástica, que representa 4% das exportações portuguesas para a China. Vamos conseguir, com certeza, fazer mais coisas. São mercados muito difíceis que exigem muita competência por parte das empresas e muitas vezes o que acontece é que é difícil atrair essas competências quando as empresas são de menor dimensão. São civilizações diferentes, é preciso ganhar confiança entre as empresas portanto para as pequenas e médias empresas é mais difícil.

E como é que é possível ganhar essa escala?
Associando na exportação. Por exemplo falou do Brasil... como é que a Pera Rocha chega ao Brasil? Porque temos cooperativas enormes e muito bem estruturadas e modernas no setor das frutas que conseguiram organizar-se e abordar mercados que de outra forma era impossível abordar. A associação de empresas de pequena dimensão na exportação, quer cá, quer mesmo constituídas lá só com produtos portugueses é fundamental. Não acredito que num conjunto de vinhos franceses, alemães e uns portugueses se consiga vender muito. Mas se tiver um representante de vinhos portugueses só, tenho a certeza de que vai fazer muito mais negócio.

O acionista da COSEC, Euler Hermes, é associado na China à China Pacific Property Insurence Company. Este acionista pode ajudar a COSEC a crescer junto deste mercado?
Toda a rede de informações da Euler Hermes é partilhada com a COSEC e a COSEC também partilha toda a informação sobre o mercado português. Desde que haja informação, ela chega à COSEC e chegando a COSEC e tendo essa abordagem sobre esses mercados - tem isso na China e depois outra associação em Hong Kong -, as empresas portuguesas beneficiam. O de que as empresas portuguesas mais beneficiam na exportação é desta parceria. A Euler Hermes, neste momento, segue 40 milhões de empresas em todo o mundo.

Para além da questão do outro lado do Atlântico ou do outro lado do Pacífico, Portugal vive num mercado europeu onde há países com vários riscos, nomeadamente em Itália. Sendo um dos 5 mercados mais relevantes para as exportações portuguesas, como é que está a exposição ao risco em Itália?
Acertou lindamente. O mercado onde há mais risco na Europa é o italiano. Temos de estar muito atentos ao risco e pôr sinal vermelho quando eles aparecem. Esta relação comercial é feita em tempo real portanto se alguma coisa acontece em qualquer segurado em todo o mundo, o sinal vermelho é dado em todo o mundo. Isso é muito importante porque nós, estando nesta cantinho da Europa, vamos tendo imediatamente informação. Se houver "default" de qualquer empresa italiana é imediatamente espalhado para todas as empresas. O mercado italiano nesse ponto preocupa-nos bastante mas temos os nossos mecanismos para gerir o risco de forma cuidada. Mas também é bom dizer que se as empresas portuguesas não tiverem bons parceiros também é perigoso para elas. O que fazemos é explicar às empresas a evolução do risco dos seus clientes e até temos soluções online para estarem permanentemente atentas à modificação do comportamento de risco dos clientes. Chama-se garantia dinâmica, que pode aumentar ou baixar automaticamente para que os clientes possam saber a qualquer momento quais são os "plafons" com que podem trabalhar - e o cliente pode trabalhar com "plafonds" maiores mas isso é risco dele.

E houve um recuo nessa percentagem no último ano?
Não, não houve nenhum recuo. Em termos globais não houve mas pode haver num setor de atividade ou noutro, num país ou noutro. Há um setor que nos EUA está a ter bastantes reformulações, que é o da distribuição. Com bastantes transformações e com riscos muito grandes, isso é tudo captado nestes sistemas de informação globais.

Que impacto na atividade da COSEC poderá ter o Brexit? Os prémios vão aumentar?
É natural que quando o rico aumente os prémios também aumentem. É normal que os Brexit tenha impactos diretos e indiretos, porque tudo o que venha a sofrer os nossos parceiro, nós também vamos ter. O que vai acontecer ao Brexit ninguém sabe, depende dos dias. Até agora é um ponto de interrogação.

Na sua opinião deveria ir para a frente ou voltar para trás?
Voltar para trás. Como europeia que sou vamos todos os dias chegando à conclusão que as vantagens de ir para a frente não são assim muito grandes.

Mas há a questão da recuperação dos créditos, sobretudo na banca. No vosso caso têm tido essa atividade de recuperação de créditos?
Temos a atividade de recuperação de créditos mas os nossos créditos são muito pequeninos comparados com os da banca, não são considerados de forma nenhuma, e são muito atomizados. Não há comparação.

Mesmo assim, há alguma taxa de sinistralidade no setor?
Há taxas de sinistralidade mas não são medidas de outra maneira que não são na banca. No caso da COSEC a taxa de sinistralidade que temos é abaixo da taxa que o grupo Euler Hermes, que é muito saudável, com "AA", ao nível mundial. O risco da COSEC é um risco muito seguro, temos um rácio de solvência de 285%, que é uma brutalidade de capital para a nossa atividade. Realmente reduzimos exposição durante a crise, fechámos 2018 com o máximo de exposição que sempre tivemos, 13 mil milhões de euros, não foi por causa dos 50 anos mas até calhou bem, e os rácios de sinistralidade foram bastantes baixos em 2018 e não estão a mudar o paradigma. Mas isto só acontece se tivermos muito cuidado na forma como estamos permanentemente a avaliar o risco.

Fez grande parte da sua carreira na banca, no BPI. Como é que tem acompanhado a situação do Novo banco e os protestos de alguns bancos e banqueiros em relação às contribuições para o fundo de resolução?
Isso já não é o meu negócio. Ainda há pouco me disseram que tinha sorte porque tinha bons empregos e eu disse que não, que tenho boas casas em que sempre trabalhei, como foi o BPI. não tenho comentários a fazer com o Novo Banco.

Como cidadã não está preocupada que venham a ser os contribuintes a pagar tudo o que está em causa?
A primeira responsabilidade que um banco tem é perante os seus depositantes, temos de saber o que é que vale segurar os depositantes, que é o que está em causa no Novo Banco. Pomos sempre a questão ao contrário, nunca olhamos que o que precisamos de salvaguardar são as poupanças dos particulares.

Quanto a isso está descansada?
Neste momento, estou. Já estive mais preocupada. Se me pergunta já estive muito preocupada, agora não.

A COSEC é a seguradora líder em Portugal nos ramos de seguro de crédito e caução. É participada pelo BPI e tem uma parceria com a CGD e em março assinou um protocolo com o BCP para fornecer seguros de crédito às empresas exportadoras. Já disse que está aberta a parcerias com outros bancos. Está a ser preparado algum acordo para estes novos mediadores?
Temos várias maneiras de distribuir seguro de crédito: uma é a angariação própria de seguros, que gerimos, depois através de "brokers", que é a maior parte, cerca de 56%, e depois temos o canal BPI que representa já 23%. E achamos que o mercado de seguro de crédito para crescer tem de crescer pelas PME [Pequena e Médias Empresas] e para chegar às PME nada melhor que os bancos. Por outro lado, se alguém tem um seguro de crédito mediado por um banco tem acesso ao crédito mais fácil porque o seu risco vai diminuir, seja o risco global do seu balanço, tem uma conta muito importante do ativo que é clientes, que é um ponto de interrogação para as direções de risco. Se virem que uma parte está segura, é melhor. Segundo ponto, se tiverem a possibilidade de pedir adiantamentos sobre faturas é melhor ter seguro de crédito do que não ter. A distribuição pelos bancos é um "win-win" para ambos os lados. Para as empresas é fundamental. A Euler Hermes tem estatísticas que as empresas que têm seguros de crédito, para já diversificam mais mercados, por outro lado crescem mais depressa porque podem ter fundos de maneio mais elevados.

A COSEC assinala este ano com várias iniciativas os 50 anos de atividade. Quais vão ser os objetivos, as metas para os próximos anos?
A meta principal é continuarmos a servir as empresas portuguesas como temos vindo a servir nestes últimos 50 anos. A COSEC foi uma verdadeira Startup, iniciou uma atividade em Portugal que não existia, havia apenas uma comissão para estudar o seguro de crédito no início dos anos 60, depois de termos entrado na EFTA, que foi uma altura em que intensificamos o comércio externo, e começámos a ter o primeiro acordo comercial como a Comunidade Europeia. Quem presidiu essa comissão foi o professor Marcelo Caetano e é engraçado que ele tomou posse como Primeiro-ministro em 1968, em setembro, e o diploma sai em abril de 69. Se o trabalho não tivesse preparado, não tinha saído de certeza. É muito interessante ver as primeiras atas do conselho, onde se notava que não havia pessoal, e começámos assim. O objetivo primordial foi começar a trabalhar para apoiar as empresas portuguesas na exportação. Hoje em dia apoiamos apoiamos na exportação mas também seguros sobre o mercado interno e todo os acordos que fizemos com os bancos é tanto mercado interno como seguros sobre exportação. Estamos abertos a fazer mais, não há problema. Quanto mais tiverem em competição, mais conseguimos crescer. O contrato com o BPI deu-nos a experiência de que é importantíssimo trabalhar com os bancos porque renovámos 30% da nossa carteira de clientes com esse trabalho.

A COSEC foi uma startup há 50 anos. Hoje as startups têm uma vocação digital. Como é que a Cosec está a entrar nesta era digital, a adaptar-se à geração 4.0?
Em 2017 o presidente da comissão executiva lançou um plano dentro da companhia para digitalizar todos os procedimentos internos da companhia. Isso levou a uma modificação interna muito grande, externamente para os nossos clientes, para além da COSEC Net, o ano passado lançamos uma app com as mesmas funcionalidades, que no caso de exportadores é extremamente importante porque é ter a companhia dentro do bolso. À frente de um cliente pode saber imediatamente se tem "plafond" para fechar um negócio. O segundo ponto são produtos mais digitais, essa ferramenta das garantias de dinâmica que permite uma interação entre a companhia e o cliente em que o cliente está passivo e a companhia traz-lhe informação adicional e como calcula isso exige muito trabalho digital por trás para que isso esteja disponível. Este ano lançámos também plataformas para estarmos a trabalhar com os distribuidores em tempo real, para saberem como estão o estado das apólices dos seus clientes. Na parte do seguro de crédito público, conseguimos este ano ter uma plataforma digital exatamente igual à que praticamente existe na COSEC net - como imagina trabalhar com o setor público e termos isto é difícil mas felizmente tivemos muitos apoios neste projeto, e fizemos também um site para o setor público, para os seguros com garantia do estado.

Acabámos de lançar um produto completamente digital, a COSEC Express, para as empresas mais pequenas, entre os 80 mil e os 5 milhões de faturação, que é um produto muito fácil e com menos interações com a companhia. É evidente que temos investido bastante e temos uma coisa fantástica que é a ligação à Euler Hermes, que sendo a maior seguradora mundial segura mais de 30% do comércio mundial e por isso está muito atenta à inovação. As primeiras experiências da inteligência artificial já foram tidas, foi na Irlanda e correu muito bem, e estamos a estudar a possibilidade de expandir ao grupo e nós vamos beneficiar dessas inovações para estarmos ligados. Estamos ligados a eles na área de informações de crédito, na área de risco e na área de recuperação, porque fornecemos os serviços em Portugal de recuperação de créditos, qualquer associada da Euler Hermes tenha em Portugal e o contrário também é verdadeiro.


Disse em várias entrevistas nunca se sentiu discriminada enquanto mulher profissional no mundo das organizações. Gostava que analisasse a questão das quotas e de que forma é que considera que esta política pode ajudar ou prejudicar o papel da mulher na sociedade e no trabalho?
Teoricamente não sou a favor das quotas. Não gosto do tema e não o defenderia nunca mas a verdade é que sem quotas não estávamos a ver as mulheres a chegar ao primeiro nível, embora eu ache que o segundo nível tem mais poder que o primeiro. Do ponto de vista de imagem, é evidente que o primeiro nível é muito importante. O BPI tinha poucas mulheres no conselho mas tinha muitas mulheres a dirigir muitas áreas dentro do banco. Na COSEC posso dizer que acontece a mesma coisa e nos seguros há mais mulheres que no setor financeiro e na empresa temos um bom rácio. Somos mais mulheres que homens e temos quase uma paridade em termos de postos de chefia intermédios. No conselho de administração há duas mulheres, uma executiva em 3. Agora considero que não é isto que vai fazer a igualdade dentro das organizações, porque a igualdade não é só a representatividade, é poder que as mulheres têm de ganhar dentro dessas mesmas organizações.

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