Reforço de garantias a Berardo? "Era extraordinariamente difícil fazer melhor"

Faria de Oliveira diz a negociação com Joe Berardo foi "uma dor de cabeça enorme". A solução encontrada foi "o mal menor".

Faria de Oliveira admite que a Caixa Geral de Depósitos (CGD) demorou a executar as garantias a José Berardo quando o empresário deixou de pagar o empréstimo, mas defende que estava em causa um grande risco para toda a banca portuguesa. Encontrar a melhor solução era essencial.

"É manifestamente evidente que o reforço das garantias era uma opção melhor para a Caixa", defendeu o antigo administrador do banco público ouvido pela segunda vez na comissão de inquérito à CGD.

Havia três hipóteses, explica: vender as ações em bolsa, vende-las em bloco a investidores internacionais ou pedir um reforço de garantias.

A primeira opção não era viável, porque face à cotação do BCP "sob pressão" à altura a venda massiva de ações por parte da Caixa "ia "derreter" as ações do BCP e "causar um problema sistémico de grande envergadura". Seria uma "derrocada total" vender as ações do BCP no "pior período de sempre em termos de gestão bancária", argumentou Faria de Oliveira.

A segunda opção traria benefícios "inferiores" à tentativa de encontrar outro tipo de garantias que não fossem as ações do BCP.

A "única solução responsável" era pedir reforço de garantias dos créditos concedidos a Joe Berardo, em vez de as executar, defende. E assim se decidiu tentar usar como garantia as obras de arte da Fundação Coleção Berardo. Foi a única proposta da CGD que o empresário madeirense aceitou.

Isto depois de em entrevista à TSF e ao DN, Vítor Constâncio ter dito que "em qualquer momento a Caixa podia travar o empréstimo [a Berardo], apropriar-se das ações que estavam em penhor e vendê-las".

Em contrapartida, Faria de Oliveira considera que o então governador do Banco de Portugal podia "ter ido mais longe do que alertar" os bancos para o excesso de exposição da CGD ao crédito com garantias em ações no BCP. Vítor Constâncio "podia e devia ter feito mais", diz. É uma questão de "bom senso".

"Se houvesse indicações muito claras de que isso estava acontecer e que o mercado podia vir a sofrer oscilações, pelo menos alertar podia ter acontecido. Podia ir mais longe do que alertar, em caso de eminência de uma situação se tornar realidade podia ter ido mais longe do que uma recomendação."

Faria de Oliveira considera que as negociações com Joe Berardo eram uma "preocupação permanente" da administração da Caixa. "Em consciência, considero que era extraordinariamente difícil fazer mais e melhor", defende.

"Isto foi uma dor de cabeça enorme (...) não foi por não querer executar o senhor Berardo que não o executamos", mas sim para não afetar o BCP, e a própria Caixa, que detinha 2,3% do próprio BCP.

O ex-administrador garante que a Caixa tinha como prioridade a estabilidade do setor bancário. "Foi um mal menor a nossa decisão", reforça.

Segundo a auditoria da EY à Caixa Geral de Depósitos, a exposição do banco público à Fundação José Berardo era de 268 milhões de euros, depois de uma concessão de crédito de 350 milhões de euros para compra de ações no BCP, dando como garantia as próprias ações, que desvalorizaram consideravelmente e geraram grandes perdas para o banco público.

Faria de Oliveira é ouvido esta segunda-feira pela segunda vez na II Comissão Parlamentar de Inquérito à Recapitalização da CGD e à Gestão do Banco. No dia 3 de abril assegurou que o Banco de Portugal tinha conhecimento de todas as irregularidades detetadas pela auditoria da EY à Caixa Geral de Depósitos.

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