"Sibs e Unicre são bloqueadores da inovação", acusa presidente da Easypay

O presidente da Easypay, Sebastião Lancastre, critica as mais antigas empresas de tecnologia financeira em Portugal de serem "nefastas" para a inovação.

Sebastião Lancastre, entrevistado esta semana, do programa Vida do Dinheiro, da TSF e do Dinheiro Vivo, acusa os bancos portugueses de não estarem a aproveitar a capacidade de inovação desenvolvida pelas fintech (tecnológicas financeiras) porque "existem aqui duas empresas para que isso aconteça. Uma delas foi onde eu trabalhei, a Unicre, e a outra chama-se Sibs. São empresas que funcionam como bloqueadores da Inovação."

Sebastião Lancastre adianta que "todos nós conhecemos a grande vantagem que o Multibanco trouxe, mas hoje é claramente um bloqueador. E, eu vou-lhe dar aqui um exemplo: se eu tiver uma conta num banco estrangeiro eu cidadão português não consigo pagar impostos" através do Multibanco porque o banco estrangeiro não faz parte da rede Multibanco onde só estão bancos nacionais.

Por outro lado, "nós estamos reféns dos preços da Sibs" que cobram preços "elevados" pela emissão de referências Multibanco.

Por isso o presidente da Easypay pede: "O governo tem que estar atento a isto e tem que obrigar os organismos a libertarem-se deste sistema Multibanco que neste momento é nefasto para o desenvolvimento das transações eletrónicas em Portugal".

Comissões MBway

Sebastião Lancastre mostra-se também contra o "exagero" das comissões bancárias nas transferências MBway.

"Todos os bancos alinham em mais de um euro de comissão para se fazer uma transferência via MBway o que na essência não faz nenhum sentido porque aquilo é basicamente mudar a posição de um byte para outro e isso não pode custar 1,20 euros", denuncia.

Mas para o presidente da Easypay o supervisor, o Banco de Portugal (BdP) também deveria ter uma palavra a dizer mas o organismo liderado por Carlos Costa refugiou-se em legalismos.

"É um exagero o preço que se cobra para fazer uma transferência por MBway. Nós precisamos que o Banco de Portugal seja mais rápido a agir. Porque isto parece às vezes que os bancos lançam estas coisas para medir qual é a opinião do público e se a opinião não é muito má aquilo passa. O Banco de Portugal aqui tem que ser mais interventivo e há coisas que não pode mesmo aceitar que os bancos façam. O Banco de Portugal diz que isso é com os bancos e não intervém no preçário mas eu acho que deve mesmo intervir porque é um exagero. Eu não discuto aqui a legalidade das comissões mas há margem de manobra para o Banco de Portugal dizer que os bancos têm que rever esta posição", propõem Sebastião Lancastre.

IPO

A Easypay tem tido um crescimento constante desde que nasceu em 2007 e para este ano (2019) o seu presidente afirma que a empresa "vai crescer 100%" e admite recorrer ao mercado de capitais através de uma Oferta Pública Inicial (IPO).

"Uma IPO está sempre em cima da mesa. É uma opção que nunca pomos de lado embora não seja no ano 2019 mas no ano 2020 não sei se não será. Também é pouco provável que seja na nossa bolsa porque ela está um pouco morta", concluiu Sebastião Lancastre.

A entrevista

Engenheiro de sistemas, Sebastião Lancastre começou na Xerox a vender fotocopiadoras a laser, porta a porta. Passou pela comunicação social, tendo ajudado a lançar o Diário Económico, e trabalhou na Unicre ao lado do pai - de onde saiu em 2000, para lançar a Easypay. Hoje processa mais de 400 mil pagamentos por mês, tendo excedido os 6500 clientes e fechado 2018 com um volume de pagamentos de 177 milhões - que significou receitas de 3 milhões de euros para a empresa.

Em 2018, a Easypay cresceu 42%. Estamos a meio de 2019, quais são as suas expectativas?

São extraordinárias. Vamos crescer 100% em 2019.

Em que frentes?

Nos pagamentos. O que a Easypay faz é ajudar empresas e organizações a usar os instrumentos de pagamento eletrónicos. À primeira vista, pensamos que isso seria facílimo - bastava ir ao banco e perguntar como faço para ter referências multibanco (MB) - mas a verdade é que isso ainda é uma tarefa algo herculeana. Empresas como a nossa têm sucesso porque facilita brutalmente a instalação de pagamentos eletrónicos nas empresas.

Esperam crescer nomeadamente com novos contratos?

Sim, nomeadamente o que acabámos de assinar com a Segurança Social (SS). Ganhámos esse concurso público e foi difícil implementar a solução - tentámos até pôr alguma areia na engrenagem para saber o que poderia correr mal para o nosso lado... Mas a experiência que já temos no setor também nos dá algum conforto ao abraçar projetos desta envergadura. E levámos o barco a bom porto: desde o início de junho que processamos os pagamentos da SS.

Há mais clientes em perspetiva?

Há. Já no meio de junho lançámos a Prio Go, primeira aplicação que permite aos utilizadores pagar sem sair do carro - ainda têm de sair para abastecer......Num conjunto de quatro empresas (Prio, Bliss Aplications, Gasodata e nós), conseguimos desenvolver a app que nos permite chegar ao posto, escolher a agulheta para abastecer e fazê-lo. E tem ainda uma funcionalidade determinante: poder, em cada abastecimento, escolher o número de contribuinte para associar à fatura. Posso abastecer para a empresa durante a semana e ao sábado usar o meu carro e com a mesma app associar o pagamento ao meu NIF.

A Easypay está no mercado financeiro desde 2007 e especialmente focada em métodos de pagamento para empresas. Mas não quer ser um banco. Qual é o seu modelo de negócio?

É uma pergunta engraçada... No fundo, estamos a roubar o negócio aos bancos mas não queremos ser bancos. E é aqui que acredito que está o futuro de empresas como a minha, o que as fintechs vêm trazer ao mercado. É muito provável que venham a aparecer mais e cada vez mais especializadas em determinados setores ou em resolver um problema diferente - a minha resolve o dos pagamentos, outras os dos créditos, etc. Portanto, não há grande vantagem para nós em sermos um banco, que é uma entidade mais generalista, cujo gestor de conta tem de saber um pouco de tudo... fundos, depósitos, cheques, e acaba por não prestar um serviço tão atencioso aos detalhes. E hoje nós queremos atenção aos detalhes, porque é aí que está a diferença de qualidade nos serviços.

Os bancos são entidades demasiado pesadas e por isso não conseguem renovar-se?

Digamos que têm uma inércia brutal - inércia é a energia que temos de aplicar a um objeto para que comece a mexer-se. E nós sentimos nas conversas com os bancos que é muito difícil eles vencerem essa energia. O que acho é que as fintechs serão cada vez mais colaborativas com o bancos.

Não serão então uma sentença de morte?

Não. Mas os bancos terão um futuro muito difícil, muito mais do que as fintechs, porque são menos ágeis, menos rápidos a responder.... Ainda hoje, nos bancos há aquele jogo do telefone estragado: a mensagem vai-se transmitindo pelas hierarquias mas quando chega lá acima já não é bem o que o cliente disse. As fintech têm esta vantagem acrescida, têm uma hierarquia muito plana, de dois ou três níveis apenas. Ainda outro dia o administrador do Banco de Portugal (BdP) Hélder Rosalino falava nisso, dizia que a grande diferença entre as fintechs e os bancos é o governance, a gestão, que nos bancos ainda é muito pesada - e isso é desafio enorme. Portanto, o panorama para as fintechs é mais risonho do que para os bancos, embora vejamos pelos resultados que têm que os bancos continuam a ganhar muito dinheiro.

E têm conseguido captar o conceito de fintechs?

Custa-me dizê-lo, mas acho que não e há duas empresas que contribuem negativamente para isso: uma onde trabalhei, a Unicre, e a SIBS. Ambas funcionam hoje como bloqueadoras da inovação. Todos reconhecemos a grande vantagem que o MB trouxe há uns anos mas hoje é claramente um bloqueador. Por exemplo, se eu tiver uma conta num banco estrangeiro não consigo pagar impostos em Portugal, é uma impossibilidade se o banco não fizer parte da rede MB, da rede de bancos nacionais. O que é extraordinário no fim da segunda década do século XXI!

E a diretiva europeia de pagamentos (PSD2) não alterou isso.

Exato. É mais um sinal de que as coisas têm de mudar, não podemos pensar que é a SIBS que vai resolver a situação. Falando da diretiva e olhando as API (Application Programming Interfaces, que permitem, mediante autorização, aceder aos dados de contas ou iniciar pagamentos), o que vemos é que em Portugal os bancos mais uma vez resolveram isso chamando a SIBS. E a SIBS, chama-lhe uma open API, mas na verdade fez-se uma closed API, porque mais uma vez só lá ficaram os bancos portugueses. Nem uma só fintech participa. A pergunta mantém-se: como é que faço um pagamento à Segurança Social, a uma autarquia, ao Estado se não tiver conta portuguesa?

Quando a SIBS lançou essa plataforma, o Sebastião criticou-a por isso mesmo. Quatro meses depois, teve alguma resposta?

Nenhuma. Exceto terem-me convidado a participar num fórum em que fiz um comentário semelhante ao que aqui disse. Porque continuam a ser chamados exclusivamente os bancos, mas empresas como a minha, instituições de pagamento, também deviam participar nesse projeto. Perdemos uma oportunidade extraordinária de abrir o mercado - e nós teríamos todo o gosto em ter participado nisso. O que vai acontecer é que Portugal vai ficar fechado.

Mas tratando-se de uma diretiva europeia, não acontece noutros países o mesmo que aqui?

Não. E dou-lhe o exemplo de Inglaterra, o primeiro país a abrir-se e a implementar essas regras até um ano antes de a diretiva ser transposta, e de Espanha, onde se fez um caminho diferente. Madrid convidou todas as fintechs e todos os bancos para desenhar o que seria a implementação da diretiva. E isso só traz vantagens. Porque há aqui uma segunda questão: o preço. Nós estamos completamente reféns dos preços da SIBS. Nesta célebre disputa do MBWay, todos os bancos alinham em cobrar 1 euro e tal por transferência, exceto a Caixa de Crédito Agrícola, que diz que o preço disso são 0,26 euros - veja lá o que os outros não estão a ganhar por transferência... E não faz sentido nenhum, porque na verdade, em termos informáticos, estamos a falar do custo de mudar a posição de um para outro bite.

É uma forma que os bancos encontraram de compensar outras fontes de receita?

Completamente e com a bênção do Banco de Portugal.

Essa diferença entre nós e Espanha põe em risco o sistema financeiro português?

Isso não acredito, porque também há uma certa inércia das pessoas em mudar os seus comportamentos. Basta ver que tivemos uma crise violentíssima e poucas pessoas realmente mudaram - agora parece que voltou tudo ao normal e a nossa dívida cresce significativamente mas nada se passa.... O que vai acontecer é que empresas mais atentas vão mudar. Disso não tenho dúvidas. Porque mesmo o preço das referências MB é claramente um exagero aqui, face ao que se pratica noutros países. Um serviço que aqui custa 0,64 euros, na Letónia são 0,02 euros! Claramente, o governo tem de estar atento a isto e de obrigar os organismos a libertar-se deste sistema MB, que eu acho que é hoje nefasto para o desenvolvimento das transações eletrónicas em Portugal.

O Multibanco é um entrave e dificulta acesso ao código que detém sobre essas transações, sobre essa plataforma eletrónica?

É exatamente isso. E como se altera? A Easypay está a preparar caminho e esperamos lançar um novo sistema até ao fim do ano que será colaborativo. Vamos convidar os bancos e outras fintechs a redesenhar tudo, para que as transações possam acontecer em tempo real, ser multimoeda, custar cêntimos e tragam a identificação de ordenante e beneficiário. É obrigatório identificar quem paga e quem recebe em todas as transações, mas em talvez 90% das que são feitas por MB isso não acontece, o que significa que não estamos a cumprir a lei do branqueamento de capitais. No nosso sistema queremos ir até mais longe, porque levamos muito a sério o combate ao branqueamento e ao financiamento do terrorismo: além dessa identificação, queremos identificar ambos os números fiscais, para cumprir a 100% a lei.

Já conseguiu falar com o governador do BdP sobre essas alterações?

O Bdp teve uma alteração de posição connosco nos últimos tempos e já lá fui chamado - o que é positivo, hoje a Easypay é ouvida com maior frequência e sinto que o pensamento do BdP se está a transformar... o governador já fala nas vantagens das fintechs... mas falta passar à prática. Ainda esta semana a Deco veio dizer que os custos do MBWay são inaceitáveis - e eu concordo, são um exagero. Ora é preciso que o BdP seja mais rápido a agir. Mesmo em relação à CGD, quando o banco estatal veio dizer que não pagava juros abaixo de 1 euro - o que era uma afronta a todos nós - o BdP demorou demasiado tempo a reagir. Às vezes parece que os bancos avançam estas coisas para medir a reação das pessoas e se não for muito má, passa. O BdP tem de ser mais interventivo e há coisas que não pode mesmo aceitar. A CGD já voltou atrás, mas no caso do MBWay tem lavado as mãos, dizendo que os bancos é que definem o preçário.

E há margem para o governador Carlos Costa intervir?

Claro que sim! Tem uma clara oportunidade para dizer, nos fóruns próprios, que os bancos têm de rever a sua posição.

A criptomoeda é outra área a que se tem dedicado. O BdP tem pedido cautela e no resto da Europa a questão também não é pacífica... Há de facto riscos de segurança, de ser um meio facilitador da corrupção?

Sim e não. Eu continuo a ser um entusiasta e foi com grande entusiasmo que recebi a notícia do lançamento da libra do Facebook, que vai ser lançada no próximo ano. Porque ainda há dificuldades em executar certas operações: se eu quiser enviar 100 ienes em dez segundos para um cliente no Japão, não consigo. Exceto se usar criptomoeda. Os Estados e os bancos centrais fazem avisos, mas não criam um sistema que nos permita fazê-lo, portanto vão aparecendo sistemas alternativos para resolver essas falhas. Agora, quanto à segurança, todos os sistemas são alvos de burlas, de fraudes...- e este em particular até pode resolver muitos problemas do sistema atual.

De que forma?

As criptomoedas são baseadas na tecnologia blockchain - que significa distributed ledger, ou base de dados distribuída - e que verdadeiramente regista todas as transações e revela a origem e o destino de todas elas. Logo, se os bancos centrais e os governos exigirem que, quando as pessoas fazem a transferência, se identifiquem, não sejam anónimas, está encontrada a solução para muitos dos problemas que ainda temos.

Essa é uma área em que a Easypay quer entrar?

Temos estado muito atentos..., mas isso exige investimentos significativos e nós, até à data, não pedimos dinheiro emprestado. A Easypay foi criada com os 125 mil euros que eu investi no início e até agora não devemos nada a ninguém. Esses projetos exigem alguns milhões, por isso não sei se será uma área onde iremos investir.

Esses milhões só estão disponíveis para gigantes como a Facebook Lira ou a Apple pay... Como vê a entrada desses gigantes tecnológicos no mercado financeiro?

Com algum receio... mas não tenho medo, porque os portugueses - e as empresas pequenas - têm uma agilidade e uma sagacidade que os gigantes não têm. O que eles têm são clientes e muito dinheiro. O Facebook é o maior país do mundo, o que tem mais cidadãos. Imagine o que podem fazer: lançar uma moeda, uma língua, podem substituir-se a muitas das coisas que só os países fazem - criar uma escola, uma rede de saúde... a última área onde a Amazon entrou foi nos cuidados de saúde: não para resolver os nossos problemas mas para que não os tenhamos, portanto estarão na área preventiva. Isso só é possível com muito dinheiro.

E não há também aí um risco de segurança, de ciberataques?

Claro, essa é sempre uma questão a ter em atenção e os Estados têm de proteger os cidadãos e obrigar as empresas a cumprir determinados critérios. Se os meus dados caírem nas mãos de um pirata, isso pode pôr em risco minha segurança e a da minha família, mas estas empresas têm muito dinheiro para nos proteger. Por isso tenho alguma confiança nelas.

Para ser gigante é preciso ir captar investimento nos mercados. Uma entrada em bolsa é uma hipótese que considera?

É sempre um tema em cima da mesa, sim. Nós abrimos pela primeira vez o capital neste ano, a um investidor espanhol que não é um banco mas está relacionado com instituições financeiras e que nos abriu a porta ao país vizinho. Um IPO (Oferta Pública Inicial) é uma opção que nunca pomos de lado, mas não será certamente em 2019. E se acontecer em 2020, será pouco provavelmente na nossa bolsa, que está um pouco morta.

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