Maioria só vai acabar de pagar a casa após reforma. Custos da habitação duplicaram em 26 anos

Estudo da Fundação Gulbenkian mostra ainda que aumentou a percentagem de jovens até aos 34 anos a viver em casa dos pais.

Os custos da habitação das famílias portuguesas mais do que duplicaram nos últimos 26 anos. Ao mesmo tempo, a despesa pública com habitação diminuiu mais de 40% nos últimos 20 anos. Estas são algumas conclusões de uma investigação da Fundação Gulbenkian, apresentada esta quarta-feira, em Lisboa. O estudo "Habitação Própria em Portugal numa Perspetiva Intergeracional" traça um retrato do acesso à habitação em cada geração e analisa os desequilíbrios entre as várias gerações na compra de casa.

O estudo, que recorrer a dados dos censos, do Banco de Portugal, do Eurostat e da Pordata, conclui que mais de 50% das pessoas recorrem à banca para pagar a casa. Os dados mostram também que o pagamento dos empréstimos à habitação vão ter, cada vez mais, tendência para terminar já depois da idade da reforma. Mais de metade dos crédito a habitação em Portugal são detidos por pessoas que só poderão acabar de pagá-los depois de estarem reformadas.

Os números mostram que o peso da habitação na despesa anual média das famílias mais do que duplicou em 26 anos. Este aumento não foi acompanhado pela despesa pública com habitação, que diminuiu mais de 40% entre 1995 e 2017.

O estudo mostra ainda que as famílias com casa própria em que o representante tem menos de 30 anos diminuíram de forma acentuada. Em 2017, seriam apenas 24%, de acordo com as estimativas. O que não é de estranhar, constatando que a percentagem de jovens até aos 34 anos a viver em casa dos pais tem vindo a aumentar. Só uma baixa percentagem dos chamados "millennials" - ou seja, as pessoas que nasceram entre o início da década de 1980 e o final da década de 1990 - são donos de uma casa com hipoteca antes dos 30 anos. Ao mesmo tempo, as famílias mais jovens registaram uma quebra de riqueza líquida superior a 50% nos últimos anos.

"Precisamos de novo contrato social entre gerações"

Luís Lobo Xavier, responsável pelo projeto da Justiça Intergeracional, da Fundação Gulbenkian, explica que o objetivo é trazer o tema para a agenda pública de forma a influenciar os decisores políticos e alertá-los para as consequências da falta de habitação para cada geração.

Em declarações à TSF, Luís Lobo Xavier lembra que "todas as decisões que tomamos hoje têm impacto na vida das próximas gerações" e frisa a necessidade de criar "propostas e ferramentas que incentivem os decisores políticos a considerar critérios de justiça intergeracional na definição de políticas públicas".

"Precisamos de uma espécie de novo contrato social entre as várias gerações, promovendo uma distribuição justa dos custos e benefícios", defende.

Luís Lobo Xavier considera ainda que, além de servir de alerta aos decisores políticos, o estudo pode também servir ao setor bancário.

"Uma das preocupações dos bancos tem a ver com o facto de o sistema atual pelo qual o crédito é concedido não ter em conta esta especificidade dos mais jovens", constata.

"Quando uma pessoa jovem vai pedir um empréstimo, o salário que é tido em conta para calcular todos estes rácios é o salário da pessoa nesse momento. Ora, um jovem com 25 anos que peça um empréstimo terá salários muito mais altos que vão pagar o empréstimo"; exemplifica. "Portanto, temos regras que são importantes a nível da solidez financeira do sistema, mas que não estão a contemplar os mais jovens e que, de alguma forma, estão a restringir o acesso dos mais jovens à habitação - e isso também é um risco".

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