"Medidas do teletrabalho deixaram de fazer sentido"

Entrevistado no programa "Em Alta Voz", da TSF e DN, o presidente da Corticeira Amorim defende um calendário para o fim das moratórias para evitar uma crise na banca, vaticina que só a retoma do turismo evitará um aumento do desemprego e considera que faltam no Programa de Recuperação e Resiliência medidas que acelerem o crescimento económico. Já sobre a situação política, António Rios de Amorim acredita que o país não vai assistir a uma crise política em outubro e que a legislatura chegará até ao fim.

É presidente de uma das mais importantes empresas portuguesas, desde 2001. A Corticeira Amorim tem 150 anos, está presente em mais de uma centena de países e é líder mundial na transformação de produtos de cortiça.

Apesar da pandemia, a Corticeira Amorim nunca interrompeu a produção. Qual o segredo do plano de contingência?
O segredo foi assumir a responsabilidade de um ponto de vista global. Ou seja, a Corticeira Amorim tem atividades das quais depende uma cadeia de valor global, como é o caso da indústria vitivinícola e, portanto, não existe capacidade industrial suficiente fora da Corticeira Amorim para abastecer todo este mercado. Portanto, o primeiro compromisso foi estabelecido com os nossos clientes, a nossa primeira determinação foi continuar a servir os nossos clientes.

Foi preciso investir dinheiro?
Foi preciso, sobretudo, criar as condições internas para fazer que os nossos colaboradores deixassem, na altura, o conforto e a segurança dos seus lares para virem para o local de trabalho que os poderia eventualmente infetar e criar problemas de saúde. Há um ano a ansiedade era muito grande e tivemos de criar esse conforto e ter a certeza de que as nossas filiais - 50 filiais fora de Portugal - se mantinham também a trabalhar, a assegurar a cadeia de abastecimento a um mercado que é global.

Vivemos em sucessivos estados de emergência, que terminam hoje. Foi uma medida que penalizou muito as empresas?
Penalizou, com certeza. Em Portugal temos setores bastante penalizados. Na Corticeira Amorim temos três mercados, um deles é o do vinho que foi penalizado, já que o consumo deve ter reduzido mais de 10% (em quantidade) e em valor foi mais, porque o canal Horeca (hotéis, restaurantes e cafés) é o que consome vinhos de qualidade e de preço médio mais alto e foi o mais afetado durante esse período da pandemia. E, portanto, Portugal ressentiu-se. O estado de emergência seguramente que agravou mais as condições.

E poderia ter terminado mais cedo?
Acho que tomámos as medidas que tivemos de tomar. Tivemos cerca de dois meses trágicos (desde janeiro) e as consequências da gravidade da situação obrigaram a que fôssemos prudentes. Era importante também preparar o país para fazer uma época de primavera-verão capaz de poder, eventualmente, acolher turistas a nível interno e, sobretudo, a nível externo e, portanto, eu percebo que as autoridades tenham tido um bocadinho mais de prudência nesta fase. Mas, felizmente, os números estão a provar que as decisões não foram tão erradas assim.

Como medida de combate à pandemia o governo decidiu prolongar o teletrabalho até ao final do ano. Concorda ou entende que é chegada a hora de acabar com esta obrigatoriedade?
As medidas do teletrabalho deixaram de fazer sentido. Quer dizer, quando as pessoas, hoje em dia, têm a possibilidade de ir ao centro comercial e de ir à esplanada, ou de ir ao restaurante durante a semana, eu penso que essas medidas não estão adequadas, deveriam ser revistas. É importante percebermos que as empresas tiveram muito tempo para se adaptar e para criar as condições internas para poder acolher os seus colaboradores e acho que faz falta ter a equipa toda reunida, faz falta que as pessoas interajam umas com as outras, faz falta a informalidade que existe durante o horário de trabalho, os laços que se criam, os assuntos que se discutem no corredor. Portanto acho que alguma flexibilidade de trabalho, se calhar, vai continuar. O regime do teletrabalho, no meu ponto de vista, deveria ser revertido com o fim do estado de emergência. Até porque nem toda a gente quer estar, forçadamente, no regime de teletrabalho, porque isso também depende das condições que terão nas suas casas. Numa empresa de base industrial nós seríamos, claramente, favoráveis a que o teletrabalho terminasse com o fim do estado de emergência.

Estamos a poucos dias da última fase do plano de desconfinamento, na próxima segunda-feira. Subscreve o calendário do governo, tendo como comparação o que está a acontecer pela Europa?
Sim. Acho que o fim do estado de emergência tem de pressupor uma responsabilidade adicional para todos nós. Todos nós sabemos que se os comportamentos não forem os adequados vamos ter medidas sancionatórias de novo e não é nada disso que nenhum de nós quer. À medida que os riscos vão estando controlados não há mais nenhuma razão para ter economia confinada e não há mais nenhuma razão para revisitar estados de emergência. Seguramente vai crescer o número de infetados. O que é importante é que não cresça o número de óbitos. E isso vai-nos ser dado, seguramente, pelo aumento da vacinação e é aí que deve estar a prioridade do país. Num mercado como os Estados Unidos, hoje em dia, quem tem a vacina tomada pode ir visitar um cliente; não tem vacina tomada, não tem cliente que o receba. Portanto o grau de definição da abertura local tem a ver com o avanço que o plano de vacinação tem. Acho que é aí que devemos concentrar todo o nosso esforço. À medida que o plano de vacinação avance - e agora temos aqui dois meses cruciais em que vamos dar um salto significativo -, não há mais nenhuma razão para se voltar atrás em planos de emergência ou confinamentos excessivos.

O desconfinamento influencia o desempenho da empresa que lidera ou é cedo para o avaliar?
A Corticeira Amorim é uma empresa que não depende do mercado português. Portugal representa 4% a 5% do nosso volume de negócios. Nós dependemos muito mais do que se passa nos Estados Unidos, em França, Itália, Espanha, Alemanha, Rússia, Chile. Os Estados Unidos foram, claramente, um mercado que se comportou lindamente - mesmo durante 2020. Nós crescemos nos Estados Unidos em 2020, o que compensou perdas mais significativas que tivemos nalguns países europeus.

Agora todos os países estão a pôr a tónica no avanço da vacinação para não voltarem a ter de confinar, e isso significa abertura de mercados, retoma de consumo e retoma de alguns dos produtos que se dirigem aos nossos clientes. Tivemos um primeiro trimestre ainda afetado por esta pandemia, mas deveremos ter, a partir do mês de abril, uma retoma dos principais mercados. Uma retoma terá forçosamente de acontecer no segundo trimestre 2021. E essa é expectativa que temos. Sentimos que os mercados internacionais estão a dar sinais de uma antecipação do fim desta crise. Houve um cenário, realmente bastante traumático, que esta crise provocou a muitos, uns setores mais do que a outros. Mas, neste momento, existe essa perspetiva - se quiser, numa linguagem financeira, já há o desconto daquilo que será um plano de retoma. Vai ter sempre aqui uma visão positiva da minha parte relativamente a isso porque é nisso que nós acreditamos. Acreditamos que o primeiro trimestre do ano foi o pior trimestre e que os trimestres que se seguirão serão de retoma. Com mais ou menos euforia dependente dos mercados, mas serão, seguramente, trimestres de retoma.

Partilha da opinião de que as moratórias bancárias podem fazer detonar uma espécie de bomba-relógio no sistema financeiro?
É uma variável crítica no nosso sistema.

Como contornar ou planear que essa bomba-relógio não rebenta ou rebenta o mais tarde possível?
Acho que se deve terminar com as moratórias atendendo à criticidade do setor de atividade a que elas se referem. Neste momento temos as moratórias quase todas a acabar na mesma altura. Isso não faz sentido nenhum. Nem o sistema bancário em Portugal, seguramente , terá capacidade para tratar com todos esses processos em simultâneo. Portanto, é preciso calendarizar o fim das moratórias de acordo com a afetação que cada setor teve na pandemia. Quanto mais adiarmos o fim das moratórias... se calhar estamos a adiar também uma crise. E era bom que se conseguisse lidar com ela o mais rapidamente possível.

Já defendeu medidas de curto prazo que aumentem drasticamente a liquidez das empresas para assegurar a sobrevivência de milhares de empresas e milhares de postos de trabalho. Se tal não acontecer receia que, no desemprego, o pior ainda esteja para vir?
Vai depender muito do setor. Uma percentagem do nosso emprego é muito relacionada com o setor do turismo e ainda vamos ver quão rapidamente vamos conseguir uma retoma. Portanto, todas as medidas que a AICEP e o Instituto do Turismo conseguirem colocar no mercado internacional para que, realmente, as pessoas não vão para a Grécia e venham para Portugal, não vão para Espanha e venham para Portugal, são urgentes. É nesse setor que se pode sentir mais o desemprego, e foi o setor absolutamente fundamental para que Portugal revelasse os indicadores económicos que estava a ter antes da crise. É mais nesse setor que poderemos ver uma afetação maior. No setor industrial a retoma dependerá dos mercados e quando isso acontecer vai retomar os postos de trabalho para fazer face a uma retoma que, do meu ponto de vista, pode ser bastante musculada a nível internacional.

Já neste ano?
Já durante este ano, sim. Aquilo que nós estamos a sentir, na nossa atividade, com setores vários, com tudo o que são áreas ligadas à casa, não baixaram com a pandemia, até cresceram. As pessoas passaram mais tempo em casa.

Quando fala de casa, refere-se a pavimentos de cortiça, por exemplo. É disso que está a falar?
Pavimentos de cortiça. Sim, sobretudo nessa área. Nós crescemos durante o ano de 2020 e pensamos crescer de novo neste ano. As pessoas perceberam que o conforto com a qualidade dos seus lares é absolutamente vital nesta fase da sua vida e reformularam, redecoraram, reinvestiram. E isso é um setor que vai ver que teve um desempenho bastante positivo. No mercado das bebidas espirituosas as grandes multinacionais têm planos de crescimento. A Louis Vuitton mostrou para o seu setor de bebidas crescimentos de 26% e de 22% no primeiro trimestre deste ano face ao primeiro trimestre não pandémico do ano passado. Eu não quero estar aqui a ser mais otimista, mas quero ser positivo porque são esses os sinais que temos pela frente.

Mas sendo um otimista, um positivo colocou muitas reticências quanto ao futuro do emprego no turismo em Portugal, certo?
Sim, porque a retoma do turismo está muito ligada à retoma do emprego, quer dizer, realmente se não houver a retoma do setor turístico nós vamos ter um conjunto grande de pequenas e médias empresas cuja atividade não vai poder retomar. E seguramente que isso terminará em aumento de desemprego. É fundamental que agora possamos tratar do fim da pandemia com um plano agressivo, com um plano de promoção internacional, no meu ponto de vista, com todas as cautelas que a situação atual exige, com vacinas obrigatórias ou não por parte de quem nos visita. Claramente temos de começar a preparar o início de uma retoma. E é essa fase que tem de estar em cima da mesa neste momento.

Apesar dos avisos do Presidente da República e das garantias do primeiro-ministro, muitos analistas continuam a antever a possibilidade de uma crise política, por altura da negociação do próximo Orçamento do Estado. Está preocupado com essa possibilidade?
Não sei se chegamos a tanto. Penso que temos aprendido que este governo e o nosso primeiro-ministro têm tido a flexibilidade, a agilidade suficiente de buscar os consensos necessários para que a governação continue, no contexto em que vivemos e a economia e os empresários são sempre favoráveis a um cenário de estabilidade. Eu julgo que não chegaremos a tanto.

Há condições políticas para esta legislatura chegar ao fim?
Sim. Com alguns solavancos ao longo do percurso. Penso que poderemos ver a legislatura a terminar, a chegar até ao fim.

Portugal foi o primeiro membro da União Europeia a entregar o Plano de Recuperação e Resiliência [PRR] em Bruxelas. São conhecidas as críticas dos empresários sobre o facto de o dinheiro da bazuca ser canalizado para investimento público em vez de canalizado para as empresas privadas. Subscreve estas críticas?
O importante não é vermos a quantidade disponibilizada pelo PRR, é tão significativa que dá para acolher várias necessidades do país. Aquilo que acho que é importante é percebermos aquilo que o PRR nos tem de ajudar a fazer. Primeiro: temos de terminar com crescimentos medíocres e apostar no crescimento da nossa economia como o grande desígnio nacional. E, portanto, isto não chega crescer mais do que a média europeia, isto não chega nada disto. Nós temos de crescer mais do que aquilo que são os nossos concorrentes europeus direto, alguns países da Europa de Leste que crescem muito mais que Portugal. Temos de pôr mais ambição em tudo o que fazemos. E se não tivermos isto presente no PRR isto vai ser curto e Portugal vai perder a grande oportunidade que tem neste momento de se aproximar e de superar aquilo que é a média do PIB europeu. A melhor coisa que aconteceu para a redinamização de Portugal - e queria que entendesse bem estas palavras - foi a crise 2008 e 2009 que pôs tudo em causa, em que o país realmente saiu desta crise com muito mais força do que aquilo que tinha antes dela. Acredito que esta crise pandémica deveria ter o mesmo efeito propulsor na nossa economia. Como alguém diria, uma crise nunca se pode desperdiçar. É uma oportunidade. Quanto mais duas crises. Acho que isto foi o Daniel Traça da Nova que disse isto num livro, algures no final do primeiro semestre do ano. Não podemos desperdiçar uma crise, foi a de 2008-2009 e seguramente não podemos desperdiçar esta. Portanto temos de ter claro quais são os nossos objetivos. E os nossos objetivos têm de ser: aumento de exportações. Está claramente dito no PRR que nós queremos chegar a 50% das exportações no PIB em 2026 e queremos chegar a 60% do PIB em 2030. Isso devia ser um desígnio e depois vamos lançar medidas para que isto seja possível. E são essas medidas que infelizmente não vejo no PRR.

E quais seriam essas medidas?
Acho que uma coisa é exportar. Que é aquilo que nós aprendemos a fazer na última crise. Esta crise tem de permitir a internacionalização das empresas. Porque é que isto é importante? Porque só se consegue captar o valor acrescentado no mercado quando está presente nos mercados de consumo. E nós queremos estar presentes nos mercados com poder de compra. Quer dizer, na Póvoa de Varzim uma camisola vale 40 euros, a mesma camisola de uma marca americana vale 700 dólares. Se nós estivermos presentes fisicamente, com as nossas estruturas de vendas, nos principais mercados de consumo, vamos captar parte desses 700 euros e não vamos vender a 40 euros. É preciso apoiar as empresas a internacionalizar-se. Temos de criar a marca de Portugal. Portugal tem de ser.... Temos de ter marcas que internacionalizem o nosso país. Uma segunda medida, e isso está bem retratado no PRR, é a transição digital. Todos nós devemos utilizar a transição digital para melhorar os nossos processos internos, para implementar nas empresas industriais, que é o setor onde eu trabalho, a indústria 4.0 para claramente introduzir tecnologia e inteligência artificial, machine learning no chão de fábrica e para ter uma prática de go to market e e-commerce completamente diferente. Mas depois tudo isto não canaliza para o IAPMEI. O IAPMEI é, que eu saiba, o instituto que apoia pequenas e médias empresas. Ou seja, as grandes empresas têm de passar por este processo, e que se não tiverem a utilização destes fundos do PRR vão ficar em desvantagem face às espanholas, às francesas que vão ter suporte governamental destas medidas, praticamente - na minha leitura - ficam excluídas deste nível de apoio. Nós temos de trabalhar a dimensão das empresas em Portugal. Para sermos mais internacionais, para termos uma transição digital temos de ter emprego de maior dimensão. E em Portugal parece que só se apoia e só se preserva as pequenas empresas, que estão endividadas

Há quem diga mesmo que as grandes empresas foram esquecidas. É essa a sua análise?
As grandes empresas fazem parte de uma economia onde as PME são absolutamente relevantes, mas as grandes empresas criam um ecossistema à sua volta também composto de muitas pequenas e médias empresas. Portanto o que nós gostaríamos todos é que as pequenas empresas fossem empresas da dimensão e não o contrário, não é? Isso não vejo refletido no PRR. Nas questões de sustentabilidade, aquilo que seria um bom desafio para consubstanciar no PRR era criar um objetivo de ter uma pegada de carbono por empresa. Que cada empresa tivesse um bilhete identidade associado à sua pegada de carbono. Porquê? Como se diz na gestão, aquilo que a gente consegue medir se consegue gerir. Portanto, aquilo que eu acho que falta no PRR são medidas de um foro mais concreto e operacional que nos permitam fazer esta economia crescer de uma forma muito mais rápida e acelerada e não nos contentarmos com o suficiente. Isso não chega. Nós queremos jogar para ganhar. Mas não é para ganhar por 1-0 aos 95 minutos. Nós queremos ganhar por seis e sete a zero. E é disso que nós precisamos. E, portanto, falta a ambição, falta dizer que cada euro do PRR tem de ter um efeito multiplicador.

Apesar da crise económica no ano passado o decréscimo da faturação da Corticeira Amorim não foi além dos 5%. Como é que conseguiu conter as perdas?
Primeira regra: uma determinação muito forte para não fraquejar no momento de crise. É no momento de crise que tem de se mostrar e evidenciar ter a equipa altamente envolvida e motivada para superar as dificuldades. Segunda: não depender de um só produto, uma só a indústria. Isso foi fundamental e uma dispersão geográfica.

No primeiro confinamento as vendas de vinho e champanhe aumentaram. No segundo confinamento o mercado abrandou?
Tivemos duas fases e aprendemos com esta pandemia que as pessoas consumiram aquilo que era essencial e o vinho é essencial à vida das pessoas. E, por isso, o consumo doméstico, sobretudo, não baixou. Houve um crescimento das vendas nos supermercados de vinho, mas infelizmente foi insuficiente para deter o decréscimo no canal Horeca. Quando falamos em mercado falamos basicamente em três produtos que é o vinho (o vinho tranquilo, como se chama), os espumantes e os espirituosos. E o vinho tranquilo portou-se muito bem, durante todo o ano passado. O tal consumo doméstico não chegou, mas cobriu em parte a perda significativa que o canal Horeca teve. No champanhe foi onde tivemos a nossa maior queda. Uma região como Champagne teve perdas de vendas de cerca de vinte e poucos por cento. Para uma região que fazia 300 milhões de garrafas de champanhe francês, fez 220 milhões de garrafas no ano passado, porque é uma bebida associada com celebração, com festividade, com eventos, que não tivemos desde março.

E no segundo confinamento?
Estamos a recuperar. Janeiro foi particularmente mau, mas fevereiro foi melhor, e março ainda melhor. E os sinais que temos para a frente são claramente mais positivos. Que assim continue.

A Corticeira Amorim continua a investir em sustentabilidade e inovação. Forneceu, por exemplo, à SpaceX componentes para foguetões espaciais. Depois do espaço qual será a próxima etapa?
Estamos bem com o planeta onde estamos e no espaço... queremos é aumentar a nossa quota em tudo o que tem que ver com uma atividade da NASA, a atividade da SpaceX. Nós só temos uma quota de 34% ou 36% de utilização da cortiça nos foguetões de lançamento de satélites. Portanto, temos mais trabalho para fazer. Tínhamos uma limitação quando trabalhávamos em exclusividade com a NASA de que não poderíamos fornecer outros países para além daqueles que os Estados Unidos nos indicassem, mas a partir de agora temos a liberdade de poder trabalhar com outros países. E estamos, afincadamente, a fazer que a nossa quota nesse mercado possa expandir.

Porque é que a cortiça é relevante?
Porque a cortiça - e isto é uma descoberta da NASA - é um material que consegue resistir durante mais tempo a temperaturas de 2000 graus, que é o que acontece quando a nave espacial reentra na atmosfera. E isso faz que a cortiça seja, realmente, um material absolutamente único e agora queremos crescer na nossa quota desse setor, porque é o setor onde há uma política de não mudança do produto e dos fornecedores desde que o produto funcione - no change policy. Significa que podemos continuar a fornecer durante muitos anos. E todos sabemos que vai ser uma área de crescimento futuro e, portanto, a Corticeira Amorim quer estar envolvida em áreas e setores que cresçam como o aeroespacial.

Foi já em plena pandemia que a Corticeira Amorim desenvolveu um projeto de intervenção florestal - 250 hectares de sobreiros - e com uma novidade: a primeira cortiça sairá dos troncos daqui a oito ou dez anos e não após os habituais 25 anos depois da plantação. Como é que isso se consegue?
Ao final de 150 anos de história, finalmente a Corticeira Amorim vai investir na parte florestal. Porque, até hoje, somos a empresa que mais sabe de cortiça no mundo, ainda se calhar não somos a empresa que mais sabe sobre sobreiros no mundo, e temos de vir a ser. Temos de integrar a parte florestal naquilo que é o ADN do nosso negócio e levar a cadeia de abastecimento um pouco mais atrás. Temos de tomar conta de todas as variáveis do negócio. O aprovisionamento da matéria-prima é absolutamente relevante. E, portanto, a Corticeira Amorim ao longo de muitos anos tem um papel relevante na compra de cortiça em Portugal, de longe o nosso mercado principal de abastecimento - cerca de 65% a 68% do nosso abastecimento vem de Portugal, Espanha, e norte da África, onde temos filiais estabelecidas em cada um desses países. O potencial de crescimento de produção de cortiça aqui é relativamente pequeno. Temos a Argélia e a Tunísia, e Marrocos, que ainda tem um potencial para explorar - também estamos a tentar fazer. Portanto, ou conseguimos arranjar mais matéria-prima no horizonte de dez ou 15 anos, reciclando mais a cortiça que vendemos anualmente - e esse é o outro projeto que temos em Portugal com o Modelo Continente e com a Quercus no sentido de recuperar rolhas de restaurantes, de habitações, que depois possam servir de matéria-prima de novo no nosso processo industrial. Ou, se for insuficiente, temos claramente de pensar como é que vamos ter mais disponibilidade da cortiça daqui a dez ou 15 ou 20 anos, para não limitar o crescimento da nossa atividade.

Decidiram pelos sobreiros?
Decidimos que a Corticeira Amorim vai ter um papel relevante nessa área. Como? Primeiro fazendo muita investigação e desenvolvimento ligado à parte da floresta. Temos em Portugal os melhores cientistas, temos os melhores centros de competência na área da subericultura a nível global, não podia ser de outra forma, e, portanto, temos de trabalhar com esses cientistas e com esses meios no sentido de desenvolver um conjunto de soluções que nos permitam trabalhar cortiça... o sobreiro, a planta, o clone de uma forma diferente, que realmente consiga resistir às alterações climáticas, que consiga adaptar-se aos diferentes tipos de solos que temos na nossa geologia em Portugal e que permita responder àquilo que são as necessidades de mercado. E, portanto, lançámos um plano para fazer investigação com parceiros da área científica em Portugal. E depois temos de pôr isso no terreno. Tivemos essa experiência em 250 hectares, onde vamos, durante um período de oito a dez anos, irrigar, com gota a gota esses sobreiros. E, obviamente, que a árvore em vez de hibernar durante uma parte significativa do ano e a cortiça não crescer vamos ter a árvore no seu ciclo vegetativo ao longo de quase todo o ano, vai acelerar o crescimento da cortiça. A vantagem é que o consumo de água é muito pequeno no sobreiro comparado com outras espécies que temos em Portugal e vamos conseguir antecipar de 25 para oito ou dez anos a primeiro extração da cortiça. E, ao final da primeira extração da cortiça, já não queremos mais o apoio e a assistência da água.

Porquê?
Porque queremos que a cortiça tenha a estrutura celular, a morfologia e as características que a cortiça de sequeiro tem. Para que o mercado seja um, para que o preço da matéria-prima seja um, para que não haja duas cortiças diferentes. Precisamos da rega de instalação durante um período, mas não precisamos a partir da primeira extração e, portanto, o consumo de água - que será um bem cada dia mais escasso entre nós - terá uma utilização muito limitada. Achamos que é um modelo virtuoso, é o modelo que vamos conseguir claramente instalar com intervenção humana porque exige um investimento significativo. Vamos passar de uma densidade média de 50 ou 60 árvores por hectare para densidades de 350 a 400 árvores por hectare. Em Portugal temos cerca de 700 mil hectares onde o sobreiro é espécie dominante. Nós pensamos que com 50 mil hectares plantados desta forma poderemos aumentar a produção de cortiça entre 35% e 40%.

E contrariar o declínio dos sobreirais que se está a verificar?
E contrariar o declínio dos sobreirais e contribuir para que a retenção de CO2 da nossa floresta acrescente, e para que a nossa agenda carbónica seja acelerada e que não precisemos de chegar a 2050. E ainda permitir o rendimento do produtor florestal, que está a diminuir, porque a densidade dos sobreiros que tem nas suas propriedades está a diminuir. E em Portugal e no norte da África, combater a desertificação, bem como é uma espécie que tem muito pouca propensão a incêndios. Acho que só temos a ganhar com este projeto. Se o país quer ser uma referência em termos de sustentabilidade temos de, claramente, consumir produtos com uma pegada de carbono negativa ou baixa. E depois também investir em sumidouros de carbono. Temos em Portugal uma área florestal muito relevante, onde o sobreiro é a árvore insígnia do país. A Assembleia da República nunca deve ter votado nos últimos anos nada unanimemente e isto foi algo que foi unânime na votação na Assembleia da República - considerar o sobreiro a nossa espécie, de Portugal. Seguramente que temos aqui uma árvore que pode potenciar um conjunto vasto de coisas que queremos: retenção de carbono, sustentabilidade da floresta, retorno económico ao produtor florestal e, obviamente, uma contribuição futura para o aumento das exportações, uma vez que achamos que o mercado para a cortiça é um mercado potencialmente crescente.

Há pouco falou da necessidade de promover Portugal lá fora. O senhor faz parte do recém-criado movimento Marcas por Portugal. É uma forma de criticar a política pública de promoção do país lá fora? E o que espera desse movimento?
Não. O que eu espero deste movimento é que tenhamos orgulho maior naquilo que somos e naquilo que fazemos. Nós somos demasiado humildes, muitas vezes, e isto não pode ser. O oposto disso não é arrogância. É confiança, é autoestima. Falta-nos ambição. Não é criticar nada do que está para trás, nós temos de ter um plano Marcas por Portugal até ao nível interno, que nos faça gostar mais do que somos e do que fazemos, como tantos outros países têm. A aposta é criar produtos de valor acrescentado, atrair investimentos, estudantes e turistas para Portugal. E Portugal começar a ser conhecido como um país de marcas de referência de nível global.

Como?
É preciso criar uma mobilização de todos nós, desde a gestão de empresas, a gestão de bancos, ao desporto, à cultura. Temos de ter esses embaixadores a promover Portugal no exterior, mas também temos de ter pessoas de referência do exterior a valorizar aquilo que Portugal faz. Conseguimos fazer isto na área da cultura, da arquitetura, do design, do vinho, da gastronomia. Temos, seguramente, ideias fantásticas a aportar em muitos setores. Para quê? Para que Portugal, realmente, tenha no mercado internacional uma imagem do país de que se gosta, daquilo que nós somos hoje, mas de que se gosta não é só por sermos bonzinhos. Parte do nosso crescimento está não só na quantidade do que fazemos mas no valor daquilo que entregamos aos principais mercados de consumo. Seguramente que muito tem sido feito. Não vale a pena estar a olhar para trás. O que interessa é perceber uma coisa: nós só vamos ter sucesso como país se crescermos a um ritmo muito mais acelerado do que aquilo que temos vindo a crescer.

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