Nobel para três economistas que lutam contra a pobreza global

Três economistas foram distinguidos por abordagens inovadoras na luta contra a pobreza. Esther Duflo é apenas a segunda mulher a ser distinguida com o prémio.

O Nobel da Economia deste ano foi atribuído a Abhijit Banerjee, Esther Duflo e Michael Kremer pela sua "abordagem experimental para tentar aliviar a pobreza global".

O Prémio de Ciências Económicas (Prémio Sveriges Riksbank de Ciências Económicas em Memória de Alfred Nobel) é atribuído pelo Banco Central sueco e não pela Academia mas é vulgarmente conhecido como Nobel da Economia e distinguiu o trabalho do indiano Abirjite Banerji, da francesa Esther Duflo e do americano Michael Kramer que propõe modelos experimentais de ultrapassar a pobreza, identificando as suas causas e facilitando a análise de custo e beneficio das politicas antipobreza.

Os três trabalham na área de economia do desenvolvimento, que estuda os processos de crescimento dos países mais pobres, incorporando fatores de natureza social e política.

Abhijit Banerjee nasceu em 1961 em Mumbai, na Índia. Formou-se na Universidade de Harvard e é professor no Massachusetts Institute of Technology (MIT). A sua mulher, a francesa Esther Duflo, nasceu em Paris em 1972 e profissionalmente esteve desde sempre ligada ao MIT. O americano Michael Kremer nasceu em 1964, e formou-se na Universidade de Harvard, onde é docente.

Em comunicado, a Academia Nobel contextualiza o trabalho premiado, explicando que "a melhor forma de desenhar medidas de combate à pobreza global é o uso de pesquisa inovadora baseada em trabalho de campo e que os três laureados lançaram as bases para responder a este desafio".

A instituição sueca considera que nas últimas duas décadas, apesar da "melhoria praticamente global das condições de vida das populações, com o aumento para o dobro do PIB per capita nos países mais pobres entre 1995 e 2018, a queda para metade da mortalidade infantil e o aumento do número de crianças que vão à escola", há "desafios gigantescos" que permanecem: mais de 700 milhões de pessoas continuam a ter rendimentos extremamente baixos; todos os anos, morrem cinco milhões de crianças com menos de 5 anos, muitas vezes vítimas de doenças que poderiam ser evitadas ou curadas com tratamentos simples e baratos; metade das crianças do planeta deixam a escola sem capacidades literárias e matemáticas básicas.

A Academia sublinha que o trabalho dos três laureados "mostra que o problema da pobreza global pode ser enfrentado através da divisão em questões mais pequenas, que são respondidas usando trabalhos de campo específicos", destacando que "ao longo de vinte anos, esta abordagem revolucionou a pesquisa na economia do desenvolvimento, que está a resultar em resultados concretos, que ajudam a mitigar o problema da pobreza global.

O trabalho dos três economistas mostrou, por exemplo, que o atraso económico dos países mais pobres deve-se não apenas a diferenças de produtividade entre nações mais ricas e mais pobres, mas também a diferenças de produtividade dentro de cada país pobre, onde enquanto alguns particulares e empresas têm acesso às últimas tecnologias, enquanto outros (que produzem bens ou serviços semelhantes) usam métodos de produção antiquados.

No campo da educação, os três laureados quiseram saber se os resultados escolares em países pobres (onde os livros de estudo são um bem escasso e onde frequentemente as crianças vão para a escola com fome) poderiam melhorar se houvesse acesso facilitados a mais livros, ou se os alunos tivessem acesso a mais refeições.

Para isso, mudaram-se para uma área rural do Quénia, onde fizeram experiências de campo que mostraram que nem uma coisa nem outra melhorou os resultados dos alunos (o acesso a mais livros, se algum efeito teve, foi apenas junto dos melhores alunos). Estudos subsequentes, já na Índia, mostraram que a raiz do problema estava na falta de adaptação do ensino às necessidades específicas das crianças.

Na opinião da diretora cientica do centro NOVAfrica da Nova School of Business and Economics, o trabalho dos três investigadores é "uma revolução na economia do desenvolvimento". Cátia Batista explica que "eles desenvolveram uma abordagem em que em vez de simplesmente se dedicarem a dar ajuda aos governantes que decidem a melhor forma de a aplicar, eles experimentam políticas, avaliam quais vão ser os efeitos da forma mais rigorosa possível e é assim que tentam influenciar a política de desenvolvimento".

A investigadora sublinha que "é uma abordagem totalmente inovadora que tem tido um impacto muito alargado", em que "o que se faz é uma análise de custo-benefício que em termos metodológicos empresta muito das ciências exatas". "São", explica Cátia Batista, "experiências tal como se faz em medicina, para se testarem novos medicamentos. É uma abordagem experimental, em que em vez de se investirem milhões em determinada medida, o que se faz é tentar medir, com apenas alguns milhares de pessoas, qual é o impacto potencial desta medida".

Como mais estes dois prémios o MIT destaca-se como a escola com mais prémios Nobel da Economia: passa a ter 17 galardoados desde que este prémio é atribuído há 51 anos.

Uma curiosidade: dois dos laureados constituem um casal que trabalha junto no Massassuchets Institude of Technology (MIT): Abirjite e Esther casaram-se em 2015 e têm um filho. Esther é apenas a segunda mulher a ser distinguida com o prémio.

O prémio de mais de 800 mil euros, que não constava do grupo original das cinco categorias dos Nobel determinadas pelo testamento de Alfred Nobel em 1895, foi estabelecido em 1968.

O Nobel da Paz foi atribuído a Abiy Ahmed, primeiro-ministro da Etiópia, pelos seus "esforços para atingir a paz e a cooperação internacional", ao tomar uma "iniciativa decisiva para resolver a conflito na fronteira com a Eritreia".

Os Prémios Nobel da Literatura de 2018 e 2019 foram atribuídos, esta quinta-feira, à escritora polaca Olga Tokarczuk e ao escritor austríaco Peter Handke, respetivamente, depois de o prémio ter sido suspenso, no último ano, devido a um escândalo que abalou a reputação da instituição e levou a várias demissões.

A Academia justifica a atribuição do prémio a Olga Tokarczuk pela "imaginação narrativa que, com uma paixão enciclopédica, representa o cruzamento de fronteiros enquanto forma de vida" e a Peter Handke pelo seu "influente trabalho com ingenuidade linguística que explorou a periferia e a especificidade da experiência humana".

O prémio Nobel da Medicina foi atribuído aos investigadores norte-americanos William Kaelin, Gregg Semenza e ao britânico Peter Ratcliffe, por descobertas no modo como as células respondem à disponibilidade de oxigénio.

O Prémio Nobel da Química foi atribuído aos cientistas John B. Goodenough, M. Stanley Whittingham e Akira Yoshino, por terem desenvolvido baterias de iões de lítio.

O Prémio Nobel da Física foi atribuído ao físico canadiano James Peebles, por descobertas em cosmologia física, e aos astrónomos suíços Michel Mayor e Didier Queloz, pela descoberta de um exoplaneta que orbita à volta de uma estrela semelhante ao Sol.

Os galardoados recebem um diploma, uma medalha de ouro e prémio monetário de nove milhões de coroas suecas, mais de 930 mil euros.

Como é tradição, todos os prémios serão entregues a 10 de dezembro, aniversário da morte do magnata sueco fundador do galardão, Alfred Nobel (1833-1896), químico e inventor da dinamite.

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