Pandemia é motor de crescimento na produção de bicicletas em Portugal

Há empresas do setor a aceitar encomendas só para 2022.

A pandemia pode estar a beneficiar o setor da produção, montagem e comercialização de bicicletas em Portugal. A ABIMOTA, a Associação Nacional das Indústrias de Duas Rodas, descreve o panorama nacional como "muito interessante", estando as bicicletas elétricas em forte crescimento, com as bicicletas convencionais a acompanharem também esta tendência. A TSF foi conhecer a realidade da Esmaltina, uma das mais antigas empresas portuguesas no fabrico de bicicletas, que está em Sangalhos, no concelho de Anadia, desde 1974.

Em contexto de pandemia, a Esmaltina triplicou a produção de bicicletas, no último ano, e encomendas , quer de veículos convencionais, quer de elétricos, só para 2022. Esta nova realidade contraria a tendência dos últimos anos, que era de dificuldade de afirmação no mercado.

Paulo Lemos, administrador da empresa, refere que o aumento do sedentarismo dos mais novos, acompanhado pela realidade de Portugal ser ainda pouco rico em ciclovias e pelo facto de, até há pouco tempo, ser um pouco mal visto deslocar-se em bicicleta, estava a dificultar a vida das empresas do setor nos últimos cinco anos.

Paulo Lemos está convicto de que a tendência se allterou e que o mercado está agora em alta. O administrador aponta o que mudou. Embora uma coisa seja certa: a pandemia ajudou e houve, de repente, uma viragem de direção. "À segunda semana de estarmos parados, fomos obrigados a retomar, a admitir mais colaboradores e a triplicar ou quadruplicar a capacidade produtiva", conta. E "se mais houvesse, mais se teria feito", pois as empresas viram-se confrontadas com a falta de peças. "Não existia matéria a chegar para satisfazer o mercado", pois as componentes para a indústria são, em grande parte, de produção asiática e, por isso, o setor foi logo afetado em janeiro de 2020.

Para fazer face às encomendas, houve contratação de pessoal logo em março de 2020 e a produção de bicicletas pedala agora a bom ritmo. "Para todo o ano de 2021 é impossível aceitar encomendas, já estamos a trabalhar para 2022 e 2023", assegura. Mas esta realidade requer "precaução". Do ponto de vista do empresário, esta precaução deve residir precisamente na aquisição de componentes, que é efetuada a nível global - sobretudo no espaço europeu e no espaço asiático. "Os prazos de entrega são muito díspares e, se faltar um parafuso, paramos a produção, o que torna desafiante e preocupante aquilo que poderia ser excelente", alerta.

Bicicletas elétricas ganham espaço na produção

Quarenta por cento da produção da Esmaltina já é de bicicletas elétricas. O destino é sobretudo o continente europeu, mas também o mercado nacional e até o norte de África. Gil Nadais, da Associação Nacional das Indústrias de Duas Rodas (ABIMOTA), descreve um panorama muito interessante, com a pandemia a dar "um enorme incremento a este setor", pois houve uma diminuição da utilização dos transportes públicos, mas também uma visão diferente em relação ao ambiente e à saúde.

A bicicleta elétrica trouxe um incremento ao setor. Com este meio, "a terra só tem planícies e descidas, porque numa subida se dá um pouco de motor e diminui-se o esforço e depois porque os 25 quilómetros por hora que as bicicletas atingem, dentro de uma cidade, é uma velocidade superior àquilo que se consegue numa viatura própria", afirma.

A procura por este tipo de bicicleta tem feito crescer a produção nacional e já representa vários milhões de euros para o setor. Na reportagem áudio, Gil Nadais apresenta os números que se esperam superiores a 70 milhões de euros já em 2021.

Antes da pandemia, Portugal já assistia a um crescimento na produção de bicicletas convencionais, devido a um "alinhamento de várias estratégias" - o ambiente está na ordem do dia e as pessoas preocupam-se mais com a sua saúde. Depois, a bicicleta elétrica "veio dar um incremento na forma como se está a encarar a mobilidade nos dias de hoje", explica Gil Nadais. Neste momento, este meio já está generalizado e o "ciclista que é menos atleta quer uma bicicleta elétrica, porque só há planos e não há subidas".

Esta ideia é corroborada por Paulo Lemos, administrador da Esmaltina, que denota que, quando o mercado das bicicletas convencionais estava a estagnar, as bicicletas elétricas vieram dar algum alento. Uma situação favorecida pelas regras antidumping estabelecidas pela União Europeia. "Hoje em dia, a bicicleta elétrica já representa 40% da produção. Uma representatividade muito grande, num período muito curto e com tendência para crescer", afirma.

Portugal é líder no setor

Portugal é líder no setor, a vários níveis: por exemplo, na soldadura de quadros das bicicletas, o que permitiu substituir importações, pois "os quadros em alumínio vinham todos da Ásia" e, recentemente, surgiu até a primeira fábrica de quadros em carbono ou o fabricante de um dos selins mais leves do mundo. "O fabricante tinha no stand uma balança com um selim de um lado e uma caneta no outro", o que mostra a leveza do produto. Na área da montagem, "somos escolhidos por várias marcas europeias e mundiais", que daqui saem para todo o mundo.

O secretário-geral da ABIMOTA lembra ainda o projeto "Portugal Bike Value", que potencializou Portugal como um país onde pode também existir investimento estrangeiro nesta área. "O ano passado fomos reconhecidos como o país da Europa que mais bicicletas exportou", sublinha.

Durante o início de 2020, por causa da pandemia, chegou a existir uma quebra de produção de 25%, mas, no final do ano, a produção tinha crescido 5%, apesar da paragem obrigatória imposta também ao setor.

Incentivos do governo são bons, mas...

Sobre os incentivos à compra de bicicleta que estão no Fundo Ambiental e que o Governo aumentou no Orçamento do Estado para este ano, o secretário-geral da ABIMOTA, Gil Nadais, considera que são positivos, embora ainda aquém do que é feito na Europa, mas afirma que não entende a forma como é dado o apoio à compra das bicicletas convencionais. O problema não está no montante máximo de comparticipação, que é de 100 euros, mas, sim, na percentagem, que, no atual orçamento do Estado, até subiu de 10% para 20%. Contudo, se até aqui se tinha de comprar uma bicicleta de 1000 euros para conseguir reaver 100, agora esse gasto desce até aos 500 euros. Ainda assim, um valor incomportável para a maioria das famílias portuguesas. Ou seja, numa bicicleta de entrada de gama, a comparticipação é mínima. "Não compreendemos que seja só este valor de percentagem de comparticipação. Tal com acontece nas outras categorias, deveria ir até aos 50%, porque permitiria que as famílias de parcos recursos pudessem aceder mais facilmente a uma bicicleta de entrada de gama, que anda entre os 150 e os 200 euros", refere Gil Nadais.

Para a ABIMOTA, o apoio deveria ser de 50% do valor da bicicleta, disseminando assim o uso da bicicleta e diminuindo o esforço financeiro das famílias.

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