Secretária de Estado do Turismo Rita Marques na TSF em março de 2021
Vida do Dinheiro

"Pandemia fez perder 29 mil empregos no turismo e restauração"

Queda de 9% muito acima da média no país de 2%. Secretária de Estado do Turismo, Rita Marques, garante, em entrevista à TSF e ao DV, que os apoios chegam às empresas em 18 dias úteis e alerta: "Se a TAP não agarrar a oportunidade Brasil, outra companhia ocupará o espaço."

Nos últimos dias reiterou que os britânicos voltam a poder entrar em Portugal em meados de maio. Há algum receio de que, mesmo podendo, eles não voltem em força?

Tenho sido convidada por media britânicos a responder a essa questão que os assola, que é quando podem voltar a passar férias em Portugal. Isto é bom. É um mercado que representou 2,5 milhões de dormidas em 2019, importante para o país, e alguns países da UE estavam já a posicionar-se, pelo que não faz sentido não fazermos o mesmo, tendo em conta que há já um plano de desconfinamento britânico bem conhecido e que dá conta de que esses cidadãos podem viajar internacionalmente a partir de 17 de maio.

Que papel terá o passaporte de vacinação proposto por Bruxelas na recuperação do turismo?

É um instrumento fundamental que vem na sequência de uma reunião de ministros em março, sob a Presidência portuguesa do Conselho Europeu. Foi consensual entre os Estados-membros a necessidade de haver um instrumento ágil que nos habilite a viajar em segurança. A Comissão Europeia (CE) sinalizou o interesse e já ficámos a conhecer este passe verde digital.

Sinalizou ainda a preocupação de termos este passe em diálogo com países terceiros, incluindo Reino Unido (RU), por isso espero que muito em breve possamos acolher os britânicos, munidos de um certificado de imunidade ou de vacina ou de um teste negativo.

Mas esse certificado pode ter o outro lado: é mais um passo necessário para viajar.

Não podemos repetir os erros do ano passado, em que não tínhamos qualquer instrumento desta natureza. Temos de dar passos sólidos para instigar confiança. Sabemos bem hoje que esses passos passam por garantir que quem viaja não é foco de infeção, para protegermos também as nossas fronteiras, os países e os SNS.

Vai ser possível salvar o verão?

Esperamos um verão substancialmente melhor do que o último - não será difícil. Recuámos a 1994, com 26 milhões de dormidas, portanto será seguramente melhor. O plano de vacinação vai evoluindo favoravelmente também em Portugal e estamos confiantes de que ficaremos acima de 2020.

Com mais estrangeiros, mas também turistas nacionais?

Seguramente. O mercado nacional em 2020 respondeu a este desejo de cuidar do setor do turismo e dos seus profissionais. Portanto espero que neste ano também possamos granjear a simpatia dos internacionais e continuar a merecer a confiança dos portugueses.

O governo vai tomar iniciativas para mostrar que Portugal é seguro, para cativar mais pessoas?

Temo-lo feito desde o ano passado. Sublinho que fomos distinguidos, em plena pandemia, como melhor marca turística da Europa e terceira melhor do mundo.

Mas a terceira vaga da pandemia afetou a imagem do país.

É verdade, mas temos trabalhado sempre na comunicação, de forma muito direta, assertiva. E para recuperar essa imagem, que saiu relativamente beliscada fruto do SNS que vimos nas televisões, temos de continuar a apostar em instigar confiança. Iniciativas como o selo Clean & Safe - que foi pioneiro a nível mundial - continuarão a ser trabalhadas para instigar confiança em quem viaja e em quem trabalha no setor.

Mas haverá campanhas adicionais, novas, ou vai trabalhar com o que havia, reforçando-o?

A nossa narrativa não mudará muito, até porque já vem sendo consolidada desde 2017. Portugal não quer sobreviver mas liderar nesta pandemia. Ainda há uns 15 dias lançámos a nova campanha em que incitamos os países mais próximos de Portugal - Reino Unido, Espanha, França - a trabalhar connosco neste renascer do turismo, mas de um turismo melhor. Portugal não pode constantemente ir atrás de mais turistas, mas sim de ir atrás de melhores turistas.

Turistas com dinheiro?

É um turista mais abonado financeiramente, mas que se preocupa com o planeta, os territórios, as comunidades que visita e quer deixar o planeta melhor para todos.

No verão passado, a reabertura resultou logo em aviões cheios, nomeadamente para o Algarve. Tem esperança de que isso aconteça de novo nesta reabertura?

Não será esperança mas evidência científica: temos todos um grande desejo de viajar; estamos confinados e em segurança, mas viajar faz parte da matriz humana. Queremos apanhar sol, ir para o recato da montanha, conhecer culturas. Os números da Organização Mundial do Turismo (OMT) e do RU recentemente libertados davam conta que uma parte muito substancial da população com capacidade financeira assume as férias como grande prioridade. Estou confiante de que teremos alguns aviões cheios do melhor turista.

Esses "melhores turistas" já contribuem para que os destinos de campo estejam no topo das preferências?

Sim, e gostava de sublinhar o esforço que temos feito no Turismo de Portugal para diversificar a oferta turística. Há muito que não somos só um destino de sol e praia, temos várias iniciativas nesse sentido, e se há setor que contribui para a distribuição dos turistas e da riqueza pelo território é este. Nessa perspetiva, a pandemia deu mais força à estratégia de diversificação de produto, de rotas no interior. E 2020 mostrou que foi uma aposta certeira.

A destruição de emprego e empresas por efeito da pandemia pode levar a que o país tenha menos oferta quando reabrir?

Esse receio assaltou o governo desde o primeiro dia e por isso fixámos como prioridade a necessidade de preservar postos de trabalho e capacidade produtiva. Mas sim, já perdemos trabalhadores. No alojamento e restauração, em 2019 tínhamos 290 mil postos de trabalho e entretanto, segundo o INE, desapareceram 29 mil. Estamos a falar de uma taxa de 9%, substancialmente superior à nacional que é de 2%. Mas tenho esperança de que possamos recuperar esses postos e estamos a fazer esse esforço de garantir que as nossas empresas podem retomar a atividade com todas as condições, servir e acolher bem e começar a contratar quando a tão desejada retoma acontecer.

E quando poderemos voltar aos números de 2019?

Os estudos da OMT refletem o que prevemos: nunca antes de 2023 teremos valores idênticos.

Como é que vamos combater a concorrência de outros destinos, como Itália, Espanha ou Grécia? Há um plano?

Desde logo, garantindo que as nossas empresas estão vivas quando vier a retoma - e daí o esforço de preservação de emprego e capacidade produtiva, estratégia decidida desde o início -, e por outro lado continuando a comunicar bem, dando conta dos ativos que nos distinguiram durante anos e que até levaram à nossa distinção: fomos três vezes melhor destino turístico do mundo e melhor da Europa no ano passado. Seguramente vamos continuar a ser reconhecidos como líderes nesta indústria.

A OMT disse em entrevista do DV que o turismo interno continuará a desempenhar um forte papel. Se houver ainda grandes restrições de viagens, será capaz de alimentar todo o setor?

Temos de ser honestos: o mercado interno é importante mas não compensa de todo a ausência do internacional. Espero que possamos progredir no sentido de ter menores restrições de viagens e que o mercado internacional chegue e o nacional continue a apostar no destino Portugal.

Voltando ao Reino Unido, há também o tema brexit... com particular relevância no Algarve. Admite apoios específicos para essa região?

O governo tem tido esta capacidade de estar continuamente permeável às necessidades efetivas, melhorando e revisitando medidas. Portanto, mantemos as possibilidades todas em aberto. Evidentemente que o brexit traz um desafio acrescido, mas confio no mercado britânico, que é importante em turismo mas também em segundas residências, eventos desportivos...

E no golfe em outubro...

Sim, não é apenas o turismo clássico no Algarve, há outras dinâmicas suscitadas por esse mercado e temos de estar conscientes de que precisamos desse mercado. Gostava ainda assim de destacar que temos vindo a diversificar e o mercado britânico, sendo importante, tem perdido representatividade na distribuição dos nossos turistas.

Outros estão a aumentar?

Sim, felizmente temos tido sempre uma rota de crescimento, mas outros mercados também têm subido, designadamente EUA, Canadá e Brasil - este com taxas de crescimento a dois dígitos - e por força disso os tradicionais têm tido menos representatividade.

Mas esses mercados de fora da Europa perderão peso devido à pandemia.

É verdade, temos neste momento muitas restrições de viagens, sobretudo de fora da Europa. Temos relações privilegiadas com o Brasil mas isso não nos permite retomar os voos à velocidade que queríamos, é preciso alguma paciência, porque não temos ainda condições para acolher aqueles que nos querem visitar.

Portanto, a aposta neste ano é claramente nos países europeus?

Tem de ser nos países de proximidade, incluindo Espanha, França, Itália, Reino Unido e os Países Baixos. E naturalmente o mercado interno.

Como tem sido a adesão aos apoios lançados para o turismo?

Tem sido muito forte. Conseguimos até ao momento mobilizar um total de 2,2 mil milhões de euros de apoios ao turismo, incluindo apenas as linhas geridas diretamente pelo Ministério da Economia (ME) - portanto sem contar com lay-offs, mecanismos de apoio à retoma ou moratórias fiscais e outras. Tem sido um apoio importante porque atinge toda a cadeia de valor - não apenas o alojamento mas a restauração, rent a car, animação, bares, etc. São muitos subsetores que dependem do turismo.

No mundo pré-pandemia, a TAP trazia milhões de turistas todos os anos. A reestruturação pode fazer perdê-los ou virão noutras companhias?

Em 2019, a TAP trouxe 45% dos passageiros que chegaram por via aérea. É um parceiro fundamental para o turismo e para que este setor continue a dar um contributo muito positivo para a dinamização socioeconómica.

E dava um contributo especial nos mercados de fora, com investimento nomeadamente no Brasil e nos EUA.

É verdade, a TAP vinha a atacar esses mercados e nós, com a TAP, vínhamos trabalhando nisso. Esperemos que a reestruturação seja rápida e possamos continuar a contar com a TAP no setor.

A reestruturação da TAP pode ter por efeito a redução do número de turistas que chegam das Américas?

Se a TAP não agarrar essa oportunidade - e temos sinais evidentes de que existe esse apetite, nomeadamente de brasileiros, para chegar à Europa e em particular a Portugal outra companhia agarrará a oportunidade.

É então do interesse da TAP que se mantenha?

Da parte do turismo só posso dar nota que esse mercado emissor, em particular o Brasil, tem uma ligação emocional muito forte, pelo que existe viabilidade para garantir a ligação aérea. Se não for pela TAP outro parceiro ocupará o espaço.

Devíamos estar já a trabalhar na solução do novo aeroporto?

Seguramente. O setor do turismo reclama há muitos anos um aeroporto da Portela com a dignidade que se impõe e não havendo possibilidade técnica de assim acontecer temos de encontrar uma solução que sirva a Área Metropolitana de Lisboa (AML) e todo o país. Impõe-se que a discussão seja breve e tenhamos muito rapidamente resultados tangíveis, úteis ao turismo.

Que solução seria a melhor?

Já há muitas vozes e não ajuda a SET ser mais uma. O que importa é que o aeroporto possa servir a AML - de outra forma ficaríamos prejudicados no que toca à boa dinâmica da região - e assegure segurança e conforto a quem nos visita.

Portanto, é essencial manter a Portela.

Seria inconsciente da minha parte dar nota de uma opção técnica que não depende de mim e está bem entregue ao ministro das Infraestruturas.

Mas em termos turísticos?

Há três cenários em cima da mesa e todos envolvem a Portela - nessa medida acredito que se mantenha, pelo menos num prazo mais próximo. De outra forma não há alternativa viável. Mesmo com o Sá Carneiro (Porto) e Faro a responder bem - e a Norte temos sido até reconhecidos sistematicamente com o Porto a ser visto como o melhor aeroporto da Europa.

Tem posto o foco no Brasil. Os EUA deixaram de ser uma aposta?

Não, não. Os EUA sempre fizeram parte da nossa lista de prioridades e temos comunicado muito bem com eles, especialmente com algumas geografias americanas. Temos uma comunidade portuguesa muito grande e enraizada, já em segunda e terceira geração, e com quem temos uma relação extraordinária, portanto os EUA são um mercado de aposta.

Quando é que o IVAucher arranca?

Assim que estivermos capacitados para viajar. Não faz sentido lançar instrumentos que foram bem gizados e devidamente orçamentados, passando uma mensagem errada num momento em que devemos ainda estar confinados. No momento certo, tão breve quanto possível estando a situação pandemiológica controlada, será anunciado.

Acredita que haverá uma explosão de consumo na recuperação?

Acredito que sim. Todos temos uma grande motivação para viajar e espero que consigamos ter condições financeiras para o fazer. Muitos portugueses perderam, neste ano difícil, estas condições, mas espero que as recuperem em breve.

O PRR esteve em consulta pública e a Confederação para o Turismo de Portugal (CTP) criticou a falta de valor dado ao turismo. Devia estar mais presente?

Nós temos vindo a trabalhar com a CTP, este é um setor muito fustigado e fragilizado mas que tem sabido construir ponte com o governo e tenho de reconhecer esse esforço extraordinário de diálogo do tecido empresarial. De resto, os apoios ao turismo não se esgotam no PRR, muito antes já mobilizávamos apoios para o turismo, temos o próximo quadro comunitário de apoio - esse sim, apoiando diretamente o investimento privado -, que se espera que possa responder a este desígnio do turismo do futuro, mais digital e sustentável. Há um conjunto de instrumentos disponíveis que de forma agregada responderão a essa ambição da CTP - que é totalmente partilhada pela secretária de Estado do Turismo e pelo ministro da Economia.

Outra queixa dos agentes do setor é que os apoios demoram a chegar...

Esse problema tem vindo a ser mitigado. Neste momento, no Apoiar.pt, instrumento que ventila financiamento a fundo perdido para empresas com quebras de faturação relevantes, o prazo médio de análise entre a candidatura e a decisão é de 13 dias úteis, a que acresce uma média de cinco dias úteis para o pagamento ser feito. Portanto, estamos hoje abaixo dos 20 dias úteis previstos. Claro que 20 dias úteis em tesouraria é um prazo muito dilatado, tendo em conta a agonia que vivem as empresas, e devíamos todos trabalhar para encurtá-lo. Mas tem havido um grande esforço dos serviços. Quando falamos em burocracia, parece que a máquina não está a trabalhar e a verdade é que essa máquina são pessoas, organismos intermédios que têm sabido mobilizar equipas confinadas para acudir a estas necessidades. Mas espero que a evolução permita continuamente reduzir prazos.

A nível das grandes empresas há já sinais de que as coisas não estão bem. É possível haver novo foco de apoios aí?

No tecido empresarial do turismo nem 1% são grandes empresas, são muito poucas, por isso nos apoios que desenhámos tivemos necessidade de ir às micro, pequenas e médias primeiro. Mas as grandes, de facto, acabaram por sentir uma escassez de apoios. Apesar de terem tido desde o início acesso ao lay-off.

Foi o único apoio que tiveram.

Foi, e foi importante para manter emprego. Mas as empresas têm uma importância fundamental para a retoma e por isso foi recentemente anunciada mais uma linha para as grandes e médias empresas, com garantia pública, aval do Estado, em que 20% do montante contratualizado pode ser convertido em fundo perdido. Era uma recomendação da CTP e que foi incluída nas mais recentes medidas.

Prolongar as moratórias para além de setembro é outro pedido que ganha força. Pode acontecer?

Isso não depende só do governo, é uma matéria que tem sido bem liderada pelo ME com os seus pares, mas é um assunto que entronca nas autoridades europeias e estão a ser analisadas várias hipóteses. Uma é protelar as moratórias para lá de 2021 e/ou entendermos que há espaço para se poder dilatar o prazo da dívida. São alternativas que estão em análise.

Acredita então que alguma medida terá de ser tomada?

Desde o primeiro dia, o governo tem sido preventivo e não reativo. Temos vindo a analisar os dossiês no momento certo e com a atenção certa. É verdade que a situação é difícil, mas seguramente encontraremos uma solução.

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