Pedro Siza Vieira: "Auxílios do Estado não vão chegar a todos"
A Vida do Dinheiro

Pedro Siza Vieira: "Auxílios do Estado não vão chegar a todos"

Ministro da Economia admite que, no contexto atual, o Estado não vai conseguir "chegar a todo o lado", e defende que empresas e consumidores terão de adaptar-se a um novo nível de custos.

Esta semana, na Vida do Dinheiro, o entrevistado foi o ministro da economia. Numa altura em que o país se prepara para ver descer o preço da gasolina e do gasóleo, pela primeira vez este ano, Pedro Siza Vieira garante que não há sinais de especulação no preço dos combustíveis, e contraria assim, a sugestão levantada pelo ministro do ambiente no Parlamento, de que haverá concertação entre gasolineiras.

Pedro Siza Vieira defende ainda que Bruxelas autorize o apoio direto do Estado às empresas que enfrentam o aumento do preço da energia, mas avisa que não vai ser possível chegar a todo o lado, e que a economia terá mesmo de adaptar-se ao novo contexto, criado pela guerra na Ucrânia.

Por causa da crise causada pela guerra, Portugal vai crescer menos do que o Governo tinha antecipado, reconhece o governante que, no entanto, afasta um cenário de austeridade.

O próximo orçamento terá de adaptar-se, afirma Siza Vieira, mas, o mais certo é ter de acomodar um défice mais elevado que o previsto.

O ministro do Ambiente disse ter convicção de que há concertação de preços entre gasolineiras. Neste cenário de escalada de preços dos combustíveis, e dizendo o governo que não pode fazer mais do que intervir a nível fiscal, é tempo de a Concorrência atuar?

Estamos num momento de grande perturbação da forma como os bens chegam aos mercados mundiais. Um grande fornecedor de produtos energéticos, de recursos minerais e alimentos, a Rússia, não está a aceder aos mercados e isso tem impacto. Sobretudo, introduz muita volatilidade nos preços e isso repercute-se em toda a cadeia de valor, até aos consumidores. Nós acompanhamos de perto toda a situação nos vários setores em que faz sentido: bens alimentares, produtos energéticos, recursos minerais... e estamos atentos a como se transmite este problema a empresas e consumidores. Por um lado, reunimos regularmente e estamos em permanente contacto com operadores económicos no setor alimentar - dos importadores a fabricantes de rações e de farinha para panificação, até aos retalhistas - e por outro observamos diretamente os pontos de venda. Neste momento, a ASAE está a fazer essa observação da evolução dos preços num conjunto de pontos de venda e evidentemente registamos um aumento do preço, sobretudo de bens alimentares. O que nos parece é que este aumento tem explicação muito clara relativamente ao que é a evolução do preço dos bens de base nos mercados internacionais e a forma como chegam a Portugal. E não detetamos nenhum sinal de especulação. São observações que fazemos regularmente. Recordo que chegámos, durante a pandemia e quando havia grande procura de máscaras e álcool-gel, a aprovar legislação para limitar a margem de lucro. Foi uma figura de disciplina de mercado para evitar fenómenos de especulação - como chegou a haver, o álcool-gel esteve proibitivo, depois normalizou quando os abastecimentos voltaram a fluir normalmente e a capacidade da oferta se adaptou à procura. Estamos convencidos que é o que vai acontecer agora, e vamos ver qual será a evolução. Nesta semana, registámos já uma redução nos preços dos bens energéticos nos mercados internacionais, nomeadamente do petróleo Brent. Vamos ver como vai refletir-se nos preços ao consumidor. Mas temos de perceber que vamos ter necessariamente um aumento dos bens no consumo. Nós estaremos, usando todas as ferramentas de que dispomos, a assegurar que esse aumento reflete o normal funcionamento do mercado e não qualquer apropriação de operadores económicos. Mas não tenho neste momento qualquer razão para considerar que isso está a acontecer, pelo menos nas áreas que o METD acompanha regularmente.

Portanto, discorda do ministro do Ambiente.

Julgo que o que ele terá explicado - e não tenho que justificar... - é uma convicção de muita gente há muitos anos. Não é questão do presente momento. Mas como digo, vamos continuar a fazer observações, é o que temos de fazer e estar preparados para atuar quando haja fenómenos de especulação. Que neste momento não temos indícios de que haja.

Sendo o IVA o instrumento que o governo prefere utilizar para responder ao aumento dos preços. Quando for possível reduzir a taxa, admite manter o que está agora em vigor (descida do ISP, Autovoucher e alívio na taxa de carbono)?

A situação hoje nos mercados é excecional e houve uma valorização muito rápida do Brent, que serve de referência aos preços dos combustíveis em Portugal, muito abrupta. Nesta altura, são por isso necessárias medidas excecionais para evitar que consumidores e empresas sejam sobrecarregados. A margem de manobra do governo está limitada, porque não temos Assembleia - que permite mexer na tributação que incide sobre os combustíveis. Há uma margem de manobra limitada que temos para mexer no ISP sem mudança legislativa e é o que temos usado ao devolver ao consumidor o aumento da receita em função do aumento dos preços dos combustíveis. E vamos utilizá-la na medida das necessidades, além de outros instrumentos para mitigar o impacto nos consumidores. O mais relevante é o Autovoucher: como não podemos baixar impostos, fazemos um subsídio direto ao consumidor em função do consumo. E neste mês e nos próximos foi substancialmente reforçado em relação ao que tínhamos, de 5 para 20 euros por mês. Ou seja, foram adotadas medidas muito significativas, que refletem uma perda fiscal de 400 milhões de euros desde o final do ano passado. O que nos parece mais eficaz e direto é a redução do IVA, que até vem discriminado nas faturas que nos passam nos postos de combustíveis. Reduzi-lo traz repercussão direta no preço cobrado ao consumidor. Por isso a proposta do governo à Comissão foi de permitir que temporariamente os Estados-membros pudessem cobrar não à taxa normal mas a taxa mais reduzida. Isso terá beneficio imediato ao consumidor. Fomos confrontados há duas semanas com subidas muito rápidas do valor do petróleo para níveis dos mais altos historicamente e esperamos agora, com a redução e estabilização a que assistimos, poder ver uma repercussão no preço ao consumidor, que os preços dos combustíveis baixem nos próximos dias. Isso também permitira mitigar o impacto violento e mostrar que o mercado funciona verdadeiramente.

Portanto o novo apoio irá substituir e não acumular?

O governo tem toda a disposição para assegurar três prioridades no objetivo de enfrentar as consequências económicas desta guerra na Ucrânia. Primeira, garantir o abastecimento de bens essenciais, nomeadamente alimentares e produtos energéticos. A segunda é assegurar que as empresas mais afetadas pela subida dos preços da energia possam manter a atividade com apoios que lhes sejam dirigidos. A terceira é permitir que os consumidores, em particular os mais vulneráveis, tenham condições de lidar com os aumentos de preços.

Inevitavelmente as empresas terão de refletir nos preços que cobram aos seus clientes os aumentos de custos que estão a ter. Às vezes isso acontece tão depressa que nem há possibilidade de repercutir e é essa a questão essencial que temos de trabalhar com o setor empresarial, para ajudá-lo a gerir este momento de transição. O segundo é a questão dos consumidores. E usaremos, dentro do que são as capacidades orçamentais do Estado português, tendo em conta o enquadramento europeu que conseguirmos influenciar, a possibilidade de ajudar a gerir este contexto. Eventualmente, se a situação de segurança e militar não se descontrolar, o mundo vai conseguir gerir os impactos desta situação; nos próximos tempos vamos ter, obviamente, este fenómeno de crescimento de preços e temos de preparar consumidores e empresas e o próprio contribuinte, que é quem suporta as despesas do Estado, para fazermos face da menos má maneira possível a esta situação.

Admite que o IVA dos combustíveis possa ter de baixar até aos 6% e não apenas 13% (pelo menos para alguns setores)?

Não sei. A proposta que fizemos foi que se deixasse liberdade aos Estados-membros para fixar a taxa, liberdade que neste momento não existe, num dado período. Já mostrámos que estamos disponíveis para usar uma panóplia de instrumentos para gerir esta situação. Há pouco falámos dos instrumentos à disposição do consumidor, mas também já adotámos medidas muito significativas relativamente às empresas. Aos transportadores de mercadorias reduzimos o IUC, fizemos uma majoração dos custos com combustíveis para efeitos de IRC, para uma série de setores que não tinham acesso ao gasóleo profissional criámos um subsídio de 30 cêntimos por litro... E estamos a trabalhar com os transportadores pesados de mercadorias para ver se há apoios adicionais que possamos dar. É preciso ter noção que os impactos são grandes mas também que a capacidade do Estado português tem de ser gerida com cuidado. Não podemos distrair-nos do objetivo de redução do peso da divida pública no PIB, por isso temos de tentar ao máximo dirigir apoios àquilo que são os casos mais evidentes de impacto mais adverso. O que tentamos é evitar que ao passar por este processo não se destrua capacidade produtiva da economia, porque isto também um dia há de passar.

As empresas de transporte de mercadorias não consideram isso suficiente...

O ministro das Infraestruturas teve reuniões com representantes do setor e além das medidas que já tinham sido acordadas no ano passado houve um alargamento a um conjunto de outros setores de apoios adicionais. Estamos prontos para fazer a discussão de medidas adicionais ao transporte de mercadorias, que o ministro das Infraestruturas terá oportunidade de anunciar,

Não admite a fixação de preços máximos para a gasolina?

Temos de perceber o que estamos a dizer. E eu já ouvi que o Estado cobra impostos a mais e a solução tem de ser baixá-los - e já expliquei que temos capacidade limitada nesta altura. Já ouvi que são os operadores económicos que estão a ter lucros excessivos com esta situação - vamos ver o que sucede agora com a variação do preço do petróleo nos mercados. Já ouvi que era preciso interferir no preço... O que nos parece é que o mais importante agora é continuar as observações sobre o comportamento dos combustíveis, apoiar empresas e consumidores com a consciência de que vamos todos pagar mais caro por estes produtos nos próximos tempos. Felizmente parece haver tendência de estabilização, como também acontece no gás natural, mas sempre a níveis superiores dos de há uns meses.

A garantia de que não vão faltar alimentos nas prateleiras dos supermercados pode ser o novo "ninguém vai ter de usar máscara"?

Eu não posso garantir nada. O que posso dizer com verdade é que estamos praticamente ao dia, com os operadores no setor de bens alimentares, a observar os níveis de armazenamento em Portugal - e temos bons níveis. Como os temos no gás, somos dos países com mais stock de gás natural para as necessidades que existem. E os operadores no mercado de cereais têm estado à procura de alternativas de abastecimento de bens. Por exemplo, nós importávamos imenso milho para ração da Ucrânia e já estamos a adquirir na África do Sul, no Brasil, nos EUA... os operadores estão mexer-se. O que acontece é que se no mercado mundial desaparece uma parte substancial, o preço tende a subir. Não está a faltar e até junho - porque não há compras a mais longo prazo - não temos noção de que vá haver faltas. Pontualmente, um produto ou outro pode faltar, nos cereais para ração começarmos a usar mais cevada, nos óleos alimentares usar sobretudo para produção de alimentos e nas rações outras oleaginosas. Mas do trabalho que fazemos e do que é a observação possível nesta altura, não detetamos nenhuma falta de abastecimento, nem nos grossistas nem nos retalhistas. Não antevejo nenhuma situação de escassez.

Portugal pode vir a ser a solução para o fornecimento de gás natural ao resto da Europa? Acredita que é possível resolver a questão da ligação à França?

Julgo que sim. Já no último conselho europeu houve compromissos políticos muito significativos e a Europa percebe que tem de diversificar as suas fontes de abastecimento. Aliás, de maneira geral o gás natural neste contexto de transição energética é uma energia de transição - ainda é fóssil, mas tem muito menos intensidade carbónica do que o carvão ou o petróleo. Durante mais umas décadas teremos de o usar, enquanto as tecnologias não evoluírem para nos dar possibilidade de trabalhar com eletricidade ou gás renovável. Mas a Europa entendeu que tem de encontrar novas formas de se abastecer de gás. Ao contrário do petróleo, o gás precisa de infraestruturas pesadas - gasodutos, terminais de liquefação de gás importado por via marítima. E por isso, não só a Alemanha já decidiu construir mais dois terminais como se decidiu reforçar as interconexões energéticas entre Península Ibérica e Europa do Norte. O primeiro-ministro está também em discussões com homólogos europeus do Sul no sentido de apresentarmos uma proposta conjunta relativamente a questões energéticas no imediato e no que é por demais evidente: a necessidade de eletricidade verde, de gases renováveis (produzidos com recurso a fontes renováveis) existe e a disponibilidade estará principalmente no Sul e tem de chegar ao Norte. E para isso é preciso que a Europa invista em conjunto nestas interconexões. A decisão política está tomada e espero que se acelere a execução dessas decisões.

O que é que podemos esperar de Bruxelas na próxima semana? Há uma bazuca 2.0 em discussão ou apenas as medidas de mitigação que têm sido anunciadas?

Neste momento não se fala de nenhuma bazuca 2.0. O que precisamos de fazer já é estabelecer o quadro de referência em que podemos dar resposta ao impacto imediato da crise. Decisões que permitam aos Estados dar apoios diretos às empresas mais afetadas pelos custos da energia, fazer chegar liquidez às empresas, assegurar que temos formas de intervir nos mercados grossistas de energia para evitar que a perturbação num único setor acabe por contaminar o preço da eletricidade em toda a cadeia de valor. Repare, temos hoje na Península Ibérica, particularmente em Portugal, pouca eletricidade produzida a partir da queima do gás natural, mas influencia o preço no mercado spot. E apesar de pouca da eletricidade consumida em Portugal ser entregue no mercado spot, é ele que serve de referência para um conjunto de contratos. Isto não faz sentido com uma perturbação dos mercados como a atual. Daí a proposta de Portugal e Espanha de rever as regras de funcionamento do mercado grossista de eletricidade. Estas são as medidas mais importantes no momento, as que mais facilmente nos permitem reagir à situação. Depois, há uma questão de fundo: a Europa, perante a nova situação geopolítica, vai precisar de concretizar decisões que têm que ver com o reforço da sua capacidade industrial, diversificação de fontes de abastecimento de energia e matérias-primas, reforçar capacidades de Defesa. E estas decisões têm custos elevados. Temos de perceber qual a melhor forma de reunir os recursos financeiros: devem ser os Estados sozinhos ou deve encontrar-se uma forma de colocar em comum o modo de financiar esses investimentos? É esta a discussão de fundo a fazer e se fizermos isto com base nos recursos dos Estados nacionais provavelmente vamos agravar divergências e ter menos capacidade de reforço da Europa no seu com junto, ao passo que se caminharmos para mais integração, reforço da capacidade orçamental da UE, poderemos dar resposta mais adequada ao que são as preocupações também dos cidadãos europeus e os desafios que a Europa reclama. Há essa discussão de fundo a fazer sobre a capacidade orçamental da Europa. O primeiro-ministro desde 2017 que coloca na agenda este tema e veremos como esta discussão evolui. Mas para já não falamos de bazuca 2.0.

O secretário de Estado admitiu há uma semana o regresso ao lay-off simplificado. Há setores que já estão a parar, mas tanto o senhor ministro como António Costa vieram rejeitar essa possibilidade. As medidas já divulgadas são suficientes para evitar falências e despedimentos? Ou esta crise pode revelar-se pior do que a pandemia?

O que o secretário de Estado disse em Milão foi que, neste momento, empresas que dizem ter de parar dados os custos muito elevados que enfrentam, que dizem que operar assim é operar em prejuízo e para isso preferem parar, podem fazê-lo recorrendo ao lay-off geral, que está previsto no Código do Trabalho e está disponível. É uma ferramenta que as empresas têm para gerir crises. Acompanharemos a situação e logo veremos se há necessidade de simplificar. Foi o que ele disse. Esta situação é muito diferente dea de antes. Em março de 2020, a atividade económica parou em todo o mundo, as pessoas foram para casa, os trabalhadores estavam em casa em função de restrições que o governo ordenou, impediu-se a laboração de restaurantes, comércio, etc., e mesmo nas indústrias havia falta de procura nos mercados internacionais. Se disséssemos às empresas vão para o lay-off geral, o fluxo de pedidos seria tal que entupia antes de haver decisão. Por isso decidimos esta espécie de via verde para o lay-off, partindo de determinados pressupostos, para o aplicar fácil e rapidamente. Depois isso até foi reforçado, o valor da compensação contributiva, com menos esforço dos empregadores... e isso está em vigor no lay-off geral. Mas foi para lidar com uma situação em que não havia procura e não se podia trabalhar. A realidade agora é outra, as empresas não têm falta de clientes ou de procura, têm é os custos do processo produtivo a subir muito. Portanto, o mais razoável é apoiar as empresas para absorverem esses custos durante um período intermédio e continuarem a laborar, em vez de parar a produção.

Poderia a paragem até fazer subir mais os preços, por falta de oferta para a procura?

Pois. Portanto o que nos parece é que proteger a capacidade produtiva das empresas é ajudá-las a produzir. Para isso, precisamos que a UE nos diga se e em que medida podemos apoiar com subsídios diretos às empresas esta subida de custos da produção. Isso está em discussão na Europa, que se inclina para permitir que os Estados possam compensar parcialmente os custos de energia em comparação com os de 2021, e vamos ver qual será o desenho final deste quadro temporário de auxílios de Estado. E depois veremos como vamos apoiar - provavelmente diretamente às empresas mais afetadas pelos custos. Tenho de dizer que praticamente todas as empresas estão a pagar mais pela energia, mas não faz sentido apoiar todas, sobretudo apoiar todas por igual. Há alguns setores para os quais os custos de energia pesam mais na produção e essas é que têm mais dificuldade em repercutir os aumentos no consumidor.

Estamos a falar de transportes, indústrias pesadas, intensivas...

E cerâmicas, vidros... um conjunto de empresas para as quais a energia pesa muito nos custos de produção. Outras, infelizmente, estão a pagar mais, mas os custos pesam menos. Se calhar estão a comer-lhes margens e têm de repercutir no preço, o que pode determinar um pouco de inflação...

Ou seja, setores como o turismo não terão apoios?

Na minha convicção, o turismo é um setor de trabalho intensivo, de capital intensivo, mas não de energia intensiva. Claro que um hotel consome energia e os contratos estão mais caros, mas há possibilidade de repercutir o preço no que se cobra aos clientes. Acho que isto é claro: o Estado, quer dizer, os contribuintes, não têm capacidade de absorver a totalidade dos aumentos de custos que está a haver nos mercados mundiais e no país. Portanto há que combinar os vários tipos de apoios - por um lado, empresas com consumos mais intensivo de energia, por outro, consumidores mais vulneráveis -, mas não podemos chegar a todo o lado. Acho que a economia precisa de se adaptar ao novo contexto.

E não lhe parece que, sem apoios ao turismo, pode vir aí nova crise no setor? Ainda esta semana a TAP aumentou tarifas...

Anunciou que vai aumentar. Durante dois anos, o turismo não teve clientes, porque as pessoas não viajavam...

E por isso também não tem margens, porque não pôde funcionar...

Mas agora as pessoas querem viajar. Na BTL, o que vi de hoteleiros, agências de viagens e companhias aéreas foi que tinham reservas a entrar, não havia redução da procura em função da guerra, os preços praticados neste ano são mais altos do que os dos anos anteriores, nomeadamente na hotelaria, e isso não está a desencorajar os clientes porque o nosso produto é bom. O que a economia precisa é de clientes e seguramente este setor tem menos necessidades energéticas. Mas mais uma vez digo: temos de escolher onde aplicamos os recursos - e estou convicto que devem ir para onde a energia representa maior custo na produção.

Também vamos continuar a fazer chegar liquidez às empresas através de empréstimos de garantia estatal, o que é importante. Nós estamos a ver, por exemplo, uma empresa que tem de comprar mais matéria-prima porque agora os mercados só vendem mais quantidade, ou para aproveitar uma boa oportunidade, vai ter de mobilizar aquilo mais tempo, logo tem mais necessidade de fundo de maneio. Continuaremos a fazer chegar mais liquidez às empresas para enfrentarem isso até recuperarem os custos junto dos clientes.

Os empresários queixam-se que essa via de liquidez aumenta níveis de dívida, que é o que as empresas não precisam...

Fazer chegar liquidez às empresas não é mau. Aliás, as empresas estão sempre a reclamar linhas de crédito e a queixar-se do acesso ao crédito pelo setor bancário, particularmente em situações difíceis. Nós não vamos deixar de o fazer. E quem não quiser, quem achar que não precisa de ter crédito, ninguém o obriga a recorrer. O que acho é que temos boas empresas, com capacidade de continuar a operar e que, nesta situação difícil, terão mais liquidez do que na ausência de intervenção do Estado. Já falei dos apoios a fundo perdido, estamos à espera que a CE nos diga qual é o quadro de referência para estes auxílios do Estado. Mas também repito: isto não vai chegar a todos, nem deve chegar a todos. Empresas e consumidores têm de perceber que num contexto como este o mercado tem de se adaptar a um novo nível de custos. E isso tem impacto sobre a procura: se os bens ficarem muito mais caros, o consumo retrai-se, consome-se menos e se calhar também tem impacto sobre o investimento, há efeito de retração, mas é inevitável. O Estado está disponível para ajudar a mitigar o impacto de uma transição muito brusca com a esperança de que, apesar de tudo o que vimos nas primeiras semanas da guerra, se venha a moderar. O gás chegou a tocar os 300 €/MWh e agora está nos 100, portanto houve uma espécie de megarreação à circunstância e agora há adaptação. A que nível vai estabilizar? O que nos parece é que estará acima dos 30 que víamos há uns meses, mas também não será nos 300.

Há duas semanas, o governo acordou com os parceiros sociais a criação de uma comissão de acompanhamento desta crise, para ir adaptando as medidas às necessidades de cada setor. Quando será a primeira reunião?

Provavelmente já no início da próxima semana. A ideia é monitorizar a situação e discutir eventuais medidas de mitigação da crise. Temos já uma comissão de acompanhamento permanente da cadeia de abastecimento alimentar e agroalimentar e o que agora faremos com os parceiros sociais é replicar este fórum conjunto entre setor público e privado para acompanhar a situação.

A guerra veio alterar todo o cenário macroeconómico sobre o qual assentava o próximo OE. Quais serão as primeiras medidas a cair neste contexto de emergência?

Desde logo, o cenário macro vai alterar-se, as previsões de crescimento serão revistas em baixa. Continuamos a esperar ter um crescimento significativo... mas ainda nesta semana as previsões do Conselho de Finanças Públicas foram revistas para 4,8% em 2022, a OCDE reviu o crescimento para o mundo e para a zona euro também em baixa em 1%, portanto, nós vamos rever seguramente o cenário macro. E isso vai determinar algum impacto na receita e na despesa. Mas nesta altura não temos ideia de rever medidas. O que vai acontecer quase necessariamente é que a receita vai diminuir - estamos a reduzir impostos sobre os combustíveis - e alguma despesa pública vai ter de aumentar. Temos intenção de lançar uma nova prestação social para apoiar os consumidores mais vulneráveis. Tudo isso são medidas que vão ter impacto sobre o défice e provavelmente o resultado mais evidente será agravamento do défice para este ano.

Mas aí há alguma margem.

Sim, tivemos um comportamento das finanças públicas no ano passado muito melhor do que se esperava, um défice à volta dos 3%, o que nos dá uma margem de manobra acrescida. E fizemos no ano passado uma redução inédita no valor da dívida pública - ou seja, não só baixou muito significativamente em percentagem do PIB como houve mesmo uma redução do montante. A gestão das finanças públicas dá-nos mais margem de manobra neste ano para absorver o impacto desta crise. É isso essencialmente que está em avaliação. Temos de estar preparados e não devem ficar dúvidas nos portugueses e nos observadores internacionais do compromisso do Estado português com a consolidação orçamental e a redução da dívida pública. Mas não vamos reagir a esta crise com políticas austeritárias. Austeridade é o quê? Perante uma crise, aumentar os impostos ou reduzir despesa. O que estamos a fazer perante a crise é baixar impostos sobre os combustíveis, aumentar despesa para apoiar os setores sociais. É o contrário de austeridade. Este é o contexto em que provavelmente vamos ter de aumentar o défice.

Não ter esse aumento de despesa produziria mais encerramento de empresas e aumento de despesa em subsídios...

Isso, uma austeridade orçamental em cima de maiores dificuldades iria agravar a crise.

Tem noção de quantas empresas fecharam durante a pandemia?

Menos do que num ano normal. Todos os anos desaparecem cerca de 15% das empresas e cria-se o equivalente, mantendo o número mais ou menos constante. Em crise tendem a encerrar mais do que abrem e em expansão vice-versa, mas sempre à volta disso. O que verificámos foi que em 2020 e 2021 tivemos menos fechos e mais aberturas do que habitualmente. Fruto da capacidade de as empresas portuguesas e das medidas de política económica em vigor em pandemia, conseguimos atravessar o momento de crise sem destruição de empresas e de emprego - em 2021 tínhamos mais emprego do que em 2019. Portanto, a política económica ajudou a economia a passar esta crise. Das insolvências aos encerramentos, as coisas correram bem - não quer dizer que seja sempre assim, mas quer dizer que aprendemos qual a melhor maneira de gerir. Esta crise tem características diferentes, não sabemos também como vai evoluir, mas parece que o esforço deve ser feito no sentido de impedir a destruição de potencial produtivo, de emprego, assegurar que os setores mais vulneráveis não entram em maiores dificuldades sociais.

E será o senhor ministro a prosseguir essas políticas?

O governo funciona, portanto haverá certamente continuidade de políticas financeiras, económicas e sociais. Até porque o primeiro-ministro continuará a ser o mesmo.

Mas está disponível para seguir na Economia ou ir para o MNE, como já se diz?

Para a semana toda a gente saberá o que se vai passar.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de