Portugal recebe 2023 com folga orçamental, mas não escapa à recessão

O balanço de 2022 e as perspetivas para o ano novo na visão macro de um economista e na visão micro de um corretor.

Não são apenas as famílias e as empresas que vão sentir a subida dos juros aliado aos impactos inflacionistas nos preços dos bens essenciais, também o estado vai ver a subida dos juros da dívida em 2023, sendo esse mais um instrumento usado pelo BCE para controlar a inflação.

O país despede-se de um ano, que Filipe Grilo, professor de economia da Porto Business School, classifica de caótico, mas entra em mais uma volta ao sol, com o governo a registar uma folga orçamental para gerir em 2023, o que desperta a curiosidade deste economista quanto à forma como o executivo vai gerir esse excedente orçamental, como a vai explicar aos investidores internacionais e esgrimar estratégias sobre a política de redistribuição, quer à esquerda, quer à direita, se o cenário for de recessão.

Filipe Grilo não tem dúvidas que a recessão vai chegar a Portugal no final de 2023, a um ritmo mais lento do que noutros países europeus e ainda sob pressão do impacto económico da pandemia na China e as pressões da guerra na Ucrânia.

Para o professor, apesar do país viver num cenário próximo do pleno emprego, a variável-chave para 2023 será o desemprego, que vai depender da capacidade de resposta das empresas aos desafios económico-financeiros que se irão colocar num futuro próximo, apesar do acordo de concertação social alcançado em 2022, no seu entender, revelar agilidade do governo em antecipar eventuais cenários de risco e desincentivo ao desemprego.

Antevê o agravamento da taxa de esforço das famílias, uma vez que as taxas de juro vão continuar a subir e com a perda do poder de compra, a tensão social também aumentará, embora considere que será difícil desenhar novas medidas de apoio, para além das ativadas pelo governo em 2022, o apoio dos 125 euros dado em outubro e dos 240 no final do ano para os escalões de menor rendimento.

Num país com um tecido empresarial fragilizado e composto em mais de 90% por micro e pequenas empresas não exclui o aumento do número de falências em 2023 pelos elevados custos de contexto, como os preços da energia e além da escalada da inflação, admite que a taxa sobre lucros extraordinários para grandes empresas, poderá ter repercussão na subida dos preços de alguns produtos, m especial no setor da distribuição.

O economista não olha para o ano novo com otimismo pelo grau de incerteza provocado por fatores como a dimensão da crise Covid-19 na China que sendo a "fábrica" do mundo pode trazer novas pressões e pelo desconhecimento do rumo da guerra na Ucrânia.

No entanto, espera que Portugal passe pelos "intervalos da chuva" deste clima de crise e quer ver a execução do OE2023 (Orçamento do Estado), instrumento que classifica de pouco interessante e com meras migalhas quanto a novas medidas previstas que representam apenas cerca de 1 a 2% da despesa fixa.

Brilho de Lisboa sobressaiu no cenário negro das bolsas em 2022

A expressão 'annus horribilis' entrou de vez em 2022 na gíria de corretores, analistas e investidores do mercado de capitais, mas a bolsa de Lisboa acabou por se destacar, pelos lucros registados pelas principais cotadas, boa parte ligada ao setor energético.

Só a GALP obteve um lucro de 608 milhões de euros nos primeiros nove meses deste ano, o que representa um crescimento de 86% em comparação com o resultado líquido ajustado do mesmo período do ano passado e distribuiu 570 milhões de euros pelos acionistas dos quais 420 milhões foram pagos através de dividendos. Já a empresa mais valiosa em bolsa, a EDP pagou em 2022 cerca de 750 milhões de euros pelos lucros do ano passado. Mas estes são meros exemplos de resultados que refletem um forte desempenho operacional de algumas das principais empresas que compõem o PSI20, o índice principal da Euronext Lisboa.

Para Henrique Tomé, analista da corretora XTB o ano de 2022 fica marcado pela volatilidade agravada pelo clima de guerra que acabou por aprofundar a tendência de quedas generalizadas logo após a invasão da Ucrânia pela Rússia e que aos poucos tem dado alguns sinais de recuperação.

Ao balanço negativo que representou perdas para os investidores, não escapa o mercado dos criptoativos, abalado pela falta de confiança gerada pela falência de algumas empresas de referência no mundo das criptomoedas.

Para já, aguarda-se pelos dados do chamado "Rally de Natal", que em caracterizado a reta final do ano, pela subida do consumo que caracteriza esta época festiva e apesar dos sinais positivos que chegam da economia norte-americana, como a descida da inflação, a verdade é que a Europa continua mergulhada num clima de incerteza, sem saber quando e se vai acabar a guerra em território ucraniano, se haverá novo agravamento dos preços da energia, incluindo combustíveis e gás e quais as decisões que sairão do BCE na monitorização do Eurossistema, prometida de seis em seis semana, pelo menos, até final do primeiro semestre de 2023, de modo a determinar quais os melhores instrumentos para controlar a inflação, se passará pela venda de ativos internos, ou novo aumento das taxas de juro de referência para a zona Euro.

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