Seguradoras renegociaram quatro milhões de contratos

Seguradoras renegociaram 20% dos contratos ao abrigo das moratórias. O presidente da Associação Portuguesa de Seguradores (APS), José Galamba de Oliveira, diz, em entrevista à TSF e ao DV, que o incumprimento é residual, mas sublinha incerteza. Insiste na criação do fundo para catástrofes.

Mais de seis meses depois do início da pandemia, que alterações viveu o setor segurador?

As consequências são únicas, críticas até. Estamos a viver tempos únicos, há seis meses era impensável estarmos onde estamos. É uma nova realidade para a qual ninguém estava preparado. Mas desde o primeiro momento a resposta do setor foi excecional. Já andávamos a investir há muito em tecnologias, em novas formas de trabalhar, e isto alavancou esse investimento, pondo as pessoas em casa - a segurança foi primeira preocupação - e usando o teletrabalho para garantir a resposta à segunda preocupação, que são as responsabilidades assumidas perante os segurados, que naturalmente continuam a ter situações, a ter sinistros... Era preciso continuar a atividade com o mínimo de disrupção e esse nível de resposta foi excecional. E fiquei satisfeito porque houve uma preocupação do setor de estar ao lado das pessoas quando elas precisavam mais - muitas empresas, famílias, atividades que foram impactadas pela crise, negócios que fecharam ou reduziram brutalmente a sua atividade... Muito antes do decreto-lei que veio prever as moratórias, o setor começou logo a dar respostas costumizadas às necessidades das pessoas, revendo apólices, reduzindo ou fracionando prémios e conseguindo desde a primeira hora um conjunto de iniciativas junto dos clientes, famílias ou empresas, no sentido de entender e responder a esta situação excecional.

Há números que ilustrem esse esforço?

Em termos globais, só ao abrigo das moratórias estamos a falar em praticamente quatro milhões de contratos, que representam 20% das carteiras.

Nos vários ramos?

Sim, mas com um impacto muito significativo no ramo automóvel e nos acidentes de trabalho.

O incumprimento dos clientes aumentou?

Ainda é difícil ter uma perspetiva do que vai ser o incumprimento. O feedback dos associados é que ainda é residual, mas sabemos que famílias e empresas ainda estão ligadas a suportes de vida - os apoios, os lay-offs... Há moratórias de 60 e de 90 dias que já se venceram e foram pagas, portanto não há ainda grande preocupação. Mas há preocupação em relação ao que aí vem, porque ao entrar em 2021 há apoios que terminam, as moratórias foram prolongadas até 31 de março mas não sabemos como estão as famílias e as empresas daqui a três meses e a situação está hoje controlada, mas pode ficar aflitiva.

O confinamento trouxe uma quebra no ramo automóvel. Já se recuperou dessa quebra?

Já. Houve uma quebra muito evidente, sobretudo em abril, o principal mês do confinamento. Mas em maio já houve recuperação da sinistralidade e em agosto os números até foram superiores a 2019.

Isso prende-se com as férias feitas cá dentro e com o facto de as pessoas estarem a andar menos de transportes públicos?

Exatamente. Temos acompanhado o que acontece nos países asiáticos para tentar entender tendências e tirar alguns ensinamentos e há duas realidades visíveis. Por um lado, quem tipicamente andava de transportes passou a andar de carro - nós na APS, por exemplo, até abrimos a garagem a todos, as pessoas trabalham por turnos e facilitamos a quem quiser trazer carro, e isso tem sido a política de muitas empresas em Portugal. E depois, porque há mais gente a usar carro, também há mais pequenos sinistros - talvez sejam pessoas menos experientes a conduzir na cidade... E depois há em Portugal uma terceira realidade: o custo da reparação dos sinistros automóveis aumentou, o que se explica porque o tempo de reparação é maior - devido às condicionantes todas, a importação de peças que atrasa -, o carro fica mais tempo imobilizado e havendo mais dias de carro de substituição, tudo isso sobe o custo para as seguradoras.

Isso reflete-se no consumidor?

Não. E uma vez que naqueles três meses a partir de março o nível de sinistralidade foi mais baixo do que noutros anos, as seguradoras até estão a fazer uma análise, usando este período mais alongado para ver o impacto nas contas do ramo e algumas estão já a iniciar programas de devolução de prémios, redução de anuidades ou maiores bonificações aos clientes. Isto, claro, depende da carteira de cada seguradora, mas todas entendem que se houve uma poupança, parte dela pode ser devolvida aos tomadores de seguros.

E no que respeita a seguros Covid? Há muitos a fazê-los?

A oferta começou a aparecer agora, em junho/julho. Os seguros covid nasceram relacionados com a crise pandémica, mas sobretudo relacionados com a proteção de rendimentos, na perspetiva de poder complementar o subsídio em caso de desemprego ou de ter alguma coisa nos casos de quem não tem direito a subsídio. Mas são seguros muito recentes e ainda não temos perspetiva do grau de adesão. O que posso dizer - e que foi uma surpresa até para nós - foi que o seguro de saúde foi o único em Portugal que esteve sempre a crescer, nunca caiu. Isso é um dado interessante, tem que ver com a preocupação das pessoas com a sua saúde, pensando que vale a pena pagar algo e ter uma alavanca, não para covid mas para o caso de terem problema e poderem ter tratamento - sabemos como está o SNS...

Os números da covid estão a subir e as restrições a aumentar, o que pode agravar as consequências económicas para o país. Pode haver novas moratórias?

Sim. Fomos sondados pelas autoridades sobre a extensão da moratória no final de setembro e achámos sempre que fazia todo o sentido. A crise está longe de ultrapassada, a incerteza é grande e se chegarmos ao novo ano e estivermos num ponto idêntico ao de hoje faz sentido estender a moratória mais uns meses. Há que ir avaliando.

Os números do setor relativos a setembro revelam uma ligeira recuperação relativamente a junho. Como irá fechar o ano?

Na área vida, vamos claramente fechar com uma grande redução relativamente a 2019. Mas nos PPR, que são o produto estrela dessa área, essa redução já vinha a acontecer desde meados de 2019, devido às baixas taxas de juro. O que o PPR hoje garante é o capital, não há garantia de rentabilidade...

Isso faz perder interesse.

Muito, porque estamos a fazer uma imobilização que vai durar alguns anos - em teoria é para a reforma, mas pelo menos é de longo prazo - e aplicar a longo prazo com tão pouco juro... as pessoas desanimam. Isto agravou-se na pandemia. E vamos ter uma quebra muito grande na poupança aplicada em PPR, que ´é o grosso dos seguros ramo vida. Depois, nos não-vida temos realidades distintas: na saúde, teremos provavelmente taxas idênticas ao ano passado, à volta dos 8%, mas teremos quedas importantes nos acidentes de trabalho - a produção aqui tem muito que ver com a massa salarial e se o desemprego subir este ramo cai. E provavelmente nos multirriscos de empresas também cairá.

E no geral?

Esperamos uma grande queda no ramo vida e crescimento nulo ou queda ligeira no não-vida - entre o ramo saúde a crescer bem e os outros a cair.

Um estudo revelado neste mês conclui que os portugueses são dos que mais querem poupar para a reforma, mas não conseguem (53%). Devia haver um incentivo mais forte?

É preciso criar condições para que os portugueses poupem. Este 53% não são surpresa, porque há uma percentagem grande da população que nem paga IRS porque recebe o salário mínimo ou pouco mais - e nem é razoável pensar que tenham condições de poupar. Mas há quem possa e nós temos muitos incentivos para consumir e poucos para poupar. É preciso um conjunto de políticas públicas que fomentem essa poupança. Na última legislatura, a aposta tem sido aumentar o rendimento disponível para subir o consumo e dinamizar a economia. Mas parte do rendimento devia ser canalizada para poupar, porque um país também precisa de uma poupança forte.

Mas como?

Há várias ideias. Uma que já deu provas de funcionar em Portugal são os incentivos fiscais no momento de subscrição de PPR. Hoje o PPR já não é um produto para a reforma, tem uma aplicação média de seis a oito anos e pode ser desmobilizado por muitas situações.

Agora até por perda de rendimentos em contexto de Covid...

Sim, mas as desmobilizações não subiram desde que o decreto-lei passou a permitir isso. A questão é que temos de criar um produto para a reforma, para ficar imobilizado a muito longo prazo e em que as pessoas que o façam tenham um benefício fiscal à entrada - que perdem ao desmobilizar antes.

Têm tido contactos com o governo sobre o tema?

Sim. E o Produto Europeu de Poupança, o PEP, que está agora a nascer, pode ser uma alavanca importante para voltar a dinamizar um mercado interno de poupança. Trata-se de um produto europeu com um conjunto de características comuns a vários países e que, se soubermos trabalhar na transposição, pode ganhar em Portugal condições para, através desse produto ou outros alinhados com o rótulo PEP, ser alavancado na concertação social, junto das empresas.

Nas empresas?

É o segundo pilar de poupança europeia: utilizar a empresa para ajudar à poupança do colaborador. Se o colaborador estiver disponível, 2% ou 3% do salário serem canalizados para a poupança e a empresa colocar aí também uma parte equivalente, reforçar e com isso criar produto de poupança que vai crescendo. Alguns países que têm isso montado têm um incentivo fiscal porque a parte aplicada não é objeto de IRS. Faz sentido envolver as empresas nisso e isso ser parte de um pacote de benefícios.

Tem havido abertura para isso?

Para discutir sim, acho que já todos têm consciência de que temos um problema de poupança.

insensibilidade do Estado sobre as vantagens de um seguro que complemente a reforma, sobretudo quando temos uma população tão envelhecida?

Exatamente... Reconheço que esta conjuntura não é o momento correto para discutir isto, não em sede deste OE. Aliás, temos agora uma situação única, com taxas de poupança recorde, mas é conjuntural: as pessoas fechadas em casa não consomem - e o que precisamos agora é de criar incentivos para as pessoas voltarem a sair e consumir. Mas o problema está lá e no dia em que esta pandemia passar vamos voltar a uma poupança muito baixa e temos de criar condições, por incentivos fiscais ou com empresas ou até com ideias mais radicais.

Tais como?

Em Portugal, muita da poupança das famílias está nas paredes - a poupança é a casa. Se calhar podemos pensar em mecanismos de tornar aquela poupança líquida para quem já esteja em idade de reforma e que já não precisa de uma casa tão grande.

Vender e ir recebendo uma renda, por exemplo?

Ou trocar por uma mais pequena e ser isento de potenciais mais-valias. Há mecanismos que já aparecem lá fora para ajudar a tornar líquida a poupança que está nas paredes.

A capacidade do SNS aproxima-se do limite. Deve haver um maior envolvimento de seguradoras e privados na luta contra a pandemia e até para assegurar que as restantes doenças não são deixadas para trás nestes tempos de Covid?

Estamos alinhados com essa ideia. Este é um momento de união nacional, não devíamos estar a discutir ideologias mas como usar a capacidade que existe em proveito dos portugueses. Esse devia ser o princípio orientador. Do que se vai sabendo, durante esta primeira onda, em que os hospitais do SNS se dedicaram à covid, ficaram muitas doenças por tratar. Os números do cancro são assustadores. As pessoas não deixaram de ter situações oncológicas e outras e aqui apanhar mais tarde faz toda a diferença. Devíamos haver um esforço de todos: público, privado e setor social, que tem um papel muito importante, combinar os esforços de todos em prol da saúde dos portugueses. Estarmos a discutir ideologia nesta altura deixa-me chocado.

A saúde devia ser olhada mais numa perspetiva abrangente, que incluísse público, privado, seguradoras...

Claramente. Sou adepto do sistema nacional de saúde com os três pilares, sem pôr em causa o pilar fundamental do SNS, que é uma referência até lá fora, nem o segundo e o terceiro pilares - e o setor social é superimportante nos cuidados continuados e apoio à terceira idade. A coordenação sobre os esforços e valências de cada um num sistema integrado é o que faz sentido.

Cada vez mais nos viramos para cuidar da saúde e não da doença, para intervir nos comportamentos e na prevenção para garantir mais qualidade de vida sobretudo nos últimos anos. Como é que as seguradoras se estão a adaptar a este movimento?

O tema da prevenção vai tendo cada vez mais importância no setor e mesmo dentro da APS temos desenvolvido um conjunto de iniciativas com os associados. A prevenção é essencial, para reduzir sinistros e, no limite, termos prémios mais baixos para quem compra seguros. Se atuarmos do lado da prevenção, antes de chegar à doença, temos comportamentos mais saudáveis, pessoas que vivem mais tempo e as doenças da idade chegam mais tarde e menos graves.

Em que medida pode a evolução tecnológica contribuir para esse desenvolvimento?

A tecnologia é fundamental. Desde a utilização de wearables a toda esta digitalização de que se fala toca muito o setor segurador, não só internamente, para agilizar processos, como na interação e nos meios que podemos dar aos clientes e que podem ajudar a melhorar comportamentos e reduzir a sinistralidade nos vários ramos. Na saúde, os wearables ou a monitorização remota de pessoas; no automóvel, se as pessoas estiverem disponíveis para ter uma box no carro que mede comportamentos pode conseguir um seguro mais barato, por exemplo. Isso é uma solução que já está disponível no mercado e é tipicamente comprada por pessoas que já são mais conscientes. Há todo este tipo de ideias que hoje estão a ser trabalhadas no setor com a lógica de que vale mais prevenir do que remediar.

A criação do Fundo de Catástrofes foi muito discutida há dois anos, na sequência dos incêndios de Pedrógão. Que avanços houve?

Avançou-se, no sentido em que temos muito trabalho técnico desenvolvido e com as autoridades e a supervisão sobre a necessidade de Portugal ter um fundo deste tipo. Essa foi talvez a surpresa neste OE: esperávamos já alguma alínea ou uma autorização para trabalhar o tema e não está lá nada. Agora, na Assembleia da República, vamos insistir, porque há muito que tem de ser feito a nível técnico e legislativo para se arrancar com esse sistema. Isto não se monta rapidamente, demora um ou dois anos. E continua a ser uma urgência Portugal ter um fundo desse tipo porque o risco sísmico é muito importante neste país.

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