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crise pandémica

"Situações que nos partem o coração." Os rostos do desemprego no Algarve

Em junho a taxa de desemprego na região sul do País cresceu 232% em relação ao mês homólogo do ano passado. Há famílias inteiras sem qualquer rendimento.

Em março, quando Portugal foi obrigado a confinar devido à pandemia, o desemprego no Algarve começou a subir exponencialmente."Começaram a surgir-nos dezenas de pessoas diariamente", lembra Elsa Morais Cardoso. "Chegámos a servir 300 a 400 refeições diariamente", recorda a vice-presidente do Movimento de Apoio à Problemática da Sida (MAPS). A associação teve de se reinventar e alargar o leque de apoio a outro público que não costuma bater-lhe à porta. E chegou gente "de todos os estratos sociais".

"Começámos a receber muitos casais com dois ou três filhos, em que um dos membros ficou desempregado ou em lay off, com redução de rendimentos", conta. Com todas as contas que as famílias têm mensalmente para pagar, "essa quebra foi dramática para o contexto familiar".

Ana é uma dessas pessoas. Trabalhava há 24 anos num restaurante que encerrou. Viu-se sem chão de um dia para o outro. "Saí com uma mão à frente e outra atrás, tinha contas para pagar, dois filhos para sustentar e foi preciso pedir ajuda", conta com as lágrimas nos olhos. Para quem sempre se sustentou sozinha, pedir auxílio "custou bastante".

Ana bateu à porta do MAPS e conseguiu uma bolsa através do Governo para trabalhar nesta instituição. O apoio dura apenas até dezembro. Está a gostar do que faz e não se importava de trabalhar na área social, mas o seu futuro é incerto.

Esta instituição de solidariedade social deu igualmente a mão a José Eduardo. Este homem de 50 anos trabalhava num lar de idosos há um ano. "Fazia-lhes a higiene pessoal, dava-lhes a comida; no confinamento chegávamos a trabalhar 12 horas seguidas", lembra. Mas no fim do contrato disseram-lhe que não o iriam renovar.

"Foi um balde de água fria", afirma. A partir daí é raro o dia em que não tenta arranjar trabalho, mas, "por causa do Covid, está muito difícil", lamenta.

Elsa Cardoso garante que as centenas de pessoas que aparecem a pedir auxílio fazem-no sem mostrar vergonha. Surgem sim, conta a dirigente do MAPS "em situações de desespero e tristeza." No entanto, "ficam contentes por encontrar um sítio onde finalmente são apoiadas".

"São situações que nos partem o coração porque quando nos chega uma mãe e diz que há três ou quatro dias que não tem comida para dar aos filhos...."

Houve alturas em que a equipa desta instituição trabalhou quase 24 horas seguidas para conseguir dar resposta a todos os pedidos.

Elsa acredita que agora, no verão, algumas pessoas conseguiram recuperar trabalhos temporários mas teme o que virá a seguir. "Se calhar no fim de agosto ou setembro voltará tudo ao mesmo. E nessa altura teremos novamente situações muito complexas."

Nesta altura, a instituição apoia perto de 180 pessoas no contexto da pandemia, um problema económico e sobretudo social que está a afetar severamente muitas famílias no Algarve.

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