TAP demitiu diretor de operações de voo após alerta para riscos de segurança da reestruturação

Demissão aconteceu depois de alertas em análise de risco operacional. TAP não confirma nem desmente demissão, mas garante que está a implementar medidas de mitigação no seguimento da análise de risco.

O diretor de operações de voo da TAP foi demitido do cargo por perda de confiança da administração. A saída de Carlos Damásio do cargo foi anunciada e noticiada há cerca de duas semanas, mas até agora não se conheciam as razões e quem tinha dado esse passo.

Questionada sobre a informação apurada pela TSF de que o responsável foi demitido, a TAP não confirma nem desmente, recusando-se a comentar "temas internos de recursos humanos".

A demissão ocorreu pouco tempo depois de, no início do ano, o diretor de operações de voo ter participado numa "análise de risco operacional" que detetava uma série de riscos (nomeadamente de segurança) associados ao processo de reestruturação em curso, preocupações em parte noticiadas em fevereiro na sequência de uma comunicação interna do mesmo.

Fonte conhecedora do processo relata à TSF que, com as preocupações que têm sobre os cortes de salários e despedimentos, os pilotos da TAP sentem uma enorme pressão e podem desviar-se do seu principal foco: pilotar um avião.

A mesma fonte acrescenta que já foram detetados "desvios" na operação que denotam que os pilotos não estavam focados e que poderiam espoletar um problema de segurança.

Na mensagem interna noticiada em fevereiro pela agência Lusa, o diretor de operações de voo admitia a sua "elevada preocupação, na medida em que temos sido alheados do conhecimento da estratégia adotada desde o início do processo de reestruturação, das medidas planeadas, dos acordos firmados, dos critérios que poderão vir a ser utilizados para eventuais despedimentos, enfim, de toda a vasta informação que nos é endereçada dos mais diversos quadrantes".

"O clima atual de enorme instabilidade e incerteza em nada contribui para o exercício tranquilo, focado e seguro da atividade de voo", dizia, na altura, Carlos Damásio.

O diretor de operações de voo é uma peça fundamental numa empresa de aviação, pelo que tem de ser um nome reconhecido pelo regulador nacional do setor, sendo, no fundo, uma pessoa isenta que supervisiona não apenas o trabalho dos pilotos, bem como as condições de operação das aeronaves, com um especial conhecimento dos regulamento da aviação civil, nomeadamente na área da segurança. É responsável, entre outras áreas, pela gestão da fadiga dos pilotos e outros membros da tripulação.

TAP aplica medidas de mitigação

Questionada pela TSF, fonte oficial da TAP desdramatiza e responde que "a avaliação de riscos é uma atividade normal e permanente na indústria do transporte aéreo e a TAP cumpre as melhores práticas nesta matéria", sendo a "segurança das pessoas (clientes, tripulantes e restantes trabalhadores) um valor reconhecido e fundamental na aviação e na TAP".

A companhia aérea acrescenta que "quaisquer eventos, em curso ou previstos, que possam vir a desencadear alterações significativas com potencial impacto na segurança operacional, devem, por regulamentação, dar origem a um processo de identificação de ameaças e riscos associados, conhecido na indústria por 'Risk Assessment'. Este processo, que envolve todas as áreas operacionais, identifica proativa e preventivamente os potenciais riscos, mas também, em simultâneo, um conjunto de medidas concretas adequadas para os mitigar e respetivas áreas responsáveis".

A análise de risco concluída no início do ano foi requerida, segundo a TAP, "proativamente, pelo presidente executivo e executada pela Direção de Safety [Segurança], com a colaboração de todas as áreas operacionais, antes da conclusão da definição do Plano de Restruturação".

A administração da empresa garante que deu "seguimento à análise de risco efetuada", pelo que "a implementação das medidas de mitigação está a decorrer de acordo e sempre face aos eventos específicos, e em paralelo ao Plano de Reestruturação".

Recorde-se que a mensagem da administração noticiada a 17 de março e que anunciava a saída de Carlos Damásio de diretor de operações de voo indicava apenas a saída, sem indicação da forma como esta ocorreu ou de quem tomou a iniciativa, com a administração a agradecer, em paralelo, "o trabalho, a dedicação e o empenho que empregou no desempenho das suas funções".

Todos os trabalhadores estão pressionados

A coordenadora da comissão de trabalhadores da TAP, explica que desconhecem os motivos da saída do anterior diretor de operações de voo.

Sobre os efeitos da reestruturação no foco dos pilotos, Cristina Carrilho responde dizendo que "todos os trabalhadores, e não só o pessoal navegante, estão preocupados com a sua situação, pois vão ter uma redução salarial de 25% que deverá ser aplicada a partir deste mês, mas as contas familiares não vão diminuir, e é claro que isto vai gerar ansiedade, pressão e incerteza sobre todos. Em paralelo há as saídas de adesão voluntária e a administração fez depender da adesão a estas medidas a necessidade de despedir ou não no futuro, pelo que tudo isto cria pressão e a pressão não é boa para as pessoas se concentrarem no seu trabalho. No entanto, também sabemos que se um piloto não se sente em condições será o primeiro a dizer que não está em condições para voar". Razões que levam a coordenadora da comissão de trabalhadores a concluir que "por aí" a segurança dos voos da TAP não estará posta em causa.

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