"Temos de encontrar soluções para moratórias agora, não em setembro"

Presidente do BPI defende alargamento de prazos ou reestruturação de créditos, revela que ainda não há solução para a injeção no Novo Banco e diz que o interesse do NB no Eurobic provoca "estranheza".

O governo reviu em baixa as perspetivas para o crescimento económico. Que consequências podem surgir para o sistema financeiro e no BPI?

Não se esperava que a situação que vivemos no início deste ano - ou já desde o ano passado - não tivesse consequências no crescimento para 2021. Na nossa perspetiva, esse efeito vai arrastar-se para 2022 e 2023. Não alterámos as perspetivas de recuperação para Portugal e Europa - estamos relativamente alinhados com os dados do Banco de Portugal e o FMI, que apontam um crescimento a rondar 4% neste ano. O fator principal será o plano de vacinação em Portugal e nos mercados destino dos nossos produtos. Relativamente ao BPI, apoiamos a economia portuguesa e portanto somos beneficiados ou afetados pela forma como se comporta, mas relativamente ao que aconteceu em 2021, no primeiro trimestre, tivemos uma evolução satisfatória do negócio. Uma lição que sairá desta situação é a assimetria da economia: os setores não sofrem por igual. Mas há um fator fundamental: as pessoas, os empresários, adaptaram-se rapidamente. Se compararmos esta vaga de confinamento e pandemia com a de há um ano, verificamos que a queda não se compara. Por isso, cá estaremos para continuar a apoiar a economia e não temos para já preocupação excessiva com o futuro.

Esta recuperação mais lenta pode implicar um aumento do malparado?

Estamos numa situação de alguma incerteza sobre o futuro, num mundo novo. Mas o mais importante relativamente ao setor financeiro é o trabalho muito forte que fizemos nos últimos anos, pelo que esta pandemia nos apanha numa fortaleza de capital, solidez e liquidez muito diferente. Estamos claramente preparados para enfrentar a situação e penso que essa prudência foi muito clara na forma como todos os bancos constituíram imparidades em 2020, como forma de prevenção. Muitas das imparidades foram constituídas sem serem alocadas a créditos em concreto - um movimento claro de prudência. Essa capacidade irá amortecer efeitos que virão. É evidente que um crescimento negativo da amplitude do que tivemos até agora terá consequências, mas o importante é saber se estamos preparados para as absorver e continuar a apoiar a economia à frente. E a minha resposta é claramente que sim.

Pode implicar uma redução na concessão de crédito?

Não foi isso que se viu em 2020. E falo pelo BPI, que aumentou o crédito em 5,4%. Num momento muito difícil da economia, os depósitos cresceram 13%. Isto demonstra confiança, envolvimento com as empresas, capacidade de apoiar o que era possível nesse momento. E as moratórias foram claramente um movimento muitíssimo importante do lado dos bancos. Nós fomos os primeiros a anunciar moratórias - quatro dias após ser decretado o Estado de Emergência e dois antes dos concorrentes. Foi fundamental, porque é dinheiro imediato para famílias e empresas, é um alívio imediato nos orçamentos e uma demonstração da nossa capacidade. Se estivéssemos preocupados com situações de restrição de risco ou não estivéssemos preparados para continuar a apoiar a economia, seria muito arriscado esse movimento.

Em março terminaram as moratórias privadas. O BPI adiou quase cem mil créditos no valor de 5,6 mil milhões de euros. Qual tem sido o grau de incumprimento?

Tem sido muito baixo e de acordo com o que tínhamos previsto. Há aqui um aspeto fundamental relativamente ao comportamento de quem pediu moratórias: é que o fez por prudência. Um vasto conjunto de portugueses, particulares e empresas, pediram-nas porque não sabiam o que tinham pela frente. Felizmente, a maioria não teve problemas no orçamento, por isso teve capacidade de aforrar esse dinheiro que despenderia no pagamento do crédito - o que se verifica no aumento da poupança. O BPI tinha uma fatia significativa que vencia nesta altura e agora já só temos 16% do crédito em moratória.

De que percentagem inicial?

De 22%. Continuamos a acompanhar os clientes... Eu tenho ouvido muitos comentários sobre uma catástrofe, mas a moratória é um adiamento de um pagamento periódico que já existia. Ninguém vai pagar agora tudo de uma vez.

Mas quem teve quebra de rendimentos pode ter dificuldade em retomar essa obrigação.

E aí cá estaremos para renegociar as condições e criar condições para que o crédito venha a ser pago. As moratórias foram dadas a clientes do banco, que trabalham connosco há bastante tempo. Nessa lógica, os bancos, o BPI, estão preparados para analisar situações que advenham e encontrar as melhores soluções para cada caso. E não vamos esquecer a história do cliente.

Tem havido muitas dessas negociações?

Felizmente não tem sido necessário, há muito poucos casos.

As moratórias públicas terminam em setembro. Esse prazo deve ser alargado? Deve haver um sistema de saída?

As moratórias são um mecanismo com uma lógica de curto prazo e devem manter essa característica.

Então não deve haver prolongamento?

Há aqui outra vertente que se enquadra no sistema bancário europeu. Não é aconselhável, quer para os bancos quer para os clientes, que possam registar-se incumprimentos ou imparidades ou até reestruturações fora desse quadro.

Uma reestruturação marcaria uma situação nova no cliente, prejudicial para futuros negócios de crédito. O que eu acho é que não devíamos falar em setembro, mas sim agora. O tema é encontrar soluções agora. Os empresários vivem de expectativas e confiança, não podemos ficar à espera de setembro para ver o que acontece.

É preciso previsibilidade.

Sim. Por exemplo, os empresários do turismo, se Deus quiser, enfrentarão um verão melhor e a vacinação será um sucesso. Acontecendo isso, a atividade vai arrancar. Mas não podem ficar à espera de saber o que vai ser em setembro, é preciso medidas concretas. E penso que isso é possível, encontrar essas medidas. Tem havido diálogo nesse sentido e a curto prazo acredito que alguma coisa surgirá nesse quadro. Não devemos continuamente adiar o tema, temos de encontrar soluções mais definitivas para os problemas, principalmente para os setores mais afetados pela pandemia.

Mas essa solução pode ser alargar o prazo de setembro?

As soluções estão a ser conversadas com vários intervenientes. Mas claramente é fundamental que impliquem prazos mais alargados para o pagamento de dívidas ou que possam reestruturar a forma como os créditos vão ser pagos. É fundamental haver alguma capacidade de apoio, sobretudo a setores muitíssimo afetados. Há uma coisa que vai sair desta pandemia e que se liga a outros aspetos que defendemos: uma sociedade mais equilibrada, maior coesão e justiça social. Um dos fatores fundamentais é a defesa do emprego. Não é possível acabar uma crise deste nível e termos um aumento significativo do desemprego. Temos de fazer tudo para defender o emprego e isso passa por defender as empresas. Há setores críticos para o país e um deles é o turismo, que deve ser defendido com medidas fortes e que criem confiança aos agentes económicos para continuarem a investir em Portugal. Porque repare: Se quando isto passar você ligar para um hotel em Portugal e está fechado, vai para a Grécia ou França. E será difícil e demorado voltar a criar-se essa dinâmica que os empresários do setor conseguiram e de que hoje beneficiamos.

O turismo precisa de atenção especial?

Sim, sou muito favorável a medidas de proteção do emprego nesse setor; é muito intensivo em mão-de-obra e tem de haver capacidade para apoiar os empresários do turismo que durante este período todo estiveram sem qualquer rendimento.

Sem esses apoios criar-se-á um problema grave?

Não gosto de ser fatalista. Acredito convictamente que o governo e os atuais intervenientes encontrarão soluções à altura nos próximos tempos para resolver a situação.

Concluída a fusão entre CaixaBank e Bankia há menos de um mês, o BPI faz agora parte do maior banco ibérico, com 20 milhões de clientes. Como é que isso vai influenciar o banco?

Até agora não influenciou significativamente. No entanto, num mundo em que o nível de competitividade do setor financeiro é crescente, vai muito por investimento em digitalização, cada vez mais regulado e com investimentos fortes nessa área, ou seja, muito capital intensivo, a dimensão e know how e a capacidade de investimento são muito importantes. Por isso, vejo como muito favorável pertencer a um grupo com a dimensão nova do CaixaBank. No BPI estamos a seguir um caminho de apoio à economia portuguesa, às empresas portuguesas - nem outra coisa faria sentido -, com gestão portuguesa, regulada por um supervisor português e com um Conselho de Administração maioritariamente português. Portanto estamos muitíssimo comprometidos. Com a vantagem de estarmos suportados por alguém com um know how fantástico no setor e grande capacidade de investimento. Por outro lado, estamos ligados à Fundação La Caixa, uma das maiores do mundo em termos de obra social, que dá um retorno muito significativo à sociedade portuguesa. São 30 milhões de euros por ano em obras sociais ligadas à cultura, prémios, etc. Ainda agora ganhámos o prémio nacional de sustentabilidade em igualdade e diversidade. Esse cariz é muito importante quando procuramos um bom propósito.

A Fundação tem estado também muito presente na pandemia. Essa estratégia será reforçada?

Sim, vamos intensificar. Não falo pela Fundação mas pelo BPI - lançámos recentemente a Iniciativa Social Descentralizada, que prevê 1 milhão distribuído pelas sucursais do BPI, por instituições, e que será anual. É bastante relevante. E temos mais iniciativas, incluindo um programa de voluntariado permanente e alargado em várias vertentes, sempre com apoio da Fundação, que prevê aumentar o seu compromisso de orçamento nos próximos anos. É uma aposta de longo prazo, que vai além dos 30 milhões por ano. E o banco junta ainda iniciativas como a Emergência Alimentar, que angariou 1,7 milhões.

Além disso, os nossos funcionários prescindiram do jantar de Natal e entregámos com isso 170 toneladas de comida. Isso trespassa na cultura da instituição. Temos muito a ganhar em estarmos ligados à terceira maior fundação do mundo, com um orçamento superior a 500 milhões por ano.

Nesta semana soube-se que o CaixaBank vai eliminar 7 mil postos de trabalho. Estes despedimentos vão atingir o BPI?

Não comento nada sobre decisões do CaixaBank, mas não, não vão chegar ao BPI. Estou muito focado na gestão do BPI, em torná-lo num banco altamente competitivo, robusto, de confiança e de cariz português. É esse o meu propósito. E com este grande grupo passámos ainda a ter um administrador português - Fernando Ulrich -, o que é um elogio ao historial do BPI e que é uma demonstração de que num grupo maior de visão mais abrangente temos muito a ganhar.

No ano passado, o BPI reduziu o quadro de pessoal em mais de 200 pessoas. Chegou ao final do ano com cerca de 4600 trabalhadores. Essa tendência vai continuar?

Não há um plano nesse sentido. Já o disse: o importante é perceber a conjuntura do sistema financeiro e a primeira coisa tem que ver com o comportamento dos clientes. Nós tínhamos uma forma de distribuição do serviço que esta pandemia acelerou, um formato diferente. Isso faz que o número de pessoas necessário para distribuir o serviço seja menor do que há um ou dois anos. Mas há outras áreas que é preciso reforçar, por isso não é linear que o fecho de balcões seja igual à saída de pessoas. Vamos sempre ajustando a estrutura do banco ao que é razoável a cada momento. O que temos feito são negociações individuais - e está bem demonstrado que tem sido positivo, até pelo que conversamos com os sindicatos e a comissão de trabalhadores e pela boa avaliação interna. É o que queremos continuar a fazer: ajustes pontuais quando necessários, negociados caso a caso no interesse do colaborador.

O mesmo se aplica aos balcões, que se reduziram em 50?

Exato. No final de março, encerrámos 18 espaços comerciais e o funcionamento do banco continuou tranquilo. Temos respondido às autarquias sempre que é necessário encontrar soluções alternativas para manter contacto com populações - temos o balcão móvel, temos instalado ATM para suprir algumas dificuldades e temos sempre capacidade de manter a relação com os clientes Mas se a procura por instalações do banco é muitíssimo menor e o formato de negócio e a relação com o banco mudou, temos de nos ir adaptando. Por outro lado, temos criado balcões maiores, que absorvem muitos colaboradores de outros - até porque o volume de negócio no BPI tem crescido.

O que se espera na evolução das comissões do BPI em 2021?

Não temos plano de aumento de comissões. O que sempre fizemos foi procurar ter um nível de comissionamento adequado e somos dos que têm os níveis mais baixos do mercado. Queremos manter essa posição e neste momento não há previsão de aumentar comissões. Normalmente alteramo-las no início do ano, já o fizemos e não temos previstas mais alterações.

Faz sentido haver consolidação na banca em Portugal?

Para o BPI não penso em movimentos de consolidação. Estou focado na gestão do banco, como convém neste momento, no que é mais importante para o banco, os seus clientes e colaboradores. Relativamente a potenciais concentrações em Portugal, penso que não são possíveis no curto prazo, não vejo isso a acontecer.

Porque não há bancos com capacidade para absorver outros, mas isso era desejável ou porque não é o momento?

Não vou comentar as opções dos meus colegas, que têm as suas estratégias. Mas pelas circunstâncias que vivemos e olhando os casos à minha volta, não denoto a curto prazo interesse nesse tipo de movimento. Se mais à frente acontecerá, não sei. Há uma tendência nesse sentido na Europa. O supervisor incentiva-o, por isso é possível que venha a acontecer no futuro. Nós precisamos é de bancos fortes, capitalizados, com capacidade de financiar a economia portuguesa. Se for possível isoladamente, ótimo e proporcionamos concorrência. Se for em conjunto, fantástico na mesma. Eu já estou numa organização com dimensão e capacidade competitiva grande, por isso estou concentrado no meu barco.

Como vê o interesse demonstrado pelo Novo Banco (NB) no EuroBic? Terá levantado o caderno de encargos.

Vejo com bastante estranheza que alguém que está sob resolução, com esforço muito significativo dos principais concorrentes todos os anos, até 2046, entre numa posição de compra de outro banco. O meu sentimento é de estranheza.

O BPI está disponível para continuar a financiar o Fundo de Resolução?

Sim, se fizer sentido.

O Fundo de Resolução já injetou 3 mil milhões no NB. O sistema financeiro já chegou a acordo com o governo para encontrar uma solução para a injeção deste ano?

Não.

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