"Terá peso nas famílias". Seguradoras querem portugueses a pagar fundo sísmico

Presidente da Associação de Seguradores defende que fundo sísmico seja pago por donos de imóveis. Custo indicativo de 25 a 70 euros para casa de 150 mil. Alterações climáticas podem encarecer seguros.

Em 2018, o setor segurador lucrou 466 milhões de euros. As 76 companhias existentes empregavam mais de 10 mil pessoas, contando com 19 mil mediadores, e contribuíram com mais de 760 milhões de euros para as contas públicas.

Em 2019 não houve catástrofes naturais de grande dimensão. Sendo um setor sensível a este tipo de eventos, a APS propôs ao governo a criação de um fundo sísmico de 8 mil milhões de euros. Há resposta do governo?

É um processo que já leva uns meses. Apresentámos uma proposta para criar um fundo para mitigar o risco sísmico em Portugal. Esses 8 milhões são a capacidade inicial de financiamento para uma situação de catástrofe. São temas que levam meses, às vezes anos, porque implicam alterações legislativas.

Mas não foi ignorado?

Não. E, se olharmos além da supervisão financeira que se discutiu na última legislatura, lá está acautelada a necessidade da criação de um fundo para o risco sísmico. Porque isto, para o sistema financeiro, é também um problema. O número de casas em Portugal com cobertura de risco sísmico é muito baixo, apenas 16%, e muitas estão dadas como garantia aos bancos, associadas a crédito à habitação - os bancos também têm interesse que essa cobertura esteja garantida. Acredito que nesta legislatura haverá condições para voltar a debater o tema e operacionalizar a ideia.

Essa dotação inicial seria feita por quem? Qual seria a contribuição do setor para o fundo?

Numa fase inicial, será alimentado pelos prémios associados à cobertura do risco sísmico. Numa fase inicial, em todas as casas com seguro multirriscos - obrigatório em todos os prédios em propriedade horizontal - essa cobertura passará a ser obrigatória e a componente do custo do seguro associada a esse risco entrará neste mecanismo. A cobertura vai alimentar o mecanismo que queremos montar e as seguradoras com estes montantes vão comprar resseguro internacional. Esta capacidade é assegurada pelas grandes resseguradoras internacionais...e é paga através de uma contribuição que vem dos prémios adicionais pela cobertura obrigatória de risco sísmico. Isto para as famílias tem obviamente um peso adicional, mas para um seguro com capital de 150 mil euros, dependendo da zona do país e tipo de construção, pode variar num custo anual entre 25 e 70 euros mais. Estamos a falar de dois, três, quatro euros por mês adicionais em relação ao que já pagam para um seguro multirriscos ou um seguro de incêndio.

As contas públicas não teriam de contribuir?

No mecanismo que preconizamos, os primeiros 8 mil milhões seriam garantidos pelos resseguradores internacionais. Obviamente, num evento muito catastrófico com montantes acima disso, o Estado podia ser chamado a intervir, mas acima desse valor.

De que prejuízos estamos a falar se houvesse um sismo de grandes dimensões em Lisboa?

Felizmente não temos tido essa experiência em Portugal.

Mas a ciência diz que vai acontecer, não sabemos é quando...

A probabilidade de uma catástrofe como a de 1755 - com prejuízos incalculáveis - é muito remota, mas podemos ter sismos de dimensão significativa. Se houvesse uma catástrofe em Lisboa como o de há 50 anos, os estragos seriam grandes, mas esses 8 mil milhões cobririam grande parte das situações. Numa situação muito catastrófica não há seguro que valha, temos um problema como país.

O tema das alterações climáticas tem condicionado a atividade seguradora?

Seguimos esse tema com grande proximidade, aliás o setor foi subscritor do Acordo de Paris e, com o Ministério do Ambiente, da carta de compromisso do investimento sustentável. É preocupação de todos melhorar as condições do Ambiente. Em Portugal isso é muito claro, temos situações catastróficas: grandes incêndios, inundações e tempestades mais frequentes. Vê-se o número e severidade dos eventos a crescer nos últimos 40 anos. A situação em 2017 foi nova para o país, não estávamos preparados. No fim do dia, se os riscos são maiores, os seguros vão tender a ficar mais caros, porque o custo está associado ao risco e à probabilidade de ocorrer. Se estes eventos se tornam mais frequentes, todos assumimos mais responsabilidades. Isto pode tornar os seguros mais caros e, no limite, até haver património que hoje é segurável e que pode deixar de ser. Quando o risco passa a ser uma certeza deixa de haver cobertura.

Certo é que os seguros vão ficar mais caros e simultaneamente haverá mais necessidade de fazer seguros...

Os seguros baseiam-se em estudos de todos estes fenómenos e tendências. Se estes eventos se tornam mais frequentes, a tendência é que haja aumento de preços. Isso preocupa-nos, porque os seguros têm de continuar a ser acessíveis às pessoas - é um dilema a resolver. Por isso é tão importante pôr travão nestas tendências do clima.

Uma das estratégias passa pelas novas formas de mobilidade: cada vez menos carros próprios, mais trotinetes, bicicletas, motos partilhadas... Como é que se estão a adaptar a isso?

São as dinâmicas da sociedade. Há tendências que vieram para ficar e a mobilidade urbana está em grande transformação, as pessoas estão à procura da proteção do condutor, independentemente do meio.

O seguro tenderá a ser nominal, mais do que cobrir o bem?

Exatamente. Há novos tipos de seguros a nascer, em que a pessoa está segura, usando agora a bicicleta, mais logo a trotinete e à noite o carro. São novos produtos e ofertas que estão a ser desenvolvidos.

Um dos grandes problemas que o país enfrenta é o envelhecimento da população, com consequências a vários níveis e em particular nos custos com a saúde. O setor está a preparar-se para isso, por exemplo, nos cuidados continuados e paliativos?

É uma tendência que nos vai condicionar muito. Temos um problema de natalidade em Portugal, vivemos cada vez mais e temos um país envelhecido, e isso traz novas dinâmicas e grandes desafios. Se olharmos para o que pode ser Portugal daqui a 20 anos - a população pode reduzir-se em 20% -, é um desafio tremendo para a atividade económica e o crescimento. Nós temos uma certa dimensão de apoio social e as necessidades de uma população envelhecida são diferentes, temos de nos ir adaptando. E o tema da saúde é crítico. Nos temos mais um problema: estamos na média europeia da longevidade, mas a partir dos 65 anos, a nossa qualidade de vida é muito diferente da dos nórdicos. Temos mais doenças crónicas, obesidade, cancro, etc., que nos países mais desenvolvidos aparecem mais tarde na vida.

Faria sentido haver uma espécie de PPP de seguros que complementasse as pensões?

Hoje temos os seguros de saúde que funcionam em complemento ao SNS. Outra dimensão do problema é como se complementa as pensões. Nós temos um problema com a Segurança Social e daí a importância de se criar poupança adicional, que complemente as reformas. É importante passar a mensagem de que quanto mais cedo as pessoas começarem a poupar mais preparadas estão para enfrentar o envelhecimento. Uma pessoa que se reforme em 2050 poderá ter uma quebra de rendimentos de 50%. Um complemento é importante e o setor segurador tem produtos específicos para isso.

Ao nível da prevenção, há algum tipo de aposta, por exemplo uma visão preventiva, com maior vigilância para prolongar a qualidade de vida?

O setor está muito apostado no lado da prevenção, até porque quanto mais cedo se apanha determinadas doenças maior a probabilidade de tratar e mais barato. Há companhias que oferecem os check-ups para tentar mais depressa perceber quais os potenciais problemas que a pessoa pode ter, por exemplo. Além do esforço grande que está a ser feito em monitorização remota de sinais vitais e indicadores de saúde. Temos população que vive isolada, longe de hospitais e há muita tecnologia remota que permite comunicar através de pequenos devices com sistemas de alerta integrado.

O acesso aos dados também coloca um problema: nunca como hoje as seguradoras tiveram tanto acesso a informação sobre tantas pessoas. O risco pode condicionar o seguro? Devemos preocupar-nos com a maneira como os dados são tratados?

O setor lida com dados de saúde há muitos anos, é informação sensível e uma questão reputacional e isso é levado muito a sério. O tratamento dessa informação é o estritamente necessário para dar respostas ou assumir responsabilidades. Depois há informação estatística, mas o seguro existe porque mutualiza o risco: criam-se perfis em que todos pagam um bocadinho para alguns poderem usufruir em momentos de necessidade. Há um limite do qual não podemos passar, se não matamos a indústria. Mas no dia em que escolhermos segurar este e aquele não por causa do risco, deixamos uma grande fatia da população de fora.

Isso já acontece um pouco, os seguros vão-se tornando mais caros, quando o risco é maior...

É o risco do coletivo que é maior. Há um conjunto de pessoas tratada como um coletivo que tem determinado perfil e naquele coletivo há probabilidade de ocorrência de algumas doenças. Mas nunca se baixa a análise ao indivíduo, porque não faz sentido, aí não há mutualização do risco e as seguradoras perdem a razão de existir.

A Autoridade da Concorrência puniu um cartel nos seguros com uma multa recorde. É possível confiar no setor quando há estas notícias de combinações de preços e atividades ilegais?

Isso envolveu, salvo erro, quatro companhias, e foi analisado, investigado. Mas não ajuda à confiança, põe em causa a reputação do setor, por isso fazemos questão de estar sempre de acordo com a lei, seja ela a europeia, a da concorrência, a da regulação. As leis são para cumprir, porque isso tem que ver com a essência e a história do setor. Infelizmente, há situações que fogem do nosso controlo. Acredito que é uma situação ultrapassada e que o país pode continuar a confiar no setor.

As maiores seguradoras em Portugal são detidas por capitais estrangeiros. Seria desejável ter mais companhias de acionistas portugueses?

Isso acontece porque boa parte das companhias era detida pela banca e os bancos tiveram necessidade de se desfazer de ativos. Houve um lado positivo para as seguradoras, porque criaram alguma independência estratégica, menos ligada ao grupo bancário. E com grande parte a pertencer a grandes grupos internacionais também se consegue trazer mais conhecimento e troca de experiências, know how internacional. Por outro lado, estes grupos têm uma capacidade de investimento muito grande: as seguradoras estão numa fase de grandes investimentos. Até para alavancar as novas potencialidades da digitalização da economia, das novas tecnologias, e estão a acontecer coisas muito interessantes que vão facilitar o contacto com os consumidores e em princípio todos vamos ter uma forma mais ágil e fácil de interagir com as seguradoras. Não acho que não haver uma grande seguradora portuguesa seja um problema. Até é uma vantagem. A capacidade de investimento e esta ligação internacional têm trazido mais-valias.

Em 2018 o setor lucrou 466 milhões. Como será neste ano?

Estamos a ter um ano de crescimento de 8% relativamente ao ano passado no ramo não-vida. O ramo vida está a decrescer em relação aos últimos dois anos.

Porquê?

Tem que ver com este ambiente de taxas de juro muito baixas. Os PPR, que eram o produto por excelência do setor, são pouco atrativos, porque as seguradoras já só garantem o capital e não conseguem dar taxas de rentabilidade. A oferta não é atrativa - a banca tem o mesmo problema com os depósitos a prazo. Não temos grandes catástrofes e isso é bom, mas as taxas de juro muito baixas penalizam a área vida. Portanto, vamos ter um ano mais difícil em termos de resultados - quão mais? É prematuro avançar.

Portugal tem vivido um boom do turismo, com a valorização do imobiliário associada. De que forma tem o setor segurador notado este movimento?

A carteira de imobiliário dentro dos investimentos do setor - que é um grande investidor, com mais de 50 mil milhões - é uma pequena percentagem. Aí, não tem uma influência muito grande nas dinâmicas do mercado, ainda que tenha entrado em alguns negócios na perspetiva de rendimento de médio-longo prazo. A preocupação, enquanto investidor, é sempre a de aplicar a longo prazo. Temos obviamente uma carteira de investimentos que é grande, que tenta rentabilizar. E têm de ser investimentos muito estáveis - uma boa parte aplicada em dívida pública portuguesa, mas também em empresas de infraestruturas com muito boa qualidade de ativos. O imobiliário é uma área de investimento e algumas têm tentado entrar, desde que depois consigam uma renda que ajude a compensar este ambiente de taxas de juros muito baixas na Europa nalgumas componentes da sua carteira. Nomeadamente na dívida pública, onde hoje se consegue tirar muito pouca rentabilidade e estão a complementar com outros ativos. Tendo sempre em consideração que é dinheiro relacionado com responsabilidades assumidas e não se podem correr riscos, ou seja, não se investe em bolsa e não se compra hoje para vender amanhã....

E notam os efeitos da recuperação económica do país?

Claramente. Especialmente na área não vida, que é muito ligada à atividade económica: se a economia cresce, a área não-vida cresce. Porquê? Há mais gente a trabalhar - a área de acidentes de trabalho tem crescido acima dos 10% nos últimos três anos -, vendem-se mais automóveis, logo mais seguros, o crédito à habitação recuperou... Na área vida também se conseguiu alguma recuperação nos PPR, graças a alguma disponibilidade acrescida das famílias, venderam-se bastantes em 2017 e 2018.

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