Luís Araújo, presidente do Turismo de Portugal nos estúdios da TSF em outubro de 2021
A Vida do Dinheiro

Turismo. "Instabilidade afeta a imagem de qualquer país mas temos capital de confiança"

Presidente do Turismo de Portugal, Luís Araújo, não teme o impacto do chumbo do Orçamento do Estado no sector. Papel da TAP pode ser desempenhado por outros? "Trabalhamos com o que temos em cima da mesa."

O chumbo do Orçamento do Estado para o próximo ano pode prejudicar o turismo?

Temos bons indicadores de que o turismo continua a crescer, principalmente a procura estrangeira. Se isso continuar, se continuarmos a apostar no que são os nossos valores e ativos enquanto destino, vamos conseguir recuperar.

Esta crise política não vai prejudicar a recuperação do turismo?

O que sentimos, e os indicadores que temos vão nessa linha, é que há muita procura pelo destino Portugal. Do ponto de vista da conectividade aérea - há que ver que dependemos dois terços de turistas estrangeiros - está a correr muito bem. Esse é o nosso objetivo e foco: continuar a aposta da retoma.

A retoma está imune à crise?

Diria que um estrangeiro não está muito interessado no Orçamento.

Se me pergunta enquanto cidadão, obviamente que é uma preocupação. Mas acredito que continuaremos a fazer o nosso trabalho no setor do turismo para retornarmos àquilo que foi a atividade em 2019.

Este chumbo do Orçamento pode ter consequências no Plano Reativar o Turismo (PRT)?

É um plano com 6 mil milhões de euros para seis anos, até 2027. E tem quatro pilares: gerar negócio, estruturar a oferta ou torná-la mais resistente - nomeadamente com apoios às empresas, que representam 50% do PRT -, tem a componente da segurança no consumidor e também nas empresas e uma parte importante da construção do futuro. É um plano com fundos e verbas não só do Turismo de Portugal mas também do novo quadro comunitário e do Banco de Fomento. Não está dependente diretamente do OE. O plano marcha a bom ritmo e acredito que vai ser implementado até 2027.

Como é que está a execução?

Das 52 medidas do plano, à volta de 80% já estão em curso. Algumas já estão concluídas. Lançámos recentemente o Portugal Events, linha de apoio à realização de eventos, com 5 milhões. O Banco de Fomento lançou o Plano Retomar com mil milhões de euros de apoio às empresas. Há o Clean and Safe, versão 2.0, um conjunto de campanhas que estão a ser lançadas e vão continuar nos próximos anos. O PRT é um plano que tem vindo a avançar - as medidas possíveis - mas muito a ser construído com as regiões. Tivemos reuniões com praticamente todas as CCDR. E estamos a fazer já a segunda ronda porque muitos dos fundos vêm do próximo quadro comunitário. Esta é a altura de alinharmos estratégias e sinergias para implementar algumas das medidas. Por uma razão: o crescimento que queremos para o setor é diferente consoante as regiões.

Nem o chumbo do OE afeta a imagem de Portugal nem faz perigar a recuperação do turismo?

Qualquer situação, e vemos isso do ponto de vista de comunicação internacional, que gere instabilidade afeta a imagem. Mas acredito que temos muito capital de confiança enquanto destino, que vamos continuar a trabalhar e reposicionar e a reconquistar as preferências dos mercados internacionais, que é o que nos preocupa agora.

2022 será já de normalidade?

A recuperação dos níveis pré-pandemia nas nossas estimativas está prevista para 2023. E 2019 foi o melhor ano de sempre enquanto destino turístico: 27 milhões de hóspedes, 18,4 mil milhões de euros de receita, tivemos a taxa de sazonalidade mais baixa de sempre.

Como vão as empresas do setor?

O que se fez ao longo dos últimos 20 meses de investimento e com um conjunto de linhas de financiamento (2,7 mil milhões de euros) para estas empresas foi para manter a capacidade de resposta quando essa procura voltasse. Estamos a sentir que está a voltar. Os indicadores são muito positivos. Até agosto, já temos crescimentos comparativamente com 2020. Ainda estamos longe de 2019. Regredimos à volta de cinco anos em termos de receitas, mas acredito que até ao final do ano vamos conseguir cumprir o objetivo de ter 50% das receitas que tivemos em 2019: à volta de 9 mil milhões.

Este trimestre vai ser forte?

Acho que vai. Estamos muito dependentes do que aconteça nos próximos meses no controlo da pandemia e situações noutros mercados mas a resposta está ser extremamente positiva.

As empresas têm capacidade para manter a chama acesa?

O que sempre dissemos foi: isto é uma situação transitória, os nossos ativos continuam aqui. Muitas empresas até aproveitaram para fazer pequenas obras e reestruturações para responder ao mercado do futuro. Os resultados estão a ser positivos. Temos desafios pela frente, alguns até decorrentes da pandemia, como a questão dos recursos humanos.

Mas são desafios que estamos a trabalhar em conjunto. O que sempre houve foi um diálogo permanente (...) com associações e empresas para tentar dar as respostas possíveis às situações mais necessárias. A resposta foi muito positiva, vemos isso porque temos muitas empresas já a retomar negócios, o que é importante.

O programa Adaptar Turismo já esgotou duas vezes as verbas. Devia ser mais alargado?

O programa Adaptar era uma das medidas previstas no PRT, que iniciou com 5 milhões e passou para 10 milhões. Foi a resposta possível no momento. Há outras medidas previstas no PRT para apoiar as empresas, mas não só, para gerar negócio e construir o futuro. Acredito que com outras possibilidades e oportunidades vamos conseguir dar respostas às empresas.

Antes da pandemia, o setor tinha um problema de falta de recursos humanos. Mantém-se?

Esse problema continua e a questão dos recursos humanos tem de ser vista muito para lá daquilo que é a questão do vencimento ou da formação. Temos três aspetos que têm de ser acautelados. Um tem que ver com questão demográfica: em toda a Europa temos uma população cada vez mais envelhecida. É preciso solucionar a questão demográfica. A segunda com a qualificação de recursos humanos e a aposta na formação, que é essencial. A terceira com a atratividade. Atratividade que tem que ver com a componente de benefícios, com as pessoas olharem para o turismo como uma maratona que precisa de investimento mas que também tem um retorno positivo.

A reestruturação da TAP pode implicar perda de slots. Que efeito pode ter para o turismo?

A TAP tem um papel importantíssimo no turismo nacional, isso é uma certeza absoluta. Temos trabalhado muito com a TAP nos últimos tempos, mais do que antes.

Refere-se à nova administração?

À nova administração. Tínhamos muitos contactos com a anterior mas temos muito mais com esta. O sucesso da TAP é também o sucesso do turismo nacional, mas há outras companhias aéreas com as quais trabalhamos e outras oportunidades que tentamos e conseguimos captar.

Vou dar um exemplo: a Ibéria tem ligações pela primeira vez do hub de Madrid aos cinco aeroportos nacionais. Pela primeira vez, inclui Lisboa e Porto no programa Stopover para passageiros que chegam a Madrid. Isto é que é importante: trabalharmos com todas as companhias para todos os aeroportos nacionais, para reativar a confiança.

O papel da TAP no turismo pode ser feito por outra companhia?

O trabalho que fazemos é com o que temos em cima da mesa e o que temos é uma companhia como a TAP, que tem tido um papel importantíssimo, nomeadamente no reforço das ligações com EUA e Brasil, que é essencial. Para nós, é muito positivo ver a retoma das rotas e da capacidade aérea da TAP também nas ligações que são feitas com Portugal a nível de ligações a diversos mercados. É com isto que trabalhamos e temos feito um esforço enorme com todas as companhias aéreas.

A TAP apresentou o plano para o inverno IATA e traz mais voos do que no verão, as previsões de rotas e frequências respondem às necessidades do turismo? Voar para o México faz sentido?

Como presidente do Turismo de Portugal, digo o que sempre dissemos: as rotas que não têm como objetivo final a captação de turismo para Portugal ou desembarque de turistas aqui não é nossa prioridade. E não vou entrar se não é importante para o plano de desenvolvimento da companhia. Para mim o que é importante são as ligações que são feitas e estimular que essas ligações sejam um sucesso.

Isso significa que voos para o Brasil e EUA são bem vistos mas para outros destinos não tanto?

Voos que trazem turistas para Portugal são voos positivos e bem-vindos. Se me perguntar se preferíamos ter um voo para a Cidade do México em vez de Cancun, acho que a resposta é óbvia.

Há ainda o problema do aeroporto de Lisboa, que pode demorar 20 anos a fazer - é o que diz o chairman da ANA. A fatura que o turismo paga por estes atrasos pode condenar o setor?

O problema não é o aeroporto. É a discussão sobre ele. Se tivéssemos um novo estaríamos bem posicionados do ponto de vista da competitividade. Como sabemos, temos uma porta de entrada principal do ponto de vista aéreo, que é Lisboa. Uma segunda opção seria sempre muito bem-vinda do ponto para reforçar capacidade aérea.

Mas o nosso trabalho não está dependente da existência ou não de um segundo aeroporto. Ainda há espaço para crescer nos outros aeroportos, em determinadas épocas do ano e do ponto de vista das receitas.

No caso específico de Lisboa, não haverá consequências graves com esta demora?

O que lhe digo é: Lisboa poderia crescer muito mais se já estivéssemos com planos de arranque para o novo aeroporto. Não nos podemos esquecer que muitas companhias aéreas decidem as movimentações com algum tempo de antecedência. Quanto mais depressa tivermos aeroporto a funcionar mais competitivos seremos.

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