"Vacinação devia assegurar tratamento ao turismo para recuperar mais depressa"

Diretor da NOVA SBE defende que os setores mais afetados devem ter tratamento especial na vacinação para acelerar a retoma. Daniel Traça acredita na recuperação mas é preciso prolongar apoios.

Daniel Traça é desde 2015 diretor da Nova SBE, a antiga Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa. Está numa posição privilegiada para analisar os efeitos da pandemia na economia e no ensino.

Foi divulgado o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) na semana passada. O plano está bem desenhado?

O PRR permite pôr em prática uma estratégia que teve de ser definida rapidamente - o que não é bom, porque é sinal que não havia um plano. O grande foco está no Estado, no investimento controlado pelo Estado e na sua capacidade. O Estado em Portugal tem de ser capacitado para funcionar melhor e dar mais qualidade de serviço aos cidadãos, mas era importante que houvesse também uma reforma mais transversal.

Em que sentido?

O problema do Estado não se limita às competências, todos os incentivos para a coisa pública funcionar têm de ser melhorados. Teria sido interessante que houvesse uma reforma na capacitação mas também transformação na forma de funcionar, que o tornasse capaz de entregar mais valor, com mais avaliação, medidas para atestar a qualidade, uma lógica de melhoria contínua. O Estado tem uma função fundamental no país mas isso não passa só por gastar mais, construir infraestruturas, há uma parte de funcionamento que podíamos ter envolvido aqui para que este dinheiro gerasse mais retorno. Do lado das empresas o investimento não é muito e elas têm de ser parte fundamental na transformação e no futuro do país, nomeadamente na sustentabilidade e na digitalização - as grandes áreas do plano. Todo este dinheiro, mesmo entregue ao Estado, vai ser gasto e as empresas beneficiarão disso, a economia vai aquecer com esta despesa pública. Mas esta lógica de ser a despesa do Estado a levar dinheiro às empresas revela falta de estratégia. O mecanismo multiplicador não distingue que empresas, com que objetivos e para que tipo de transformação vai o dinheiro.

Vão chegar muitos milhões de Bruxelas a fundo perdido. O que deve o governo fazer para garantir transparência?

Passa por duas questões. Uma é a legal, a fraude. Estes fundos vão ser distribuídos de forma diferente, à cabeça, e os agentes que os implementarem terão de entregar resultados. A parte mais interessante da transparência aqui é a medição de resultados. É fundamental que a lógica de entrega destes fundos seja acompanhada por execução (gastar e de forma limpa) mas também que permita saber que impacto essa utilização teve. Outra dimensão interessante seria ter mais métricas do que é o sucesso, o que queremos fazer. Daqui a uns anos quando avaliarmos o resultado e medirmos o impacto, responsabilizar quem distribui e quem recebe fundos pelo impacto conseguido.

E deviam chegar mais depressa e diretamente às empresas?

Uma maioria destes fundos devia ser destinada a uma visão estratégica do tecido empresarial. Nessa lógica deviam ser entregues diretamente a empresas que mostrassem capacidade e vontade de se transformar. Devia haver uma visão estratégica: que setores são fundamentais, que tipo de empresas. A forma de entregar devia ser rápida, mas quem recebe devia mostrar os resultados da utilização dos fundos, como melhoraram ou se transformaram e que impacto causaram. Isto tem que ver com a forma como todos funcionamos. Ainda não vejo isso no PRR, mas cabe-nos dar esse feedback.

As ajudas de emergência às empresas foram bem desenhadas?

Foram medidas bem pensadas e o facto de estarmos com uma taxa de desemprego de 6,8% resulta disso, é um excelente resultado na crise. Conseguimos algum sucesso, do ponto de vista de manter o tecido empresarial vivo, só adormecido. Mas há formas mais rápidas de fazer isto. Os sistemas ao início foram demasiado burocráticos, o dinheiro demorou muito a chegar, tinha muitas regras... Nos EUA, o governo passa um cheque e envia por correio. Temos de ser mais rápidos e não estar preocupados com processos incrivelmente burocráticos, se não o dinheiro não chega às pessoas e acaba por ser desperdiçado. Isto também justifica a tal noção de o Estado funcionar melhor. E devia estar no PRR.

Em 2020 o desemprego ficou nos 6,8%, como diz. Isso indicia uma mais rápida recuperação?

A taxa de desemprego é um excelente indicador, o mais importante. Vivemos uma crise terrível, que afetou alguns setores de forma brutal. Os empresários da restauração têm ainda uma situação muito complicada e que merece apoio e ajuda. Mas esta crise é de adormecimento, a economia adormeceu. O grande desafio é assegurar que, quando voltar a estar em condições para funcionar, o tecido empresarial não se deteriorou, os trabalhadores não se separaram das empresas, as máquinas não deixaram de funcionar.

A economia está no ventilador.

Exato, e temos de ser capazes de reagir e rapidamente. A taxa de desemprego mede isso: os trabalhadores estão junto das empresas, mesmo que inativos e com as empresas a passar dificuldades.

Acredita que haverá um boom de consumo quando as coisas normalizarem?

Estou convencido que sim - se olharmos para a velocidade da recuperação do segundo para o terceiro trimestres de 2020, é impressionante. Assim que a pandemia abranda as pessoas voltam a sair e a querer gastar. E no terceiro trimestre do ano passado ainda houve imenso receio. Quando a vacinação tiver efeito e as pessoas sentirem disponibilidade para voltar a sair, teremos esse efeito. A poupança está a aumentar, logo a queda do consumo foi muito maior do que a do rendimento. E há um efeito psicológico enorme. As duas coisas juntas vão criar uma oportunidade. Mas é preciso que a economia esteja pronta para reagir. Para isso temos de manter apoios, fazê-los chegar rápido e não achar que podemos abrandar porque já falta pouco. Há que preparar a oferta para quando a procura surgir.

As moratórias acabam em setembro. Devem prolongar-se?

Vamos ter algumas a acabar já em março e era importante avaliar o impacto desse levantamento, aprender com isso para quando vier setembro. Se chegarmos à conclusão de que a degradação do nível de crédito das pessoas, o risco que vai criar, vai gerar problemas que começam no setor real e depois transmitem um enorme problema para a banca, então vamos ter de gerir. Temos de assegurar que toda a economia - banca, trabalhadores, empresas, Estado - está pronta para reagir. Isso pode exigir apoio durante mais tempo.

A incerteza tem sido apontada entre os maiores problemas nesta fase. Devvia haver um calendário do desconfinamento?

Um plano é fundamental. Eu dirijo uma escola com muitos alunos estrangeiros, temos exames, as pessoas têm de planear. Passar do confinamento geral ao desconfinamento total exige tempo, planeamento e capacidade de ajustamento. Por outro lado, há a dimensão emocional: estamos todos afetados pela situação, os surveys que fazemos revelam-no. Uma esperançade futuro seria fundamental para devolver ânimo, ou teremos consequências na motivação e na produtividade. E na saúde mental.

Até quando poderá o BCE manter as atuais políticas de ajuda?

A grande questão terá que ver com até que ponto a inflação retoma e na Europa não há muitos sinais disso. Enquanto a inflação não subir, não há razão para o BCE ser demasiado precavente. Mesmo porque nós sabemos bem lidar com a inflação para baixá-la, mas temos mais problemas em criar inflação.

Se a vacinação correr bem, acredita que conseguiremos anular os efeitos económicos destes primeiros meses ainda em 2021?

Se a vacinação correr bem e se os apoios a que a economia se mantenha adormecida mas pronta a acordar, não vamos recuperar estes meses mas teremos um segundo semestre já de recuperação. Este é o foco fundamental: assegurar que o segundo semestre seja de absoluto recomeço. E se conseguirmos o efeito verão nos setores mais fustigados por esta crise - restauração e hotelaria, que precisam de voltar a trabalhar - estaremos no bom caminho. Isso depende também de como corre a vacinação lá fora: correr bem na Alemanha e em Inglaterra é bom para nós.

O governo terá de rever o cenário macroeconómico e as metas para as contas públicas deste ano. Será uma revisão ligeira?

Correndo as coisas melhor do que nos primeiros dois meses, não penso que seja pesada. Mas há algo que me preocupa. Estamos num ano muito especial, de pandemia, e isso resultou numa queda forte do PIB - que afetou a receita fiscal - e num aumento grande da despesa do Estado. Estes efeitos desaparecerão assim que a pandemia acabar. A economia recupera, os custos deixam de ser necessários e o défice volta a ficar controlado - o défice e o aumento da dívida em 2020 e 2021 é algo que pagaremos nos próximos anos. O que me preocupa são aumentos do défice que não acabam com a pandemia. Era importante olhar o défice não no seu agregado - porque um ano de pandemia é especial e deve ser visto como tal - mas vendo em detalhe a despesa permanente que não vai poder ser cortada e será financiada com mais dívida e impostos. E que será difícil voltar a descer. Depois da descida na última crise, desde 2016 repusemos quase todos os funcionários públicos que tinham saído. Essa despesa é permanente e terá de ser paga.

A pandemia vai ter efeitos permanentes na economia?

A pandemia terá consequências estruturais. Não são muitas, mas haverá. Nós hoje encomendamos para comer em casa como nunca, os restaurantes têm de olhar para esse choque e preparar-se. O futuro não será igual ao passado. Esta transformação digital muito acelerada na pandemia vai viver-se nos restaurantes, nas escolas, nas viagens de negócios e em muitos setores. As empresas estão sob enorme pressão para sobreviver, mas é fundamental essa transformação digital e que as empresas estejam atentas a essas mudanças estruturais e a como delas tirar partido. O mundo vai mudar e os primeiros a ajustar-se vão ser ganhadores.

E o teletrabalho é para ficar?

Espero que sim. Estar em casa confinado é insuportável, mas algum tempo em casa permite melhor qualidade de vida sem afetar a produtividade. Isto vai exigir dos líderes das empresas capacidade para pensar à frente. A pandemia vai alterar a forma de estar e cabe a quem está a frente do Estado e das empresas pensar como as mudanças estruturais afetam o negócio e ajustar-se rápido. Quem não pensa já no futuro, está no passado.

E o ensino também mudou?

Sim. Houve um ajustamento ao digital nas escolas, no secundário, nas universidades. O que sentimos é que não haverá um momento Netflix - em que de repente vem uma disrupção e não deixa espaço ao que se fazia antes -, porque os alunos querem ir ao campus, às aulas, estar juntos, e sofrem quando não podem, mas ao mesmo tempo há capacidade de trazer mais digital para algumas partes que os alunos preferem, que baixam custos e ajuda a entregar mais capacidade pedagógica e e aprendizagem. Temos de preparar já essa mudança.

O sucesso do país no primeiro confinamento permitiu atrair alunos estrangeiros à Nova SBE. Esta terceira vaga pode ter o efeito contrário?

Se conseguirmos que a vacinação resolva o problema até setembro, não. Neste momento é essa a expectativa por isso não há ainda preocupação maior. Mas se demorar mais terá consequências. A imagem de Portugal ficou afetada com o que se passou em dezembro e janeiro.

Qual foi evolução dos alunos estrangeiros na NOVA SBE?

Há dez anos, eram residuais, uns 5%. Agora, nos mestrados, os programas mais internacionais, 54% dos alunos são estrangeiros - a maioria alemães (30%), depois italianos e outros. Isto demonstra a capacidade do país de usar o seu lifestyle como vantagem competitiva. E cria mais uma oportunidade na pandemia. É importante ver onde somos fortes e como podemos construir sobre essa força. Portugal é um bom sítio para estar e trabalhar. E hoje, com a deslocalização do trabalho e a capacidade de as pessoas trabalharem fora da empresa, torna-se ainda mais possível captar este talento para se basear aqui.

Neste confinamento os alunos estrangeiros voltaram para casa?

Muitos voltaram, cerca de 20%... Por isso é terrível não se falar de desconfinamento, porque é preciso tempo p se ajustar. E sabemos que estão emocionalmente sob imensa pressão - fizemos um survey e 150 alunos pediram-nos apoio.

Que tipo de apoio?

Psicológico. Também financeiro - e tentámos encontrar forma de ajudar -, mas sobretudo psicológico. Os alunos estão confinados, emocionalmente instáveis, muitos voltaram para casa, toda a questão dos exames online gera enorme desconfiança. Precisamos de uma visão de quando isto vai terminar.

As interrupções e alterações ao ensino terão implicação na formação dos alunos?

Não tenho dúvidas. Tenho filhos no secundário, alunos na universidade e não tenho dúvida de que em casa a dificuldade de se focarem é um problema enorme. Isto terá efeitos. Se irá depois refletir-se na economia e na produtividade é cedo para dizer, podem recuperar nos próximos anos, mas o grau de aprendizagem em casa não é o que têm na escola.

As escolas deviam abrir rapidamente?

Deviam ser a primeira parte, mas também devia, nesta lógica da vacinação, olhar-se para o setor do turismo e restauração e assegurar que essas pessoas tivessem um tratamento que lhes permitisse voltar mais depressa.

Deviam ser vacinados prioritariamente?

Talvez.

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