A investigadora que quer curar o Alzheimer, para que não caiam os ramos da memória

A investigadora Luísa Lopes coordena a equipa que venceu o Prémio Mantero Belard 2018, atribuído pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, pelo estudo sobre uma proteína e a doença de Alzheimer.

Luísa Lopes sempre quis ser cientista mas foi um professor de neurobiologia que ditou a área de especialização. "Achava fascinante a sua forma de dar aulas e eu acho que foi isso que me levou um bocadinho para as neurociências".

Um estágio final com o professor determinou o percurso pelas neurociências. Depois da licenciatura em bioquímica, doutorou-se na área da memória, fez um pós douramento na Suíça e tem dedicado a carreira a estudar o envelhecimento precoce do cérebro.

"Nós queremos muito perceber porque é que passamos de uma fase normal, ou seja, em que há um envelhecimento normal, para uma fase de perda de células. Porque essa sim é irreversível", explica a investigadora.

A equipa de Luísa Lopes quer olhar para a perda de neurónios e perceber quando agir para evitar a perda de memória. "Os neurónios são como árvores, têm ramos e um sinal de que não está muito bem é que começam a perder esses ramos mas não perdem ainda a árvore, o tronco da árvore. Quando perdemos o tronco, é que ela já não volta. Ao perder os ramos, há vários fármacos que conseguem reverter esta perda deste desbaste. Se intervirmos nesta fase é o ideal".

Uma das grandes questões da ciência é tentar perceber as razões para determinadas pessoas estarem mais expostas a doenças que afetam os neurónios do cérebro humano mas a equipa do Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes decidiu olhar para os fenómenos e emoções que contribuem para essa perda de memória e perceber porque são fatores de risco.

"Temos feito muito trabalho em relação ao stress crónico. Situações de traumas extremos podem ou não aumentar esta vulnerabilidade. E, de facto, parece poder e nós temos alguns trabalhos neste contexto. Portanto, situações de pessoas que não podem adaptar o ritmo biológico ao ritmo do ambiente, ou seja, pessoas que trabalham por turnos. E essas pessoas normalmente têm queixas cognitivas. E há trabalhos muito importantes nesta área, como por exemplo enfermeiros, profissionais de saúde, profissionais de segurança ou o pessoal das companhias aéreas", refere a investigadora.

Mas se toda a gente enfrenta stress diário Luísa Lopes quer entender quem corre o risco de ter um envelhecimento precoce da memória. A equipa não quer olhar para os efeitos agudos do stress no cérebro mas antes entender as marcas deixadas no hipocampo. "Nós queremos usar essas pistas. Se nestas situações conseguimos ainda recuperar com alguns fármacos, como é que podemos extrapolar isso para uma situação em que possamos proteger da morte solar, da doença neurodegenerativa".

A equipa coordenada por Luísa Lopes e constituída por cientistas portugueses, franceses e alemães conseguiu perceber, através de testes de laboratório, que a cafeína pode retardar perdas de memória associadas ao envelhecimento. "Temos trabalhado muito com análogos da cafeína. Sabemos que diminui o risco da doença de Alzheimer, sobretudo nas mulheres. A evidência é muito forte que isso acontece mas não sabemos muito bem como é que isso acontece. O que nós fazemos no laboratório é usar uma série de fármacos que são mais seletivos que a cafeína. Ou seja, têm menos efeitos secundários. Têm menos efeitos noutros recetores".

Este trabalho continua em desenvolvimento mas teve um ponto alto quando foi publicado na conceituada revista Scientific Reports, do grupo Nature em 2016.

Prémio Belard 2018

Entretanto, a equipa começou a trabalhar num novo projeto que tenta perceber qual a função das proteínas sinápticas. "A sinapse é a zona mais dinâmica dos neurónios, é a zona na qual eles comunicam. É uma zona que está sujeita a grande atividade e tem de recuperar ao longo da vida. Como é que estas proteínas na sua forma normal, no envelhecimento dito fisiológico, se comportam. E esse projeto tem muito esta ideia de vamos estudá-las, vamos perceber que modificações subtis elas têm no envelhecimento e que nos possam dar pistas para a neurodegeneração".

Foi com com este projeto - "Utilização de novos modelos baseados no envelhecimento para elucidação de mecanismos de patogénese da doença de Alzheimer" - que a equipa de Luísa Lopes concorreu ao Prémio Mantero Belard 2018, um dos Prémios Santa Casa Neurociências. O prémio de 200 mil euros trouxe à equipa de investigadores muitas razões para continuarem o trabalho.

"Ficamos super orgulhosos porque o projeto não só é prestigiante - sendo um prémio avaliado por um júri internacional que nós respeitamos muito, para nós é um orgulho - mas também pelo montante financeiro. Não são montantes assim tão usuais em Portugal e é particularmente elevado para uma bolsa portuguesa e é para um projeto de três anos. Permite-nos contratar pessoas, comprar equipamento, comprar os consumíveis de laboratório, permite pagar toda a investigação neste período".

Com uma equipa de sete pessoas Luísa Lopes trabalha todos os dias no Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes para abrir novos caminhos para a pesquisa e tratamento da doença de Alzheimer.

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