25 de Abril. Rio picou o Governo, a esquerda avisou e a direita contestou

O que disseram os partidos na sessão solene em que se ouviu a carta de um pai ao filho de 18 anos e (várias) críticas ao populismo.

Numa sessão em que uns justificaram e defenderam a cerimónia no Parlamento e outros contestaram o formato da sessão, Rui Rio saiu do guião do consenso em tempos do novo coronavírus para deixar uma farpa ao Governo : "Mais importante do que planear a presença de governantes nos jornais e nas televisões para publicitarem, a toda a hora, o que fizeram e o que não fizeram, é planear a resposta do país a uma eventual segunda ronda da Covid-19."

Um recado repetido pelo líder social-democrata, depois da sessão, numa referência ao "otimismo do PS e da esquerda que dizem que não haverá austeridade".

"Até parece que alguém gosta de austeridade, só quem não estiver bom da cabeça", ironizou Rio avisando que é melhor "prevenir do que remediar" porque "a economia não aguenta, não aguenta mesmo", uma segunda vaga.

O cenário pós Covid-19 passou por todos os discursos, com a esquerda a insistir no aviso contra a austeridade.

Jerónimo de Sousa, de cravo vermelho na lapela, avisou sobre os "tempos difíceis" , avisando que o PCP não vai aceitar "o discurso da inevitabilidade do corte dos salários, das pensões e dos direitos"

Já depois da sessão Catarina Martins deixava também claro que a resposta para sair da crise tem de ser "o avesso da austeridade".

"Tendo o BE toda a disponibilidade para amplas maiorias que tirem o país da crise, temos também uma escolha e a ampla responsabilidade da escolha, a nossa é no avesso da austeridade", avisou a coordenadora do Bloco. Já na sessão, o deputado Moisés Ferreira tinha rejeitado desenterrar a "velha cartilha" da austeridade.

E José Luís Ferreira dos partido ecologista "Os Verdes" disse esperar que "Depois do Adeus", isto é, depois de se achatar a curva desta pandemia, que nos viremos para outros achatamentos e para outras curvas. Porque é preciso achatar a curva das desigualdades".

A democracia e os "populismos"

A cerimónia no Parlamento serviu de pretexto para retomar a defesa ou o ataque à democracia atual.

A líder parlamentar do PS lembrou que "um parlamento que se deixasse sequestrar pela demagogia estaria a defraudar Abril".

"Acaso poderíamos nós deputados estar em outro local que não no parlamento para assinalar os 46 anos do 25 de abril? Não podíamos", rematou Ana Catarina Mendes"porque a democracia não está suspensa".

Na intervenção, a líder da bancada do PS avisou para " outros demónios já conhecidos: xenofobia, fechamento nacional e medo", sublinhando que é preciso "impedir a exploração do medo como arma política".

Em jeito de antecipação, André Ventura do Chega tinha afirmado, pouco depois do início da sessão: "Populismo, dizem eles mas é a mesma conversa desde que pusemos o cravo ao peito".

O líder demissionário do Chega defendeu a necessidade de "uma nova madrugada" que traga um "novo regime" porque "este já não serve".

"Hoje celebramos o fim de uma ditadura e o início de um regime democrático mas, porque não dizê-lo, precisamos de outro, precisamos de outro", disse Ventura que não tinha na bancada qualquer cravo vermelho.

"Pode não ser correto, pode não ser politicamente aceitável, pode nem ser moralmente viável, mas hoje é o momento em que há uma força política nesta Assembleia que diz: o 25 de Abril não esqueceremos, mas queremos outro, queremos outra democracia, e queremos outra república, queremos a quarta República portuguesa", defendeu o deputado único do Chega.

O que pensaram os partidos do discurso de Marcelo

Em tempos que Rui Rio considerou de "excesso de emotividade", o líder do PSD elogiou nas palavras de Marcelo Rebelo de Sousa, a função de "acalmar e puxar à racionalidade".

No elogio do PS ao Presidente, o secretário-geral adjunto José Luís Carneiro considerou que a intervenção" valorizou os elementos essenciais" da presença dos deputados na Assembleia da República, nesta data: "a liberdade, a justiça social e o país europeu que trouxe valores culturais, sociais e económicos, consolidando a vida democrática".

Pelo PCP, o secretário-geral Jerónimo de Sousa deu uma no cravo e outra na ferradura: admitiu que "teve significado" a forma como o Presidente deu "importância" à sessão mas sublinhou a divergência em relação ao estado de emergência.

Telmo Correia do CDS tinha dito, durante a sessão que "o partido não aceita "lições de democracia de ninguém" e que ao avançar com a sessão, mesmo em formato diferente, "o poder político está a dizer que permite para si mesmo aquilo que proibiu aos portugueses". Depois de ouvir Marcelo Rebelo de Sousa, o líder parlamentar centrista ironizou que o "CDS disse em três minutos o que muitos portugueses pensam, o senhor Presidente da República procurou explicar, em muitos mais minutos, o que muitos portugueses não compreendem".

Pela Iniciativa Liberal, João Cotrim Figueiredo, insistiu que um outro formato de sessão "reforçaria o simbolismo de uma democracia que em tempos de crise e emergência se saberia adaptar e inovar".

Igualmente crítica do formato da sessão, a líder parlamentar do PAN Inês Sousa Real considerou que "à democracia, de pouco ou nada servirão cerimónias e demais simbologias, que se mostrem alheadas das aspirações e preocupações das pessoas".

"Não há donos da democracia", tinha avisado na tribuna.

Uma carta de pai para filho

Pelas sessões solenes do 25 de Abril costumam passar poemas (hoje por lá passaram Sérgio Godinho, José Mário Branco, Luis Sepúlveda e claro, Sophia), mas nunca se tinha ouvido a carta de um pai ao filho que completa 18 anos, no dia da Revolução.

Foi a forma que o deputado João Cotrim de Figueiredo da Iniciativa Liberal escolheu para lembrar, às nova geração que "graças ao 25 de Abril e ao 25 de Novembro, nasceste num país democrático e livre, mas a liberdade que verdadeiramente interessa não é a dos países, é a das pessoas e não há verdadeira liberdade enquanto não houver igualdade de oportunidades e possibilidade de escolha",

Ao mesmo tempo que lamentou que a sua geração não tenha deixado um país à altura das ambições dos mais novos, Cotrim de Figueiredo defendeu que "é possível mudar".

"Um beijo do teu pai, que te deseja um dia, e uma vida, livre e muito feliz", rematou, já emocionado, o deputado em estreia parlamentar, tendo merecido o aplauso de deputados na bancada do PSD, entre eles Rui Rio.

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