À porta do congresso comunista só há pão com chouriço ao pequeno-almoço

Em Loures, um dos concelhos com maior incidência de Covid-19, quase tudo destoa da azáfama gerada por centenas de congressistas do PCP.

Para chegar ao Pavilhão Paz e Amizade passa-se às portas do Hospital Beatriz Ângelo. O movimento nas ruas é fraco, não se vê vivalma sem máscara. Num dos concelhos com maior incidência da Covid-19, quase tudo destoa da azáfama gerada por centenas de congressistas do PCP.

"Loures parece uma cidade do interior, aí pelas 6 da tarde as pessoas começam a desaparecer... e ninguém come pão com chouriço ao pequeno-almoço". A queixa é de Jorge Soldado. Chama-se "O Saloio", a rulote multifunções que tem estacionada mesmo de caras para o Pavilhão Paz e Amizade. A rulote serve para fazer pão, tem um forno a lenha, um balcão de metal e ainda serve para Jorge e Manuela descansarem quando não há freguesia.

"Anda aí uma grande miséria, as pessoas até vão roubar às hortas. Aqui, o pão com chouriço sai mais à noite. Há quem leve um ou dois, coma uma sopinha e pronto, está jantado".

Jorge Soldado não concorda com a realização do congresso comunista num meio de tanta restrição, mas ao mesmo tempo também gosta de ver a cidade mais animada, com momentos que parecem de outro tempo, do outro tempo.

Uns quantos estabelecimentos mais acima, não há que enganar, "eles bem dizem que não há festa como esta!...". Joaquim não se conforma, abre os braços a abarcar o tanto espaço livre que lhe sobra no snack-bar, "eu tenho espaço para mais de 30 pessoas e só posso ter 15. Eles metem lá centenas e servem aos 150 almoços de cada vez".

Parece que Joaquim tem andado a falar com Filomena, a dona da pastelaria que se segue. "Eu já tive a minha sogra internada nos cuidados intensivos, tive o meu enteado internado nos cuidados intensivos. O hospital está como está, o concelho está como está... e os comunistas morriam se não pudessem fazer o congresso agora?"

Como muitos moradores de Loures, Filomena veio do Alentejo há muito tempo. "Eu não me queixo de não ir à terra no Natal, não me queixo do recolher obrigatório, nem de ter de fechar cedo. Temos de dar cabo disto. Mas não percebo porque é que uns se esforçam e outros podem passar ao lado!"

"Uma joia de moço", é como Artur descreve Bernardino Soares, o Presidente da Câmara de Loures. Não é raro passar aqui a tomar um café, até porque a sede do PCP local fica no primeiro andar do mesmo edifício. A simpatia de Artur esgota-se ao chegar à questão do congresso, "sei que legalmente têm direito, mas acho que moralmente não deviam fazer. Se é para uns devia ser para todos".

Talvez a pensar que "se é para uns, quem sabe pode ser para alguns outros", Jorge Soldado confessa que ainda não desistiu, "ainda não foi oportuno, mas estou a ver se lhes peço para me deixarem trabalhar à tarde". Afinal a rulote funciona ao ar livre, não serve bebidas alcoólicas e está quase encostado ao pavilhão do congresso. Dava muito jeito, é "que as pessoas não comem pão com chouriço ao pequeno-almoço".

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