"Ver cinema português em Portugal é quase impossível." PCP trava batalha pela cultura no OE

Líder comunista considera situação laboral do setor do cinema "dramática" e acusa o monopólio da distribuição de excluir o cinema português das salas nacionais.

Jerónimo de Sousa, no final do encontro com produtores, realizadores e técnicos de cinema, referiu-se às negociações sobre o setor da cultura no Orçamento do Estado como um "embate" que tem de ser feito desde já.

"Enxoval que não vá com a noiva tarde ou nunca aparece. Ou seja, se não se conseguir travar uma batalha de reforço do investimento, financiamento e das verbas do Orçamento do Estado ficamos cheios de razão, com a consciência tranquila porque apresentámos todas as propostas que pudemos, mas enfim... 'não passaram, paciência'. Não, nós temos de travar a batalha já agora", assegurou.

O secretário-geral comunista alertou para a existência de "expectativas" sobre o OE e os "milhares de milhões" que vêm da Europa, mas apelou para a necessidade de parte deste dinheiro servir para dinamizar o setor da cultura, já que esta é "sempre maltratada".

PCP critica monopólio no setor

Jerónimo de Sousa critica a falta de uma política pública forte que proteja a cultura e culpa o "domínio monopolista de grupos privados" pela falta de cinema português nas salas de cinema, apesar do reconhecimento internacional.

Na conversa com profissionais da área do cinema, o secretário-geral do PCP realça a "instabilidade laboral" do setor da cultura, que é marcada pela "precariedade e incerteza no futuro", com "salários não valorizam as condições artísticas" e onde a "maioria dos trabalhadores [está] a falsos recibos verdes".

"A pandemia tornou ainda mais clara esta realidade, com suspensão, paragem ou adiamento de gravações", apontou, realçando "situações dramáticas" que muitas vezes levam ao "abandono da profissão por necessidade de sobrevivência".

Jerónimo de Sousa trouxe para a discussão a ideia de que o cinema em Portugal é controlado por uma empresa de de distribuição de comunicação, sem nunca referir, mas apontando o dedo à NOS. "Há uma estrangulação da distribuição", disse, culpando um "grupo económico que é um dos maiores operadores da televisão de cabo e que tem quase a totalidade das salas de cinema das grandes cidades".

Assim, exclui-se uma "parte significativa do país" e promove-se o "consumo massivo de produtos e muitas vezes subprodutos de origem norte-americana", "marginalizando origens, linguagens e estéticas", o que "inviabiliza grande projeção do cinema português". "Acesso em Portugal [a esse cinema português] é praticamente impossível", reitera.

O líder comunista lembra que o cinema português "circula em festivais onde é reconhecido", mas muitas vezes não chega aos portugueses.

Mais ainda, Jerónimo de Sousa considera que o domínio por parte de uma só empresa verifica-se também na "influência nas políticas públicas", com "júri que definem as produções e que recebem apoios públicos" e aponta também o dedo ao Estado.

"As medidas tomadas pelo Governo para desmantelar a função pública têm reflexos num setor que dispunha já de recursos muito limitados", nomeadamente o ICA (Instituto do Cinema e Audiovisual) ou a Cinemateca, acusou o líder do PCP, frisando que as "diretivas e imposições da UE, a submissão e a perda de soberania" prejudicam o setor.

É preciso, enaltece, um "serviço público da cultura" que "defenda a produção nacional" e não crie "limites à criação do cinema".

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