"Achei sempre que a Geringonça ia até ao fim"

Assunção Cristas considera que a estabilidade política conseguida com a "gerigonça" teve um custo. Em entrevista à TSF e DN, a presidente do CDS-PP

Surpreendeu-a a solidez desta Geringonça? Das Esquerdas Unidas, como lhe chama?

Não. Eu devo ter sido das poucas que, desde o princípio, achei que isto iria chegar até ao fim. Por uma razão simples. Quem chega ao poder da forma como chegou não o vai largar. Quem conseguiu fazer o equilíbrio e a volta para - tendo sido rejeitado nas urnas, pelas pessoas, e tendo perdido as eleições - conseguir criar uma maioria para governar, obviamente é alguém capaz de fazer tudo o que é necessário para exercer o poder e para manter. O mérito deste governo é ter dado estabilidade política, já disse António Costa. O demérito é o custo a que isso foi feito. Adiou reformas do país, a possibilidade de se trabalhar completamente diferente. Lá está, por isso mesmo, eu acho que o importante nesta fase é dizer às pessoas o que faremos com os votos delas.

Se soubesse o que sabe hoje teria perdido Pedro Mota Soares no combate da primeira linha?

Eu tenho pena que não possa continuar, mas era algo que nós estávamos completamente apostados em ele fosse eleito para Parlamento Europeu, onde faria um extraordinário trabalho, mas eu conto com ele sempre na primeira linha da ação política. Às vezes nós dizemos que o CDS tem um problema de ter poucas pessoas fora do Parlamento. E agora o Pedro Mota Soares vai poder fazer isso e eu acho que ele fará de forma brilhante.

Foi acusada pelo porta-voz do movimento Tendências, Esperança e Movimento, do CDS, de autismo na escolha dos candidatos a deputados para as eleições legislativas e de pouca democraticidade interna. Sente que os seus críticos internos estão a começar a mexer, a antever um mau resultado eleitoral?

Não. fico espantada com esse reparo, porque, pela primeira vez no CDS houve aprovada em Conselho Nacional um conjunto de critérios claros para a escolha dos deputados, houve uma definição daquilo que é a quota nacional - aliás, de forma bastante contida para aquilo que tinham sido outras situações no passado, e, uma valorização das distritais para poderem fazer as suas próprias escolhas. E é isso que nós faremos, muito brevemente, aprovando a todas listas finais, em Conselho Nacional. Mas, enfim. Nos partidos políticos há sempre quem diga bem e quem diga menos bem e quem diga mal. E eu acho que o meu trabalho é precisamente ouvir, responder quando é de responder, mas, sobretudo manter um rumo de grande abertura e de grande democraticidade, se quiser, e de novidade.

Não receia que um mau resultado eleitoral - e já vamos a outras considerações que esse resultado eleitoral poderá ter - possa vir a empurrar o partido mais à direita como estes críticos tanto pretendem?

Eu trabalho todos os dias para que tenhamos um bom resultado eleitoral. E é isso que eu vou fazer, empenhadamente sem sequer estar a olhar para as críticas. Vejam esta questão da travessia do Tejo: trouxemos uma proposta muito concreta, queremos abrir a navegação do Tejo a todos que queiram fazer aquela travessia e depois as pessoas escolhem. O que nós não podemos ter é uma solução como esta. Em que há duas empresas públicas, que trabalham, que não são capazes de prestar um bom serviço e há gente que não consegue ir trabalhar. E talvez aí nós consigamos ter um país diferente. De resto, há outros temas que eu acho que são muito importantes e que o CDS, mais uma vez, ficou a falar, de alguns casos, sozinho. Vou-vos dar um exemplo, a corrupção. Nós, logo no início, apresentámos várias propostas. Uma delas tinha a ver com o lobby, com a regulamentação do lobby...

Que foi chumbada.

Que foi chumbada no final. Ao fim de quatro anos à espera foi chumbada. Mas temos propostas novas, por exemplo, reforçar o estatuto do arrependido em todas as fases do processo ou, por exemplo, trazer uma figura nova que é a do denunciante. Protegendo quem denuncia práticas de corrupção, protegendo na sua carreira, dando garantias de que não vai ficar sem o seu emprego.

Que é uma proposta muito próxima, não sendo a mesma coisa, do conceito delação premiada.

Estamos a falar de pessoas que não cometeram nenhum crime. Para isso há o estatuto do arrependido, que eu acho que deve ser reforçado.

Nenhum líder político antes de eleições faz.. gosta de fazer cenários para o pós eleições. Mas, a pergunta é, acho que é relativamente fácil de responder. Tem alguma linha vermelha quanto ao resultado do CDS nas próximas legislativas? Na sua cabeça. Para a sua continuidade, até como líder?

Tenho uma ambição clara. Que é conseguir que o CDS retome uma dinâmica de crescimento. E acho que isso se faz trabalhando muito e explicando muito, a todo o país - eu acho que há um país mais adormecido, menos atento - que há outras de fazer as coisas.

Não vai responder, pois não?

Não, vou-lhe dizer que acredito que há um país que se revê nestas medidas do CDS, em baixar 15% o IRS, uma licença de maternidade de um ano - aliás, de parentalidade - em que se revê na possibilidade de termos creches - rapidamente se forem contratualizada com o setor social e com o setor privado, aproveitando a capacidade existente, que se revê em consultas, que, lá está, quem tiver ADSE pode ter mas quem não tiver ADSE ou não tiver um seguro privado de saúde ou não tiver dinheiro no bolso não pode ter. Eu, com toda a franqueza, não acho que sejam três ou quatro ou cinco ou seis por cento do país a compreender estas propostas e aderirem a estas propostas.

Mas, por isso mesmo. Se não houver essa adesão há que tirar elações dessa não aderência ao seu projeto.

Eu falo com muitas pessoas e acho que as pessoas estão com muita vontade de ouvir estas propostas...

Muito recentemente, escreveu um livro chamado "Confiança", e no qual relata uma parte do seu percurso, também pessoal sobretudo a sua transição da Academia para o Partido. E, mais uma vez, nesse livro afirma-se feminista e defensora dos direitos das mulheres. Como é sê-lo num partido conservador como o seu e que, aliás, está a começar a demonstrar esse conservadorismo nas críticas que lhe faz?

Olhe, eu sou a mesma professora universitária, ministra, deputada e líder do CDS, sou sempre a mesma. E a primeira coisa que eu sou é casada e mãe de quatro filhos. E isso marca-me profundamente e, portanto, quando eu me candidatei à liderança do CDS fui muito clara em relação à forma como eu me posicionava em relação a muitos assuntos, e alguns que eu sabia que eram sensíveis dentro do partido, por exemplo, a questão das quotas para as mulheres, e aí aquilo que eu faço é muito simples: o Partido pensa maioritariamente de uma outra forma, eu, e acho que mais pessoas, porque mais pessoas também vão aderindo a esta visão, pensamos de outra, eu não obrigo ninguém a pensar como eu também peço que não me obriguem a mim a pensar se calhar como um domínio mais maioritário. Hoje, o que sinto é que muitas pessoas, ou por constatação, ou por convicção, vão começando a perceber que, se calhar, este caminho não é assim tão estranho. Num País em que 52% das pessoas são mulheres é muito pobre prescindirmos dessas mulheres em todas as áreas da nossa sociedade. Acho que é mesmo desperdiçar riqueza, experiências, visões, sensibilidades complementares. Tenho-me empenhado muito em puxar por mais mulheres. E se calhar, há muitos temas que o CDS tem trazido para cima da mesa, natalidade, proteção aos mais idosos, rede de cuidadores... Faz falta essa atenção mais focada das mulheres. E, por isso, eu sou uma adepta de um partido que tem muitos homens, e são ótimos, felizmente, e tem muitas mulheres, às vezes menos visíveis, e que também são muito boas. E precisamos de mais.

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