PSD escolhe líder depois de campanha que não chegou bem a aquecer

Luís Montenegro ou Jorge Moreira da Silva: um deles vai ser o próximo presidente do PSD e a escolha está nas mãos de cerca de 44 mil militantes. Antigo líder parlamentar leva vantagem teórica, mas Moreira da Silva acredita que o que aconteceu em 1985 pode voltar a repetir-se.

PorFilipe Santa-Bárbara
© Rodrigo Cabrita (arquivo)

"Eu já não faço apostas": estas são as palavras que saem da boca de um militante do PSD que é, uma vez mais, chamado a decidir uma nova liderança e que, se contássemos com os apoios dos mais altos dirigentes distritais, já tinha um vencedor pré-anunciado que se chama Luís Montenegro. Mas como a história do PSD é rica em reviravoltas, até ao anúncio dos resultados, ninguém põe as mãos no fogo.

Foi assim nos últimos anos, com Paulo Rangel ou até com Luís Montenegro. Tinha-se criado a ideia de que os apoios locais declarados seriam suficientes para derrotar Rui Rio, mas na hora H foi o ex-presidente da Câmara do Porto a vencer. É nisso que também se fia Jorge Moreira da Silva que ainda vai mais atrás na linha do tempo: maio de 1985.

Ao longo da campanha, inclusive no encerramento, Moreira da Silva lembrou o Congresso da Figueira da Foz quando Cavaco Silva entrou para tirar o lugar que parecia destinado a João Salgueiro. Até ao fim, o ex-diretor da OCDE acredita na possibilidade de vitória, ainda que alguns apoiantes confessem, à boca pequena, que estão cientes das dificuldades que é impedir o triunfo de Montenegro.

Ouça aqui as explicações

Your browser doesn’t support HTML5 audio

Do lado do candidato de Espinho, a vitória está na mente de todos, mas o pé no acelerador durou até ao fim. Numa volta pelo país em que, de facto, conseguiu cativar muito mais do que as principais lideranças distritais (Porto, Lisboa, Braga e Aveiro), Montenegro também entrou pelas lideranças de centenas de secções espalhadas pelo país fora.

Mas será suficiente? Um antigo quadro do partido desabafa à TSF que "o PSD está reduzido a uma insignificância que não se compadece com o espírito criador" e que o partido se esqueceu do principal: "o cidadão".

"Do PSD só ouvimos polémicas com usos de viaturas oficiais, casos de justiça, licenças, guerras... Num momento tão excecional, não falam para o país real e ninguém se entende", critica este quadro social-democrata que prefere não ser identificado.

Mais: "É inadmissível a inexistência de um debate". E este foi o ponto da campanha que mais deu que falar na opinião pública. Montenegro disse que "adora" debates, mas tendo o adversário apanhado Covid-19 a meio do percurso, a agenda foi-se construindo e impossibilitou essa realidade, ainda que Moreira da Silva tenha mostrado disponibilidade para cancelar tudo e debater à hora e no local que fosse.

Certo é que, chegados ao fim da campanha, os candidatos não protagonizaram um único frente-a-frente para debater as ideias de cada um, tendo esse sido um tema recorrente nesta reta final. Junta-se a isso, alguns ataques de parte a parte que fizeram com que, de facto, esta corrida interna se parecesse mais a uma campanha nos moldes a que estamos habituados.

"Não padeço nem de arrogância intelectual, nem de arrogância política, já faço política há muitos anos para dizer isto sem poder ser contrariado, não tenho esses males" ou "àqueles que queiram tentar, não pensem que me vão diminuir muito facilmente e que, muito menos, o vão fazer de forma irresponsável e despudorada porque não vou aceitar isso e vou contrariar com factos", atirou Luís Montenegro a dada altura.

Já Moreira da Silva diz que o voto em Montenegro é uma "solução tática" com o partido a "escolher alguém com perfil de porta-voz e de contestação" que durará apenas dois anos. "Aí sim, o PSD apresentará outra pessoa para protagonizar a alternativa", vaticinou Moreira da Silva que recusa "fazer política com a calculadora no bolso".

Claro que as linhas programáticas de cada um foram sendo debatidas ao longo das últimas semanas, sobretudo nos encontros com militantes, mas até da comunicação social no seu todo houve globalmente menos tempo de antena para estas diretas, seja pela discussão orçamental que estava em curso, seja, claro, por causa da guerra na Ucrânia.

Chegados que estamos a 28 de maio, é hora de os mais de 44 mil militantes com quotas pagas se dirigirem às urnas para escolher o próximo presidente social-democrata e, como lembrava um militante à TSF, "até ao fim, tudo pode acontecer".

Relacionados

Veja Também

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG