Ventura junta milhares de pessoas com avisos a António Costa

Apoiantes não faltaram à chamada do líder André Ventura e manifestaram-se em Lisboa contra "tentativas de ilegalização do Chega". Presidente do partido recebido como estrela rock, elevou os decibéis na vitimização e na afirmação, com recado para Costa: "Vamos atrás de ti."

PorFilipe Santa-Bárbara
© Filipe Santa-Bárbara/TSF

"Não há medo, c..., não há medo". O grito saiu do meio da multidão e chegou mesmo aos ouvidos de André Ventura que escutou, olhou e sorriu: "É isso mesmo!". Ventura desmontou a postura por breves segundos perante esta interpelação de um apoiante porque, antes e depois, decibéis lá em cima, puxou pelas bandeiras do partido, dramatizou e ainda deixou um aviso ao primeiro-ministro para gáudio dos apoiantes.

Ouça reportagem TSF sobre a manifestação do Chega, que juntou mais de 2000 pessoas em Lisboa.

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A iniciativa começou pouco depois das quatro da tarde com um percurso que teve início no Príncipe Real, em Lisboa, e com cerca de duas mil pessoas, segundo a Polícia de Segurança Pública (PSP), ou pelo menos quatro mil, de acordo com o partido, a acompanharem Ventura pelas ruas do Bairro Alto e Chiado. O número de pessoas foi apurado pela TSF junto de um agente da PSP presente no local.

O objetivo? Afirmar o partido contra tentativas de ilegalização com gritos de protesto nesse sentido, mas também para dar força ao líder num ajuntamento como há muito não se via. E sim, ajuntamento é mesmo a palavra certa porque, em tempos de pandemia, mesmo com avisos da organização, o distanciamento social foi coisa que faltou, tanto no desfile como no comício final no Rossio.

Aí, sempre com uma música dramática por trás, em cima de um palco com um ecrã gigante, André Ventura foi recebido como uma estrela rock. Quando subiu ao palco, cinco minutos a agradecer sem falar, a levar a mão ao peito perante um público em apoteose, no fim até houve quem levasse as crianças junto ao palco para que ele as cumprimentasse.

Com a audiência já galvanizada, André Ventura puxou por dois pesos: o da vitimização e o da afirmação. Por um lado, o motivo pelo qual ali estava, sempre com o volume no máximo e a música a embalar as palavras, Ventura garantia que ninguém os vai ilegalizar.

Entre "Portugal é nosso e é por ele que vamos continuar a lutar" e "que ninguém se meta à nossa frente", André Ventura afirma que "não é nenhuma decisão de um tribunal" que os ilegaliza. "Uma decisão do tribunal não nos faz desaparecer daqui para fora, nenhum acórdão, nenhuma decisão de um parlamento, de um governo ou de um tribunal nos pode tirar a dignidade e a liberdade", sublinha.

"Até nos podem tirar a sede, até nos podem esmifrar até ao último tostão, até nos podem prender, mas continuaremos aqui, continuaremos a lutar e a acreditar que Portugal pode ser diferente", grita Ventura para aplausos da audiência.

Já no outro peso da balança, o da afirmação, falou nas lutas dos "portugueses de bem", das mães que "vêem os filhos emigrar", dos antigos combatentes esquecidos e, claro, da corrupção e da "podridão do sistema".

"Podem gozar os últimos tostões que roubaram (...), vamos atrás de vocês, um por um, onde quer que se escondam", garante André Ventura lembrando que a preocupação das instituições é "salvar corruptos" e lembrando o caso de José Sócrates e a decisão instrutória da Operação Marquês.

E a afirmação enquanto força política surge em seguida com declarações de que são a terceira força política e que mandaram "o Bloco de Esquerda para fora do parlamento", algo que, de resto, não fizeram, e rematando com um aviso ao primeiro-ministro.

"Saímos de casa, mesmo em pandemia, com meio milhão de votos que se vão tornar num milhão nas próximas legislativas para sermos o principal partido da oposição em Portugal. António Costa, nós vamos atrás de ti, vamos atrás de ti", exclama Ventura.

Antes de sair de palco, tempo ainda para falar em missão que lhe foi conferida, encarnando uma postura quase messiânica: "por muito que a sombra da justiça, do parlamento ou das instituições caia sobre nós, nunca iremos desistir. Devo-vos isso porque a minha vida foi-vos entregue para fazer esta salvação de Portugal, acredito que foi em nós que foi depositada uma missão única de salvar este país, acredito que a força que me deram não foi em vão".

Com ruas envolventes cortadas e com um Rossio "reservado" ao Chega, é natural que o discurso tenha colado bem nos apoiantes que estiveram sempre vigiados por um forte aparato policial. Apoiantes que, pouco depois de André Ventura sair de cena, se dirigiram para os autocarros previamente alugados para voltarem para as suas terras.

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