"Ziguezagues", "bizarro" e "Governo está a brincar". Partidos criticam solução para aeroporto de Lisboa

O Governo vai avançar pelas soluções de Alcochete e do Montijo como locais para novos aeroportos na Área Metropolitana de Lisboa. Partidos da oposição questionam a decisão.

PorTSF
© Mário Cruz/Lusa

O Governo decidiu esta quarta-feira avançar para uma nova solução para a construção de um novo aeroporto na Área Metropolitana de Lisboa que, na verdade, serão dois.

O Montijo será a primeira solução e estará operacional no final de 2026. Depois, a solução passará por Alcochete, que vai ter os primeiros aviões a chegar apenas em 2035. Quando ambos os novos aeroportos estiverem a funcionar, o Aeroporto Humberto Delgado, que serve atualmente a cidade de Lisboa, será encerrado.

Rio não percebe "ziguezagues". Montenegro "não foi informado"

O ainda líder do PSD, Rui Rio, criticou "os ziguezagues" do Governo antes da decisão. De saída da liderança do partido e do grupo parlamentar, Rio lembra que, para que a obra do aeroporto do Montijo "seja necessária", é preciso "alterar a lei", porque atualmente "basta um presidente da câmara que se oponha" para a inviabilizar e, por isso, a obra, "neste momento não é viável".

O presidente dos sociais-democratas assume que a lei em vigor "é exagerada" e se disponibilizou, durante o mandato como opositor, a mudá-la.

Rui Rio recusou comentar o futuro da obra por estar a terminar o período como líder do PSD. Luís Montenegro, que vai assumir a liderança do partido no domingo, "não foi informado de nada" sobre os planos do Governo para o novo aeroporto, de acordo com fonte próxima do antigo líder parlamentar dos sociais-democratas, citada pela Lusa.

Ventura recebe notícia com "surpresa" e ataca <a class="ngx-body-text-entity" href="/entidade/pessoa/pedro-nuno-santos.html" text-entity-id="52330" text-entity-type="Person">Pedro Nuno Santos</a>

Por sua vez, o líder do Chega, André Ventura, admitiu que recebeu a notícia da solução para o novo aeroporto de Lisboa com "alguma surpresa" e aproveitou para lançar ataques ao ministro das Infraestruturas, Pedro Nuno Santos.

"Desde logo porque tinha ouvido o ministro das Infraestruturas dizer em março que não era viável a solução de Alcochete. E no ano passado disse que uma solução gradual não era viável", explica o líder do Chega.

Nesse sentido, Ventura questiona "se Pedro Nuno Santos ainda é o ministro das Infraestruturas" e lembra que "está um processo de avaliação ambiental em curso" que foi coordenado com a Assembleia da República.

"É um desrespeito ao Parlamento que o Governo unilateralmente decida quebrar essa avaliação e decida fazer o que acaba de acontecer", lamenta o deputado do Chega.

O deputado avisa ainda que houve empresas de avaliação ambiental que tinham ganho concursos: "Provavelmente vamos ter de pagar indemnizações."

IL diz que "falta informação", mas considera que é uma decisão "bizarra"

O presidente da Iniciativa Liberal (IL), João Cotrim Figueiredo, diz que a solução apresentada pelo Governo para o novo aeroporto de Lisboa é "bizarra", mas avisa que "falta informação".

"Eu sei que foi a IL que levantou o assunto de haver um concorrente direto, um operador de Espanha, que estava a decidir a localização de um aeroporto na Área Metropolitana de Lisboa. Fomos nós que levantámos esse tema e a conclusão foi acabar com o estudo de impacto ambiental. Dois dias depois surge uma decisão que evita a escolha que se ia fazer. É bizarro", considera o líder da IL.

Relativamente à eventualidade da renegociação dos contratos com a ANA, "a IL faz questão de perceber exatamente o que estará em causa".

Cotrim Figueiredo admite ainda que a IL utilizará "todos os instrumentos que estiverem à disposição para esclarecer" a decisão.

"Não é credível." <a class="ngx-body-text-entity" href="/entidade/org/pcp.html" text-entity-id="51781" text-entity-type="Organization">PCP</a> critica construção de <a class="ngx-body-text-entity" href="/entidade/local/aeroporto-do-montijo.html" text-entity-id="81002" text-entity-type="Location">aeroporto do Montijo</a> como apoio à Portela

Da direita para a esquerda, a deputada do PCP, Paula Santos, criticou a decisão de acelerar a construção do aeroporto do Montijo como apoio à Portela.

Para o PCP, falta credibilidade à solução definida: "A confirmaram-se as notícias de que o Governo avançará com a construção do aeroporto no Montijo e posteriormente em Alcochete, gostaríamos de dizer, desde já, que não é credível e não é aquela que é a resposta necessária para o país."

"Há muito que está a decisão está tomada, da saída do aeroporto da cidade de Lisboa", reforçou, recordando a opção do Parlamento de construir a infraestrutura aeroportuária no Campo de Tiro de Alcochete.

"É a solução que deve avançar", considera a deputada comunista, "e de forma faseada, tal como estava previsto".

<a class="ngx-body-text-entity" href="/entidade/org/be.html" text-entity-id="50901" text-entity-type="Organization">BE</a> acusa <a class="ngx-body-text-entity" href="/entidade/org/governo.html" text-entity-id="51704" text-entity-type="Organization">Governo</a> de estar "a brincar com o país"

Joana Mortágua, deputada do Bloco de Esquerda, acusou o Governo de estar "a brincar com o país", com o Parlamento e o clima no processo de construção de dois novos aeroportos na Área Metropolitana de Lisboa.

A deputada recordou a "avaliação ambiental estratégica", que foi "aprovada no parlamento", mas revela que a mesma "foi abandonada", visto que vai começar "imediatamente a construção do aeroporto" do Montijo.

Para o BE, o plano da construção de dois aeroportos a médio prazo "é um crime ambiental" e "não pode ser compreendido" pelos portugueses.

Os bloquistas, numa carta direcionada ao ministro da Habitação e das Infraestruturas, Pedro Nuno Santos, pediram uma audição para esclarecer uma medida "em contramão" com o compromisso do Governo.

"Rolo compressor da maioria absoluta." <a class="ngx-body-text-entity" href="/entidade/org/pan.html" text-entity-id="51802" text-entity-type="Organization">PAN</a> fala de desrespeito pelas câmaras e Parlamento

Pelo PAN, Inês de Sousa Real identifica a decisão por Alcochete como um "claro exemplo do receio em relação ao rolo compressor da maioria absoluta".

A líder do PAN argumenta que está aberto o caminho a uma opção "que tem sido fortemente contestada pelas organizações não governamentais do ambiente, pelos próprios órgãos reguladores, pelos municípios afetados e pelos partidos da oposição".

Sousa Real fala de um "desrespeito pelos pareceres" das câmaras face a uma opção "duplamente gravosa de Montijo mais Alcochete" e de um "total desrespeito pela resolução da Assembleia da República de recomendar ao Governo a realização de uma avaliação de impacto ambiental estratégico", que o partido identifica como "fundamental".

Numa semana em que se discute o futuro dos oceanos e a sustentabilidade, "aqui fica um exemplo claro do que não fazer, ou seja, passar por cima da avaliação de impacto ambiental estratégico".

A líder do PAN alerta mesmo que, no caso do Montijo, vai ser colocada em causa a zona que tem espécies protegidos e a pista, "com a subida do nível médio das águas, vai ficar debaixo de água".

Livre acusa <a class="ngx-body-text-entity" href="/entidade/org/governo.html" text-entity-id="51704" text-entity-type="Organization">Governo</a> de estar a trocar "o certo pelo incerto"

O fundador e deputado único do Livre, Rui Tavares, começa por gracejar que parece já não se falar de aeroportos, mas sim de cogumelos, "porque aparentemente eles multiplicam-se com grande velocidade". Assim, tal como com os cogumelos, "é preciso saber escolher bem".

O deputado único do partido assinala que, a acontecer, esta seria a "primeira avaliação ambiental estratégica em meio século de discussão" sobre o novo aeroporto e explica que na Comissão de Economia "têm ficado cada vez mais claros os impactos ambientais negativos da solução Montijo e os eventuais impactos ambientais positivos da solução Alcochete", que "tem os solos contaminados", algo que aumenta os custos associados à construção.

"O próprio LNEC disse aqui na Assembleia da República que o que é caro é descontaminar os solos de Alcochete, coisa que provavelmente vamos ter de fazer se a diretiva-quadro dos solos da União Europeia passar, podemos ter os gastos à mesma e não ter o aeroporto", alerta.

Rui Tavares acusa o Governo de estar a trocar "o certo pelo incerto" ao avançar já com algo "negativo" do ponto de vista ambiental "em troca de, eventualmente, mais à frente termos um aeroporto ambientalmente mais seguro".

"Ou seja, danificar já o ambiente para talvez, no futuro, fazer o aeroporto que seria a escolha ambiental mais certa", uma opção que, defende, revela "uma certa desorientação" da parte do Governo.

Por fim, a bancada parlamentar do Partido Socialista não reagiu à decisão do Governo de António Costa.

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