Bolsonaro "deu um fora" em Marcelo, mas Portugal "deu show" no Brasil

Marcelo só vê virtualidades na visita curta, mas intensa, ao Brasil. Saldo muito positivo, diz, mesmo com o "desconvite" de Bolsonaro. Em três dias, "dá show" e impressiona brasileiros.

"Deus escreve direito por linhas tortas e ali uma linha tortinha deu a escrever muita coisa direita". A frase, por si só, é o balanço perfeito da visita de Marcelo Rebelo de Sousa ao Brasil e foi proferida pelo próprio antes de regressar a Lisboa e referindo-se, claro está, à polémica do encontra-não encontra com Jair Bolsonaro.

A explicação é só uma e está relacionada com a velha máxima do "não há má publicidade". "Permitiu que se falasse de Portugal aqui ainda mais um bocadinho, Portugal passou a ser tema, além de Gago Coutinho e Sacadura Cabral, além da presença na Bienal, [também foi tema] pela presença do presidente. Isso foi tão coberto, tão coberto pela comunicação social brasileira que, na rua, acenavam dos carros, cumprimentavam, paravam...", realça o presidente nas últimas declarações que fez ainda no Brasil.

"Devo dizer que nunca tive tantas selfies de brasileiros no Brasil como agora", adianta Marcelo que, de facto, foi bastante solicitado ao longo dos últimos dias por pessoas aleatórias, na rua, para um cumprimento ou as habituais "marselfies".

Diz, de resto, que não sai com nenhum amargo de boca do Brasil, pelo contrário: "foi uma coisa muito doce vista numa perspetiva de médio e longo prazo". Completa o presidente que "abriu-se o apetite para futuros encontros" e que "não há nada como isso". "Um compasso de espera para o abraço ser ainda maior, como o abraço que, genericamente, recebemos de todos os brasileiros", destaca.

Para o presidente, que esta segunda-feira até pôde ler, na Folha de São Paulo, um artigo de opinião bastante elogioso da sua pessoa e que, inclusive, chegou a considerar a atitude de Bolsonaro como "vandalismo diplomático", o que se passou aqui no Rio de Janeiro e em São Paulo só poderá representar um incremento no soft power de Portugal.

Tendo estado sempre bastante descontraído, desde os mergulhos em Copacabana até aos discursos fortes sobre cultura e a "não pureza dos povos", Marcelo destaca que "os dois objetivos cimeiros foram atingidos em cheio": comemoração do centenário da travessia atlântica e a presença do país na Bienal do Livro.

Depois, além do bónus de poder ver uma exposição da artista portuguesa Gabriela Albergaria, Marcelo teve oportunidade de reunir-se com Lula, Temer e Fernando Henrique Cardoso para falar das relações entre os países e a conjuntura internacional. Oficialmente, o tema Bolsonaro não foi assunto, mas certamente não deverá ter estado fora das conversas, pelo menos, no caso de Temer foi mesmo expresso o "lamento" pelo que sucedeu.

Mas sobre esses encontros, ainda antes de encontrar Fernando Henrique Cardoso, diz Marcelo que foram "contactos muito interessantes", também pelo facto de "verem o mundo não necessariamente como nós o vemos, vendo de forma muito diversa". E, claro: "medir a temperatura, sem falarmos do momento do Brasil, mas medimos a temperatura relativamente ao Brasil e às relações com Portugal".

Nesse termómetro, Marcelo escuda-se no politicamente correto e destaca que "o Brasil está, de facto, imparável do ponto de vista de juventude e do ponto de vista cultural". Além disso, "do ponto de vista económico há uma esperança, embora preocupada com a inflação e com a conjuntura internacional, mas há uma esperança porque é um país de esperança".

Depois, novamente Portugal que agora é visto com novos óculos deste lado do mundo. "Eu que venho ao Brasil há 60 anos, há uma diferença, já não é o Portugal do passado, já não é o Portugal pré-revolução nem sequer o Portugal só da revolução, é o Portugal do presente e do futuro na ciência, na tecnologia, na economia, nas artes, na literatura, é outro Portugal".

"Se for contar o número de brasileiros que me disse que tenciona ir morar para Portugal, são milhares e milhares. Há uma moda de Portugal no Brasil e é uma boa moda", sintetiza Marcelo que todos os dias tem realçado a crescente comunidade brasileiros no país, tendo até considerado que o número é "uma brutalidade", mas "uma ótima brutalidade".

Foram três dias intensos que deixam Marcelo com vontade de mais, mas já com promessa de regresso em setembro. Aí para o bicentenário da independência do Brasil e vamos ver se até lá o telefone toca. "O meu telefone não tocou, ou melhor, tocou várias vezes, mas não do número que estão a pensar", diz Marcelo que agora vai trocar os mergulhos em Copacabana pela natação na política nacional.

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