Com duas "ironias", Van Dunem pede que não se eternize polémica com procurador

Ministra da Justiça nota que quando iniciou funções no Governo, no final de 2015, o processo de cooperação reforçada estava bloqueado por parte de Portugal e que a prática no país é a de que, quando se deve indicar pessoas para lugares internacionais, não se faz concursos.

A ministra da Justiça, Francisca Van Dunem, prestou esta terça-feira esclarecimentos no Parlamento Europeu (PE) sobre a nomeação do magistrado português para a Procuradoria Europeia e, entre "desabafos" sobre "ironias", lamentou que se esteja a "eternizar" esta polémica.

Numa audição conjunta com as comissões de Liberdades Cívicas, Justiça e Assuntos Internos e de Controlo Orçamental do Parlamento Europeu, para fazer um ponto da situação do estabelecimento da nova Procuradoria Europeia, e na qual participou a Procuradora-Geral, Laura Codruta Kovesi, a questão da nomeação do procurador José Guerra foi suscitada por vários deputados, entre os quais Paulo Rangel e José Manuel Fernandes, do PSD.

Lembrando que a questão "já foi discutida no Parlamento Europeu, em plenário", com uma intervenção da secretária de Estado dos Assuntos Europeus, Ana Paula Zacarias, em nome do Conselho da UE -- a que Portugal preside no corrente semestre -, a ministra disse todavia entender "que subsistam nas mentes de alguns dos deputados dúvidas legítimas a respeito da isenção e da transparência desse processo", pelo que, assim que foi convidada a participar na sessão, se disponibilizou "imediatamente" a "prestar todos os esclarecimentos necessários".

"Permitam-me um primeiro desabafo: É que este processo tem para mim duas ironias, traz duas ironias. A primeira é que quando eu iniciei funções no Governo, no final de 2015, o processo de cooperação reforçada, o processo de adoção do regulamento, estava bloqueado por parte de Portugal. E de facto foi o Governo de que eu fiz parte que desbloqueou esse regulamento e que nos permitiu entrar na primeira fase da cooperação reforçada", começou por referir.

A segunda ironia, prosseguiu, é que "a prática em Portugal é que quando se deve indicar pessoas para lugares internacionais não se faz concursos".

"Eu decidi neste caso propor ao Governo, e o Governo propôs ao parlamento, uma lei nesse sentido, sendo certo que, embora a lei não estivesse ainda aprovada, nós seguimos o rito que a lei previa, ou seja, definimos que seriam os Conselhos Superiores, do Ministério Público e da Magistratura - ambos órgãos independentes do poder político - a definir os melhores candidatos", explicou.

Van Dunem voltou a explicar o sucedido, enfatizando que "os 'famosos' lapsos" não constavam do currículo do magistrado José Guerra, mas sim "de uma nota que o Governo enviou a dar nota da sua preferência por um candidato diferente daquele que tinha sido colocado em primeiro lugar do 'ranking' pelo comité de seleção".

Lembrando que o regulamento da Procuradoria "é claro" ao indicar que o 'ranking' estabelecido pelo comité de seleção independente europeu "não é vinculativo", a ministra reiterou que Portugal fez "uma escolha diferente" pois "havia uma diferença abissal" relativamente à seleção feita pelo Conselho Superior da Magistratura português, que ordenou a candidata que o painel considerou em primeiro em terceiro lugar, a 12 pontos de diferença do primeiro candidato".

Manifestando-se "disponível para prestar mais esclarecimentos", se tal for considerado necessário, Francisca Van Dunem lamentou o tempo que a polémica já leva.

"Já vão mais de três meses. Estamos desde outubro nesta situação. A Procuradoria Europeia precisa de estabilidade, precisa de paz para trabalhar. Se aquilo que queremos é pô-la operacional, precisamos de resolver estas questões com grande rapidez, e não eternizar um problema que pode perfeitamente ser clarificado e esclarecido ao Parlamento", concluiu.

Depois da intervenção da ministra, a deputada holandesa Sophia in't Veld, do grupo Renovar a Europa (Liberais), manifestou-se insatisfeita com os esclarecimentos prestados, reclamando antes que o Conselho partilhe toda a documentação com o parlamento, e ameaçou com uma ação na justiça se tal não suceder. Também o líder da delegação do PSD, Paulo Rangel, considerou que permanecem perguntas sem resposta.

A Procuradora-Geral Europeia escusou-se a comentar a polémica em torno da nomeação do procurador português, por ser um processo alheio à Procuradoria, mas vincou que o procedimento está muito bem regulado nos regulamentos da instituição.

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