Comunicação não verbal na política. O que eles não dizem, mas que nós percebemos

Olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço. A sabedoria popular portuguesa simplifica desta forma aqueles que dizem uma coisa e fazem outra. Mas há outras formas de dizer uma coisa e... Estar a pensar noutra. A voz, os gestos, os esgares repentinos, os sorrisos ou as irritações. Tudo pode ser analisado e tudo é comunicação.

Irina Golovanova é autora do livro "O Poder dos Seus Gestos", especialista em comunicação não verbal, e dá formação na área da política e da gestão. Ensina profissionais a potenciarem a inteligência não verbal. Em Alta Voz, analisa as duas semanas de debates e confrontos entre os candidatos às legislativas de 30 de janeiro.

De um modo geral, durante estes debates todos a que assistiu, quem é que na sua opinião esteve melhor?

Isto variava de debate para debate, na verdade. Vimos alguns debates frente a frente e é mais fácil dizer que esta pessoa teve melhor desempenho ou esteve mais calma ou, por exemplo, conseguiu usar ou ter uma postura mais direita, ou os gestos mais assertivos. Mas quando vimos o debate de todos os partidos juntos, se calhar assim é mais fácil dizer quem esteve melhor.

Então vamos por partes: nesse debate a nove quem é que esteve melhor?

Pareceu-me que Rui Rio fez o trabalho de casa, em comparação com o debate frente a frente com António Costa, acho que esteve muito mais calmo, muito mais assertivo e muito menos agressivo. Ou seja, em comparação com o debate frente a frente, acho que esteve muito melhor no debate quando estavam nove pessoas presentes. Quem também esteve bem foi o líder do partido Iniciativa Liberal, João Cotrim de Figueiredo, esteve melhor. Diria que André Ventura estava no seu registo normal.

E esse registo é bom ou mau?

Há quem goste. Digamos assim, o que é bom ou mau depende daquilo que ele quer passar porque, sem dúvida, ele é muito mais emocional, muito mais agressivo, interrompe e fala por cima, mas a questão é: será que é o objetivo dele? Será que é a imagem que quer passar? Se é, então, o comportamento dele reflete isto na perfeição.

Lembra-se de algum debate que tenha sido particularmente mau, no seu entender? Algum em que, para si, os candidatos tenham sido absolutamente ineficazes a passar a mensagem. Qual é o debate que se distingue nesse campeonato?

Sim. Acho que estamos todos de acordo que foi o debate entre o CDS e o Chega.

Do ponto de vista dos eleitores acha que aquilo não resulta nada?

Acho que não resultou, nem da parte verbal, nem da parte não verbal, porque quando uma pessoa fala por cima da outra não é possível ouvir. Quando há tantas emoções é impossível ficar focado e concentrado naquilo que eles estão a dizer, e a forma em que isto está a ser entregue, às tantas, se calhar é engraçado nos primeiros dez ou quinze minutos, mas depois já não conseguimos acompanhar aquilo que estão a dizer.

Acredita que a atitude pode pura e simplesmente anular o conteúdo das palavras?

Acredito plenamente. Por mais coisas boas e certas que eu possa estar a dizer, se não conseguir encontrar a forma certa de entregar isto, a mensagem não vai passar. A mensagem não é só a parte verbal, é a parte verbal e a não verbal. Às vezes até se pode ter um conteúdo fraquinho, mas as pessoas entregam isto de uma forma tão boa que acabamos por ouvir. Mas o pior é o contrário, quando uma pessoa tem algo para dizer, uma mensagem boa, mas não tem uma forma para entregar isto.

Nos debates frente a frente, agora ao contrário, qual acha que foi o candidato que melhor se afirmou desse ponto de vista de equilíbrio entre atitude e conteúdo?

O conteúdo é sempre discutível porque envolve preferências políticas, que não tenho, mas gosto da postura e da forma do líder do partido Iniciativa Liberal. É constante, é mais assertiva e, mesmo quando não concorda, defende o seu ponto de vista com respeito e dá espaço para a outra pessoa falar.

Ainda voltando ao frente a frente, já conseguimos perceber consigo que no debate a nove Rui Rio foi o que, talvez, tenha estado mais consistente. Nos debates frente a frente também identificou candidatos que estiveram bem. Quem é que na sua opinião, durante todos os debates - frente a frente e debate com todos -, foi o menos conseguido, o ponto de vista da atitude, não do conteúdo.

André Ventura é sempre uma figura, mas acredito que isto está de acordo com a mensagem que ele quer passar, mas quem chamou a minha atenção foi o líder do CDS, negativamente. É como digo, até pode ter boas mensagens, mas acho que ainda está à procura de uma forma de entregar estas mensagens. Porque, por vezes, é mais agressivo, depois tenta ser mais assertivo, depois é mais calmo, ou seja, acho que aí ainda parece estar a testar o que resulta melhor.

Estas pessoas precisam de aconselhamento profissional ou é melhor serem elas próprias e apresentarem-se como são? A autenticidade vende ou não vende, vence ou não vence?

Acho que não só precisam como têm ou, pelo menos, muitos deles devem ter pelo que me parece. Depois, esta questão de serem eles próprios, ouço isto muitas vezes, especialmente quando dou palestras nas faculdades. Por exemplo, muitas vezes os estudantes perguntam se quando vão para uma entrevista de emprego não deveriam ser eles próprios. E eu tenho sempre uma pergunta: qual é o eu que quer mostrar? Ou seja, qual é a personalidade que quer mostrar, porque nunca somos iguais, somos uma pessoa em casa, outra pessoa noutras situações. E isto é normal, acho que eles precisam deste aconselhamento, mas não da perspetiva de serem outras pessoas e enganarem ao ser o que não são. Vejo este treino em comunicação como se fosse aquele foco de luz quando focamos e colocamos uma parte mais na luz que outra. Damos mais destaque a uma parte que a outra. Nesta perspetiva, acho que todos precisam e deveriam fazê-lo, mas não só eles, qualquer profissional.

Agora, especificamente, António Costa e Rui Rio, são eles os candidatos a primeiro-ministro. Qual deles passa melhor no quadro mental português?

Somos dez milhões, é difícil saber qual é o perfil. António Costa tem uma imagem muito constante, e tivemos a oportunidade de vê-lo durante todo o ano de 2020 quando começou a pandemia. Em 2021, já teria ganho as dez mil horas necessárias para se ser mestre seja no que for, neste caso, falamos de comunicação. A imagem de Costa é muito constante, o que pode ser uma vantagem, obviamente, porque quando estamos à procura de estabilidade e equilíbrio para o nosso país, ou seja, ele representa este valor na forma como comunica. Por outro lado, há pessoas que gostam de emoções e Rui Rio, neste caso, é uma pessoa que passa muito mais emoções. Há muito mais pessoas que ficam atraídas pela emoção, portanto, o que é melhor depende de quem vai votar, cada um vai procurar aquilo de que gosta mais.

Propunha-lhe, se achar boa ideia, uma espécie de jogo, desafio ou exercício. Temos aqui quatro estados de alma, digamos assim, quatro personalidades: o arrogante, o tímido, o constrangido e o distante. Quem seria para si o arrogante?

Diria André Ventura.

E quem seria o tímido?

A líder do PAN.

E o constrangido? Ou seja, aquele que está ali e parece ter medo de dizer alguma coisa.

O líder do CDS.

E o mais distante, o mais frio se quiser?

João Cotrim Figueiredo.

Rui Rio foi acusado de rir em excesso no penúltimo debate. Isto são nervos, é insegurança ou é, como o nosso povo diz, "muito riso, pouco siso", ou seja, o riso não é bom, em síntese. Ganha ou perde com isto?

É curioso que, quando falamos de Obama, dizemos sempre que é uma pessoa com um sorriso fantástico, mas depois, curiosamente, quando falamos de Rui Rio, dizemos que pode ser uma desvantagem. Na verdade, aqui há uma diferença: quando estamos a falar de Obama é um sorriso genuíno e verdadeiro, mas o que é que nos faz questionar se o sorriso de Rui Rio é verdadeiro? O sorriso em si é um gesto fantástico, é um gesto que cria ligações e que cria relações, deveria ser positivo. Mas no caso dele, o que acontece é que este sorriso aparece de forma rápida e desaparece, ou seja, o tempo de on set/off set faz-nos questionar se é um sorriso genuíno e verdadeiro.

É, na sua leitura?

Não, normalmente não. Ou seja, quando o sorriso aparece e desaparece muito rapidamente, instantaneamente, isto normalmente não é um sorriso verdadeiro.

Chegou a Portugal em 2008. Olhando para os políticos portugueses, os líderes de que estamos aqui a falar, para quem não nasceu aqui e só vive cá há uma década e pouco, parece-lhe que são comparados com outros países? Já falámos de Obama, podemos falar de outros líderes de outros países. Parece-lhe que, genericamente, a comunicação deles é, ou não, espontânea, se surte efeito, se são aborrecidos ou divertidos?

Estou a pensar até que ponto podemos fazer este tipo de generalização: Por exemplo, nunca ouço falar de políticos russos em termos de comunicação. Ainda falamos de alguns líderes europeus ou dos Estados Unidos, mas sinto que nestes dez anos - pelo menos pelo que me parece -, houve esta evolução, há pessoas que parece que estão a treinar. Ou seja, há mais treino e ainda bem, porque eles comunicam para o país inteiro ou mesmo para a Europa, por isso é importante. Mas fazer uma avaliação assim de, por exemplo, se os políticos portugueses são melhores que os políticos alemães, não sei de que ponto podemos fazer esta comparação porque são culturas diferentes e as preferências nestas culturas são diferentes.

Tem havido um crescimento da valorização da autenticidade. Temos, por exemplo, os casos de Donald Trump ou Bolsonaro, são pessoas vistas como brutalmente autênticas. No entanto, mentem, mentem desalmadamente. Há um problema de contradição entre a autenticidade e a verdade, quando antigamente as coisas batiam certo e agora não batem. A valorização da atitude não valoriza o que pode ser falso em vez do conteúdo, que é substantivo? Valoriza-se o embrulho e não se valoriza o que está dentro do embrulho?

Se isto acontece é uma situação realmente triste. Ou seja, se começamos a valorizar apenas o embrulho sem o conteúdo, então isto fica mesmo triste. Agora, outra questão é que, às vezes, uma pessoa pode ter um bom embrulho, mas continua a mentir. Acho que são duas coisas que, na verdade, não podemos colocar tão juntas. Não podemos dizer que se tem um bom embrulho é porque é provável que esteja a mentir, nem o contrário. Defendo que devemos ter a mensagem verbal e não verbal a condizer, mas, por exemplo, o facto de Trump ter ganho as eleições na altura [2016], também não foi muito estranho e lembro-me de fazer análise desses debates. O que aconteceu foi que Trump não ganhou por ter ficado bom ou porque as pessoas descobriram uma outra pessoa durante a campanha, mas a Hillary Clinton é que deixou de parecer autêntica. Ela defendia o Strong Together, dizia que não era como Donald Trump, que era diferente. Só que durante os debates, o que vimos foi que ela conseguiu passar essa mensagem durante o primeiro debate, mas no segundo já nem por isso. Continuava a ter um bom discurso, mas no comportamento parecia, de vez em quando, parecida com Donald Trump. No terceiro debate já não estava muito melhor que ele e, na altura, a minha teoria era que as pessoas votaram em Trump, não porque começaram a adorá-lo mas porque começaram a desconfiar da autenticidade de Hillary Clinton.

Portanto, foi um voto de rejeição e não um voto de apoio?

Muito provável.

Já aqui falámos um pouco disso, mas gostaria de voltar aí: um líder que vai ser primeiro-ministro e, portanto, em Portugal ou António Costa ou Rui Rio nestas eleições, deve transmitir a tal estabilidade de que já falámos. O que é que não deve fazer para prejudicar essa imagem nos debates, nos comícios, na campanha?

Vamos olhar assim: o que é para nós estabilidade? Antes de mais, uma postura estável. Estamos à espera de que a pessoa esteja direita, não que esteja muito inclinado para um lado ou muito reclinado na cadeira, ou numa postura muito desleixada. Portanto, primeiro é a postura. Aliás, num inquérito que fizemos em 2013, perguntámos às pessoas no que reparavam primeiro quando encontravam alguém e mais de 80 por cento dos nossos inquiridos disseram postura. Por isso, respondendo à sua pergunta, antes de mais, eles conseguem transmitir esta estabilidade na postura. Em segundo temos a gesticulação. Por exemplo, existem estudos que comprovam que uma gesticulação simétrica - quando gesticulamos com as duas mãos -, primeiro, gostamos mais de ouvir e segundo, é mais estável porque tenho dois apoios, digamos assim.

O facto em si de gesticular, de utilizar muito as mãos na comunicação, ajuda ao comunicador...

É bom, gesticular é bom. Agora, o erro que às vezes cometem é começar a gesticular só com uma mão ou, por exemplo, começar a levantar as mãos ao nível dos ombros e o que acontece a seguir é que a voz também vai. E isso foi o que vimos no debate de Rui Rio com António Costa, ou seja, quando Rui Rio estava muito emocionalmente envolvido a voz subia e a gesticulação estava toda ao nível dos ombros. Mais, gesticular é bom quando temos uma imagem, por exemplo, no contexto da televisão. Sabemos, e há um estudo muito engraçado feito em Itália, que quando gesticulamos as pessoas retêm melhor a informação e o facto de gesticular torna a comunicação mais eficaz. Nesse estudo fizeram duas perguntas: se chamou a atenção e prestou atenção ou não, e se foi eficaz, ou não, a comunicação. Gesticular é bom, mas temos de gesticular ao nível certo, ao nível do umbigo e com ambas as mãos. Depois, e voltando à sua pergunta, se consigo transmitir estabilidade através da postura e das mãos, como mais? Consigo transmitir isto na voz, e quem trabalha na rádio sabe muito bem que a voz tem um grande impacto nas pessoas.

Mas a voz pode ser num debate aceso, quente, de troca de argumentos, pode ser domada? Ou seja, eles antes de responderem têm de pensar na voz que vão usar, isso não é um bocadinho quase instintivo?

Se não pensarmos no nosso comportamento antes, então vai sempre ser instintivo. Tudo isto, voz, postura, gestos, tudo isto devemos treinar antes. A voz também, porque não vai mudar no momento da minha resposta se eu estiver muito emocionalmente envolvida, quer dizer, vai mudar, mas para pior.

Era essa a ideia da minha pergunta, ou seja, se estou a debater com outra pessoa que me está a contrariar, a minha tendência vai ser falar mais alto, mais rápido.

E depois ainda, se calhar, mais agudo.

Exatamente. Isso não é treinável, acho eu, ou é?

É treinável. A voz é treinável, o comportamento é treinável, os gestos são treináveis, o discurso é treinável, tudo é treinável.

Advoga isso para o cidadão comum? O que é que o cidadão comum pode aprender com os líderes destes debates do ponto de vista da atitude? E advoga que os cidadãos comuns, para efeitos da sua vida profissional, social e até familiar, tenham alguma espécie de treino nessas questões para se enquadrarem melhor e se darem melhor com a vida? Não é uma questão apenas para líderes ou gestores, também pode ser para um operário, um mecânico.

Concordo. Qualquer pessoa deveria prestar atenção e ter cuidado na forma como comunica. Mas até em casa muitos conflitos, por exemplo, quando acontecem entre casais começam por "porque é que não fizeste aquilo?" ou "porque é que fizeste aquilo?", e a discussão vai sempre acabar com "porque é que falas assim comigo?"...

Porque é que abres os olhos...

Sim, por exemplo. Podemos aprender com os erros dos outros, mas também ao contrário, aprender com aquilo que foi bem feito nos debates. Este último debate entre nove líderes, na televisão, eu estava a ver e estava a pensar que isto é o que acontece connosco desde que entramos na pandemia e nós estamos todos a trabalhar no Zoom. E no Zoom há aquele modo que permite ver as janelas com as caras das outras pessoas, aliás, quem controla o que põe nessa janela é cada pessoa individualmente, por isso, não sei se a outra pessoa me está a ver ou não.

O teletrabalho veio alterar a forma como trabalhamos, passámos a estar todos os dias em Zooms ou em Teams, todos os dias nos ecrãs. Que lições podemos aprender para um ambiente de trabalho digital para que consigamos passar a mensagem certa aos interlocutores, aos nossos colegas, aos nossos chefes, aos nossos parceiros, aos nossos clientes ou aos nossos entrevistados? Como é que o seu conhecimento se aplica nesta nova forma de nos relacionarmos?

Aplica-se e houve muitas empresas que me começaram a solicitar formação, precisamente quando começámos a entrar nestas reuniões de Zoom. Em primeiro lugar, estamos sempre a ser observados e, por exemplo, mesmo que eu pense que agora não estou a falar, não significa que não estou a ser vista e isto pode acontecer nas chamadas de Zoom. Segundo, quando estou no Zoom, o simples facto de não ouvir o que o meu colega está a dizer - ou porque estou a tirar apontamentos, ou porque estou no telemóvel, e nós vemos isso -, estou a desvalorizar o que o outro colega está a dizer e, por vezes, não pensamos nisso, a não ser que seja esse o objetivo.

Um exemplo prático para os ouvintes: numa reunião de Zoom, quando não é a minha vez de falar, que linguagem corporal deve ser utilizada? Como sabemos, muitos fazem desenhos, coçam a cabeça, olham para o telemóvel, eventualmente, levantam-se e vão fumar um cigarro. O que se deve fazer?

Pode fazer-se o que se fazia numa conversa presencial, ou seja, ficar calmo e com as mãos quietas, manter contacto visual e ficar a olhar para a pessoa que está a falar. Por vezes, pensamos que este formato mudou o comportamento, e se calhar sim, mas devemos manter a postura, às vezes literalmente, mesmo quando não estamos a falar.

Já aqui falámos da voz e queria recuperar outra vez esse tema porque também há debates na rádio, também há frente a frente na rádio e há, sobretudo, uma coisa em Portugal chamada tempos de antena que são gravações que são enviadas pelos partidos para passarem na rádio. Nesse caso, quem ouve rádio não está a ver, só está a ouvir. Até que ponto é que a voz aí, consegue transmitir essa segurança, essa empatia, essa força, essa capacidade de chegar ao ouvinte ou ao eleitor?

Aparentemente, a voz tem muito potencial e até estive aqui a consultar um estudo feito recentemente na Universidade de Yale e publicado no American Psychologist em que foi mostrado um vídeo de uma pessoa a falar e foi pedido aos participantes que avaliassem as emoções e, depois, em contrapartida fazer o mesmo, mas só ouvindo a voz. E as pessoas conseguiram identificar melhor as emoções apenas através da voz, ou seja, acho isto uma vantagem. Quando um líder de um partido envia uma gravação da sua voz para a rádio ou participa num debate na rádio, acho isto uma grande vantagem para o candidato.

Porque não distrai?

Há duas hipóteses, mas sim, a primeira pode ser porque quem está a ouvir não fica distraído com estímulos visuais ou, e isso também é muito engraçado, como hoje há muitos estudos e muita literatura na área da imagem e já muitas pessoas o fazem, enganam-nos com a sua imagem porque já estão muito treinadas. Mas voltando à nossa conversa, com a voz não conseguem ainda fazer isso.

Portanto, aquela sensação de que um debate em rádio pode ser mais fácil para um político do que um debate na televisão, não é necessariamente assim?

Penso que para o político é uma oportunidade, mas na verdade é mais difícil na rádio porque tem de manter a atenção e não tem nem gestos, nem gráficos que poderia mostrar, nem as cores de gravata que é possível mudar, por exemplo, no caso dos homens. É mais vantajoso para a audiência, mas é mais difícil para quem está apenas a dar a voz na rádio. Tem de ter atenção à entoação, tem de ter atenção para não começar a falar mais agudo só porque está prestes a entrar em debate com alguém, tem de ter cuidado com a dicção.

A voz transmite competência?

Transmite.

E se eu tiver uma voz naturalmente muito esganiçada as pessoas vão pensar que sou incompetente?

É muito provável porque há estudos que dizem que uma voz mais grave é aquela que parece mais confiante e mais competente. E até mais, posso dizer-lhe. Com uma voz mais aguda a pessoa até pode ser muito competente, mas vai ter muito mais dificuldades a passar esta mensagem através da voz.

Portanto, a pessoa da voz aguda é melhor que tenha um ramo profissional em que não use a voz?

Não, pode contratar uma pessoa, por exemplo, um profissional que a vai ajudar a gerir melhor a sua voz.

Mas voltando à pergunta original: parece-lhe que os políticos portugueses são bons a usar a voz, treinam isso, ou há de tudo dentro daquilo que conhece?

Não sei se têm treinos de voz, poderiam ter e, se calhar, deveriam ter.

O nosso primeiro-ministro é conhecido por comer sílabas. O facto de ser um bocadinho trapalhão a falar, valoriza-o pela naturalidade?

Não sei se ele apostou tanto na naturalidade, porque tem discursos onde ele não faz isso, o que me faz suspeitar que ele tem treino.

Tem treino para ser trapalhão ou para não ser?

Para não ser, para não ser. Acho que ele tem ajuda profissional, e se tem ainda bem. Mas houve aqui também uma questão sobre a competência e achei muito curioso, e quem nos está a ouvir pode gostar de saber, que apenas dez segundos são necessários para nós, audiência, ficarmos com uma ideia sobre a competência daquela pessoa. Depois, o que é mais curioso ainda é que podemos estar enganados.

E aí são precisos dez anos para desfazer essa má impressão, não?

Isso também é um bom ponto, mas estava a pensar no seguinte: eu posso atribuir mal a competência, posso achar que aquela pessoa é competentíssima, o problema é que pode não ser, mas o facto de eu achar já vai gerar um comportamento como, por exemplo, vou votar nela. Ou vou acreditar nela, vou ficar à escuta, vou ficar mais atento. Vou acreditar nela, sim. Portanto, a primeira impressão nem sempre é correta, é verdade, mas leva-nos a agir de acordo com esta primeira impressão.

Duas perguntas finais: um estudo recente demonstra que, apenas através da voz, como estamos a falar, de vários cirurgiões foi possível identificar a qual deles foi colocado um processo judicial pela sua conduta profissional, neste caso, má conduta.

É verdade.

Como é que se explica isto, como é que é possível?

Acho esse estudo assustador, porque eram apenas dez segundos, eram cirurgiões verdadeiros, nem sequer as pessoas tiveram a oportunidade de ouvir as palavras, porque foi passada a voz por um programa que retirou as palavras e deixou apenas, no fundo, só a entoação. Agora, como é que podemos explicar? Quando vemos estudos como o da Universidade de Yale [EUA] ou mesmo outro estudo que diz que através de um simples "hello" já ficamos com uma ideia de quem a pessoa é. O que posso explicar é que a voz, realmente, reflete quem somos e também é uma competência a trabalhar.

Mas como é que isso é possível em dez segundos? É isso que os nossos ouvintes, julgo eu, se estarão a perguntar como é que em dez segundos se consegue avaliar a pessoa com tão pouco?

Gut feeling [instinto]. Aquilo que no viés, se calhar, porque ouvimos muito mais pessoas com esta voz que eram pessoas más ou pouco competentes. É difícil de explicar o porquê, mas, novamente, não parece tão estranho aquela teoria do Daniel Kahneman de que fazemos a avaliação daquilo que compramos, ou não, também instantaneamente e estas escolhas influenciam a economia global.

Como assim?

Isso foi um estudo de Daniel Kahneman que falou do sistema um e do sistema dois, ganhou o Prémio Nobel da Economia, porque comprovou que as escolhas que fazemos no dia a dia são inconscientes e instantâneas. Estas escolhas, por exemplo, se compro um sofá ou se compro outro, vão, depois, influenciar a economia global. Achamos que somos racionais, mas não somos, e acredito que quando fazemos estas avaliações de competência através da voz, é instantâneo, não conseguimos explicar o porquê, mas fazemos estas avaliações.

Estava a falar-me em dez segundos e agora deu-me um exemplo que era o último que eu lhe ia pedir. Esse estudo que diz que basta dizer a palavra "Hello" para se fazer uma avaliação do outro. Como é que chegamos lá com uma palavra que demora frações de segundo a pronunciar?

Acho que uma boa pista é, deste estudo, sabemos que o grau de trustworthiness, ou seja, o grau de confiabilidade da pessoa, e de likeability, se gosto ou não, andam juntos e estão muito correlacionados. Se eu gosto da voz, vou confiar na voz ou na pessoa que tem esta voz, por isso, a vantagem para nós deste estudo é a conclusão de que a nossa voz tem de ser agradável para o ouvido e, nesse caso, as pessoas vão confiar em nós. Qual é a voz que é agradável? Isso já é muito subjetivo, sim, mas também há outros estudos que dizem que uma voz mais grave é aquela que é mais agradável para o ouvido. Por isso, não precisamos também de perder a nossa personalidade ou quem somos, mas se temos a sensação de que a nossa voz é rouca, muito aguda, que fala muito rápido ou que engole sílabas, como já houve aqui o exemplo, então, se calhar, está na altura de começar a trabalhar a voz.

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