Congresso do PCP: das lições da 'Geringonça' ao líder que fica "mais um bocadinho"

O Congresso do PCP não deve escolher um novo líder para o partido nestes dias, mas há vários temas em cima da mesa.

O congresso do PCP é tudo menos consensual, acontece em pleno estado de emergência devido à pandemia da Covid-19, mas não esteve em cima da mesa que não se realizasse, já que os direitos políticos não estão suspensos e os comunistas asseguraram cumprir todas as regras de segurança.

Em Loures, de sexta-feira a domingo, o PCP vai discutir um projeto de resolução política em que apresenta objetivos e faz uma análise dos problemas do país e do mundo. Ao longo de 77 páginas, num total de mais de 15 mil carateres, os comunistas fazem uma avaliação dos quatro anos de 'Geringonça' e são pouco pormenorizados nas metas para as próximas eleições, autárquicas e legislativas.

No período de discussão interna, nas últimas semanas, foram feitas cerca de 1500 propostas de alteração, analisadas na reunião do comité central de sábado e domingo. Mas o que se pode esperar deste congresso?

Lições da 'Geringonça'

Em março, ao lançar os tópicos para o debate nas estruturas, o comité central pedia para se fazer um balanço, refletir sobre o significado e retirar ilações do entendimento com o PS naquele que ficou conhecido como "nova fase da vida política nacional".

No projeto de teses, a conclusão é que o partido faz um balanço positivo embora "limitado" dos anos da 'Geringonça', um período que, embora complexo e "com contradições", não pode ser usado para "branquear a política e ação do PS".

A "nova fase da vida política nacional", lê-se nas teses, "não pode ser medida apenas pelo que se avançou e conquistou mas também pelo que se interrompeu" quanto à política do Governo PSD/CDS.

Esses quatro anos, 2015-19, "não foram um tempo percorrido em vão", "fizeram-se ruir dogmas" e "extraíram-se lições", conseguiu-se a "defesa, reposição e conquista de direitos" que tiveram no PCP "uma intervenção decisiva".

Pandemia

"A epidemia da Covid-19 só veio revelar e tornar mais nítidos os problemas e estrangulamentos, défices e dependências estruturais da economia portuguesa."

Objetivos para as autárquicas

As eleições autárquicas de 2021, de acordo com o texto das teses, "serão enfrentadas como um momento para, a partir da consolidação e reforço da CDU, avançar na melhoria das condições de vida das populações".

Legislativas e a política patriótica e de esquerda

Os comunistas defendem uma "alternativa patriótica e de esquerda", cuja "base de apoio" deve ser alargada nas próximas legislativas, previstas para 2023, se não houver uma crise política entretanto.

Num "quadro político onde emergem as opções de classe do Governo PS", que mantêm "as mesmas opções" de "compromisso com o grande capital e de submissão à União Europeia, as próximas eleições legislativas exigem um "esforço acrescido de afirmação e alargamento da base de apoio" a essa "alternativa de esquerda".

O PCP e o Bloco de Esquerda

Na parte da resolução em que avalia os anos de entendimento à esquerda, como PS, PEV e BE, nem uma só vez os comunistas se referem aos bloquistas. E recuperam o texto crítico já adotado em 2016.

"Continua a beneficiar de promoção mediática, mantém - sem prejuízo de matérias de convergência no plano institucional com o partido, que aliás convivem em simultâneo com o preconceito anticomunista - um posicionamento caracterizado por inconsistências ideológicas", descreve o PCP. E "cultiva uma agenda e um posicionamento assentes num verbalismo que não altera no essencial o seu caráter social-democratizante, expresso nas suas posturas federalistas assumidas no quadro da União Europeia, na submissão ao ambiente ideológico dominante, no alinhamento com objetivos do imperialismo e de revisionismo histórico em curso".

Como o PCP olha o PS

Apesar dos entendimentos com o PS de António Costa nos últimos anos, o PCP é mordaz nas críticas aos socialistas, que acusam de não ter abandonado a "sua natureza de classe" nem deixa de estar subordinado ao "capital monopolista". E se tomou decisões diferentes, conclui, foi por que mudaram "as circunstâncias", ou seja, o entendimento à esquerda de 2015 a 2019.

"O PS mantém as mesmas opções estruturais de compromisso com o grande capital e de submissão à União Europeia e ao Euro, estando o seu governo minoritário agora mais liberto pela alteração da correlação de forças parlamentar ocorrida em 2019", lê-se nas teses.

Os comunistas acusam ainda os socialistas de, "contraditoriamente com reiteradas afirmações de soluções à esquerda", convergirem "crescentemente em matérias decisivas com o PSD" e responsabilizam o PS de, em conjunto com PSD e CDS, terem seguido "políticas de direita".

PSD, CDS e os "sucedâneos" Iniciativa Liberal e Chega

PSD e CDS são apelidados de partidos de direita e de estarem a seguir estratégias reacionárias, numa tentativa de "branquearem responsabilidades passadas". A Iniciativa Liberal e o Chega, que elegeram um deputado cada nas legislativas de 2019, são classificados de "sucedâneos do PSD e CDS, associados aos centros mais reacionários do capital", sendo apontado ao partido de André Ventura uma "dinâmica fascizante".

O PAN e o Livre

O PAN, segundo o texto, tem beneficiado "da promoção" dos media e "assenta a sua intervenção num discurso demagógico a que não é alheio o anticomunismo primário" e uma convergência com a direita.

O Livre elegeu uma deputada, que, entretanto, deixou o partido, é descrito pelos comunistas como um partido que se apresenta "como força de causas e de influência em meios urbanos, nem sempre assumindo o seu caráter social-democrata e federalista". Conseguiu uma deputado que "perdeu, num desenvolvimento que não está desligado da natureza e posicionamentos que alimentaram a sua base eleitoral"

Capitalismo

"O capitalismo não é o sistema terminal da história da humanidade. A sua superação revolucionária, a construção de uma sociedade nova sem exploradores nem explorados, é uma exigência da atualidade e do futuro e impõe-se com crescente acuidade na luta dos trabalhadores e dos povos."

"Os desenvolvimentos da situação internacional confirmam a natureza exploradora, opressora, agressiva e predadora do capitalismo e a sua incapacidade em dar resposta aos problemas com que a Humanidade se confronta."

Socialismo

Para o PCP, o socialismo continua a ser uma alternativa ao capitalismo.

"O socialismo é uma necessidade do nosso tempo."

A crise, o "agravamento das desigualdades e flagelos sociais, a agudização das insanáveis contradições do capitalismo" abrem "condições materiais objetivas para o desenvolvimento de processos revolucionários que apontem como objetivo o socialismo, independentemente das fases e etapas e das formas que vierem a assumir de acordo com a situação concreta de cada país.

União Soviética

"Apesar de valiosas situações de resistência e de avanço que não subestima, o PCP considera que o movimento comunista e revolucionário internacional ainda não conseguiu recuperar do duro recuo sofrido com as derrotas do socialismo no Leste da Europa e o desaparecimento da União Soviética."

Euro

O PCP defendeu a "libertação do país da submissão ao Euro e das imposições e constrangimentos da União Europeia que, com outras expressões de uma política externa soberana, de paz e cooperação, afirme um Portugal livre e soberano".

E insiste na "renegociação da dívida pública, nos seus prazos, juros e montantes, que garanta um serviço da dívida compatível com as necessidades de investimento público, desenvolvimento e criação de emprego".

Número de militantes cai

O PCP tem 49.960 militantes, menos 4.320 do que em 2016, quando se realizou o XX congresso.

Nas teses, o partido explica esta redução com o facto de "o número de recrutamentos não ter compensado o número de camaradas que deixaram de contar como membros" do partido, principalmente devido a falecimentos, e apesar de terem sido recrutados nos últimos anos mais 3.245 militantes.

Sem ser dado um número preciso, o PCP informa que tem "mais de 300" funcionários do partido, incluindo "reformados no ativo, cujo número aumentou".

Défice negativo médio anual de 310 mil euros

As teses revelam ainda que as "receitas extraordinárias e institucionais não permitiram superar a situação deficitária decorrente da atividade regular, obtendo-se um resultado financeiro negativo médio anual de 310 mil euros".

Jerónimo, entre sair pela "lei da vida" ou ficar "mais um bocadinho"

Jerónimo de Sousa, secretário-geral do PCP desde 2004, admitiu sair em 2019 porque "é da lei da vida", mas desde setembro que tem alimentado o cenário de "ficar mais um bocadinho".

No início do congresso ainda não está confirmado se o operário metalúrgico natural de Pirescoxe (Loures) que foi deputado à Assembleia Constituinte, em 1975, vai ou não continuar à frente do partido dos comunistas portugueses, mas os sinais apontam para que continue.

O último foi dado numa entrevista à Lusa, na quinta-feira, embora implicitamente, quando foi questionado sobre que marca pensa ter deixado ao longo de 16 anos de liderança: "Eu hoje não estaria em condições de escrever um livro de memórias. Continuo a pensar que o meu futuro, seja como secretário-geral seja como membro do comité central ou como militante, é ainda a olhar para frente. Continuo com mais projeto do que memória."

Jerónimo de Sousa admitiu pela primeira vez não se recandidatar à liderança do partido porque "é da lei da vida", embora frisando não ir "calçar as pantufas" até porque que se manteria como militante comunista, numa entrevista à Lusa em março de 2019. "Toda a gente acaba por envelhecer, é lei da vida", admitiu.

E sobre a possibilidade de não continuar na liderança, respondeu: "Sim, é possível. Também não é impossível uma outra decisão."

Nos meses seguintes não repetiu a afirmação, mas manteve-se a dúvida. Uma e outra vez, Jerónimo insistiu que a questão do secretário-geral do partido "não será um problema no congresso".

Em 20 de setembro, Jerónimo de Sousa, secretário-geral há 16 anos, pôs de novo tudo em aberto, no final da reunião de um comité central. Foi a primeira vez que admitiu, implicitamente, continuar à frente do PCP.

Jerónimo de Sousa aconselhou quem quisesse apostar no que vai fazer a optar por uma "tripla" - "sair, ficar ou ficar mais um bocadinho."

Nem um mês depois, o próprio alimentou a ideia de continuar ao dizer, em 12 de outubro, numa entrevista ao programa Polígrafo, da SIC-Notícias, ao dizer sobre a sua sucessão: "O meu partido precisa ainda da minha contribuição."

"É o congresso que elege o comité central e o comité central que elege o secretário-geral. Tenho muita confiança no acerto da decisão do comité central, sempre com este sentimento que tenho: o meu partido precisa ainda da minha contribuição. E, sejam quais forem as circunstâncias, há uma coisa que posso garantir: continuarei a ser comunista, continuarei a dar ao meu partido o melhor que puder dar, na medida em que ele deu-me muito a mim também, na minha formação e na forma de estar na vida", afirmou.

E disse confiar na decisão que os seus camaradas tomarem, antes de ser questionado sobre se esperava vir a ter a confiança do partido: "Não espero nem desespero. Tenho este sentimento de confiança de que haverá um acerto na decisão em relação a essa responsabilidade."

Passados 12 dias, em 24 de outubro, o jornal Público fez manchete da notícia de que Jerónimo de Sousa continuaria mais algum tempo na liderança, semanas depois de o semanário Expresso admitir que a sucessão de Jerónimo de Sousa se faça como na década de 1990, em que Carlos Carvalhas foi número dois de Álvaro Cunhal, para, em 1992, assumir a liderança.

O nome para potencial "número dois", oficial ou informal, segundo o Expresso, pode ser o eurodeputado e candidato presidencial João Ferreira que nada diz sobre esse cenário, para não desvalorizar as eleições a que concorre.

Nenhuma das notícias foi desmentida ou corrigida pelo PCP.

O Público escreveu que as regras sanitárias de combate à pandemia de Covid-19 têm dificultado as reuniões e o debate interno prévio ao congresso do PCP.

Daí que dirigentes comunistas tenham afirmado ao jornal que, segundo as normas e a prática do PCP, uma decisão deste tipo, uma mudança de líder, "teria de ter mais envolvimento da militância" e "não se pode tomar com tão pouco espaço de discussão interna."

Há duas semanas, numa entrevista ao Observador, Jerónimo de Sousa voltou a não dizer o que vai fazer, remetendo a decisão para o comité central, apesar de deixar também esta frase: "Não posso admitir que seja o escolhido."

História e (pequenos) segredos da sucessão de Cunhal para Carvalhas

Jerónimo de Sousa é, depois de Álvaro Cunhal, o secretário-geral do PCP com mais tempo na liderança dos comunistas (16 anos), num partido em que as transições de líderes são recheadas de histórias e segredos.

Com a substituição de Jerónimo adiada no XXI congresso nacional, no próximo fim de semana, em Loures, distrito de Lisboa, a sucessão do operário metalúrgico de 73 anos pode, segundo noticiou o Expresso, ser feita em duas fases, como aconteceu com Cunhal e Carlos Carvalhas, na década de 1990.

No último ano, Jerónimo de Sousa passou de admitir sair porque "é da lei da vida", a admitir o cenário, desde setembro, de "ficar mais um bocadinho". E há dias afirmou que é cedo para escrever as suas memórias.

Desde que Portugal vive em democracia, em 1974, o PCP teve três líderes - Álvaro Cunhal, de 1961 a 1992, Carlos Carvalhas, de 1992 a 2004, Jerónimo de Sousa, de 2004 até hoje.

Líder histórico dos comunistas portugueses, Álvaro Cunhal (1913-2005) controlou a sua sucessão, após 29 anos como secretário-geral do PCP, a avaliar pelos testemunhos de vários dirigentes, antigos e atuais, ouvidos pela Lusa.

Mesmo passado tanto tempo sobre o congresso de Almada, Setúbal, em 1992, antecedido pelo de 1990, em Loures, que escolheu Carlos Carvalhas para "número 2", são poucos, dentro do partido, os que falam abertamente deste processo de sucessão, à exceção dos "críticos" que o fizeram agora à agência Lusa, como Raimundo Narciso, ou em livros de memórias.

Quem ainda é militante e aceita falar, fá-lo pedindo para não ser identificado para falar sobre um processo que teve os seus dramas e ainda esconde alguns segredos.

"Cunhal saiu quando muito bem lhe pareceu e ninguém ousaria apontar-lhe a saída", recordou, à Lusa, Raimundo Narciso, militante do PCP desde a década de 1960, responsável pela Acção Revolucionária Armada (ARA) e que foi expulso do partido em 1991.

O processo de substituição foi longo e um ex-dirigente comunista, que continua militante do partido, concorda apenas a metade da frase de Raimundo Narciso: "O Álvaro saiu quando entendeu que era altura de sair."

Mas há dúvidas, por exemplo, quanto ao tempo escolhido pelo líder para sair. Dirigentes ouvidos pela Lusa são da opinião de que "o Álvaro" - como ainda é hoje tratado por quem o conheceu ou por militantes mais velhos - pode ter atrasado a decisão para não sair nos momentos mais duros da crise interna e externa - a convulsão interna devido aos críticos e a queda da ex-URSS.

A saída de Cunhal aconteceu em dois momentos. Primeiro, com a escolha de um secretário-geral adjunto, Carlos Carvalhas, em 1990. Deixou a liderança dois anos depois, em 1992, apesar de continuar à frente do conselho nacional, um órgão consultivo extinto poucos anos depois.

Havia, porém, uma série de condicionantes que acompanhavam o PCP nos últimos anos.

Cunhal tinha mais de 70 anos, já tinha sido operado a um aneurisma em Moscovo, em 1989, e a "perestroika" de Mikhail Gorbachev - o líder soviético que deu a medalha Lenine ao histórico comunista português - estava já a mudar a URSS.

Daí a meses, caiu o Muro de Berlim. E era o princípio do fim da União Soviética.

Em Portugal, o PCP vivia tempos conturbados, de dissidência, em que a linha de fratura se baseava na leitura - mais ou menos crítica - dos acontecimentos no país dos sovietes. Os "críticos" - grupo dos "seis", a "Terceira Via", o grupo do INES (Instituto de Estudos Sociais) - traziam o debate interno para fora das paredes do partido. Zita Seabra, afastada do comité central em 1988, foi expulsa em 1990. Deputado, Vital Moreira é um dos críticos e um dos primeiros a defender, sem rodeios, a substituição de Cunhal.

Os cenários de substituição, porém, foram sendo avaliados ao longo dos anos, desde a década de 1980.

Na véspera do XIV congresso (extraordinário) do PCP, em 1992, o Público escreveu que a saída de Cunhal "concretiza uma substituição ensaiada ao longo dos últimos dez anos", desde o X congresso, em 1983, no Porto, e tinha como título "A década da substituição".

Nesse ano, recordava a jornalista São José Almeida, foi criado o secretariado político permanente com Cunhal e mais quatro dirigentes - Carlos Brito, Carlos Costa, Domingos Abrantes e Octávio Pato. Qualquer um, "embora uns mais do que os outros, poderiam, se necessário, encabeçar a liderança" ou formarem uma "cúpula de direção", como aconteceu nas décadas de 1950 e 1960, antes da eleição do líder histórico dos comunistas portugueses.

Apesar de o mundo ainda viver em Guerra Fria, entre os EUA e a URSS, e de o PCP ter reforçado a sua votação nas eleições (18,2%), havia agitação interna, com as críticas de dirigentes como Veiga de Oliveira, Osvaldo de Castro e Vital Moreira à estratégia partidária, mais favorável à via parlamentar e um abandono do marxismo-leninismo, é ainda recordado neste artigo de 1992.

Os anos seguintes abalaram o PCP, até à década de 1990. Quando é operado em Moscovo, Domingos Abrantes, com "provas dadas na clandestinidade", é visto por Cunhal e por outros dirigentes como "contrapeso da tradição do PCP às modas de renovação a que o partido era obrigado", ainda de acordo com o Público.

Os preparativos para a sucessão continuaram e, com o passar do tempo, nenhum dos quatro de 1983 (Brito, Costa, Abrantes e Pato) passou do "caderninho" em que Cunhal, segundo Carlos Brito, em que ia apontando as sugestões que lhe davam, como recordou Carlos Brito ao Expresso, em junho.

Convocado o congresso de 1990, decidida a criação do cargo de secretário-geral adjunto, a escolha recaiu sobre um dirigente da nova geração, um economista, de 46 anos, Carlos Carvalhas, que era eurodeputado do PCP em Estrasburgo, e já conquistara, nas urnas, 13% dos votos nas presidenciais.

Carvalhas "era discreto", na descrição de um dirigente da altura, ouvido pela Lusa, com "um perfil capaz" de tentar "uma via moderada" num partido disciplinado, mas extremado.

Menos positiva é a opinião de Raimundo Narciso, do campo dos críticos, ao dizer, 30 anos depois, que foi Cunhal a escolher Carvalhas, "contra as expectativas gerais para lhe suceder porque era um candidato "fraco" e que presumivelmente se submeteria às suas orientações ou ditames".

Vários dirigentes mais jovens, como Luís Sá (1952-1999) ou Vítor Dias, foram sendo chamados a funções de direção. Deputado, responsável pelas autarquias, Luís Sá também esteve na corrida para "número 2" e, no congresso de 1990, os jornalistas até fizeram "apostas" que seria ele eleito, mas Carvalhas levou a melhor.

Nos anos anteriores, em 1989 e 1990, a sucessão na liderança do PCP esteve nas páginas dos jornais como nunca antes, com notícias e até sondagens. O semanário "O Jornal" chegou a fazer uma sondagem sobre quem deveria substituir Cunhal e, no topo, estava Vital Moreira (15% das preferências), seguido de Zita Seabra (8%), Carlos Brito (3,5%) e José Luís Judas (2%). Carvalhas, o escolhido para "número dois", tinha 1% e Luís Sá, outros dos potenciais candidatos, recolhia escassos 0,5%.

A decisão esperada aconteceu na madrugada de 20 de maio de 1992, no pavilhão de Almada: Carvalhas e Cunhal foram eleitos por unanimidade - o primeiro para secretário-geral e o segundo para presidente do conselho nacional.

No final, Carlos Carvalhas discursou e, para dentro, deixou o recado: o congresso dera "importantes passos a caminho da renovação, com o contributo do camarada Álvaro Cunhal".

Seguiu-se o ritual das palmas. Durante mais de dez minutos - recorde anterior, no discurso de despedida de Cunhal - os delegados aplaudiram. Por entre punhos erguidos, bandeiras vermelhas, palavras de ordem como "assim se vê, a força do pê-cê", abraços, beijos e lágrimas.

No final, já os militantes arrumavam as cadeiras e as mesas, como é habitual nos congressos comunistas, questionado sobre o que sentia depois de abandonar um cargo que ocupou durante 31 anos, Cunhal, "filho adotivo do proletariado" e "revolucionário profissional", deu uma resposta curta ao Expresso: "Não sinto nada, eu sou um profissional."

CP/Congresso: 99 anos, cinco líderes

O PCP teve cinco líderes em quase 100 anos de história e viveu três transições na liderança do partido, em 1961, com Álvaro Cunhal, em 1992 com Carlos Carvalhas e em 2004 com Jerónimo de Sousa.

Antes de Cunhal, após a prisão e morte de Bento Gonçalves, o partido estivera 25 anos sem um líder, mas sim com uma direção coletiva, num período de forte repressão e clandestinidade durante a ditadura do Estado Novo.

Desde a sua fundação em 1921, o PCP teve cinco secretários-gerais.

José Carlos Rates

Jornalista de profissão e considerado um intelectual do movimento operário, Carlos Rates foi o primeiro secretário-geral do PCP.

Assumiu a liderança comunista logo em 1921 e foi eleito secretário-geral no primeiro congresso, em novembro de 1923, em Lisboa.

É expulso em 1925 porque "jornalistas burgueses" não podiam pertencer aos "organismos" da Internacional Socialista.

Assumiu, anos mais tarde, uma aproximação à ditadura, o que lhe valeu ser muitas vezes minimizado na história oficial do PCP.

Já na qualidade de secretário-geral visitou Moscovo, tendo escrito um livro de impressões dessa viagem e publicado outro intitulado "Ditadura do proletariado".

Foi correspondente do Pravda em Portugal e diretor de "O Comunista" entre 1924 e 1925, ano em que foi afastado do PCP, no âmbito da primeira reorganização do partido.

Bento Gonçalves

Bento Gonçalves nasceu em 1902, em Montalegre, e morreu aos 40 anos, vítima de doença, no Tarrafal.

Começou a trabalhar aos 13 anos como torneiro mecânico no Arsenal da Marinha, desenvolvendo uma intensa atividade sindical.

Deslocou-se à URSS em 1927, um ano antes de se filiar no PCP, em 1928, chegando a secretário-geral em 1929.

Nesse ano dirigiu o processo de reorganização do partido. Foi preso entre 1930 e 1933, ano em que sai da prisão e "mergulha" na clandestinidade.

Visita Moscovo em 1935, com Júlio Fogaça e José de Sousa, mas no regresso foi preso. Em 1942 morre no Tarrafal.

Até 1960 o PCP não teve secretário-geral. Entre 1940 e 1941 houve uma reorganização que tornou o PCP num partido de massas a nível nacional.

Álvaro Cunhal

Álvaro Cunhal, nascido em 1913, foi eleito em 1961 e seria o líder que mais tempo esteve à frente do PCP, 31 anos.

Devido ao seu carisma como líder, Cunhal continuou a ter lugar de destaque na memória dos comunistas, apesar de afastado do trabalho partidário por motivos de saúde.

Filiado no PCP desde 1931, Cunhal foi protagonista de uma fuga histórica da prisão-fortaleza de Peniche em 1960, onze anos depois de ter sido preso.

Cunhal partiu em 62 para a União Soviética e depois para Paris, onde continuou a viver na clandestinidade até ao 25 de Abril de 1974.

Nesse ano regressou a Portugal e foi ministro sem pasta nos governos provisórios do pós-revolução.

A partir de meados da década de 80, Cunhal assistiu à progressiva perda de influência eleitoral do PCP, opondo-se sempre à "social-democratização" do partido à semelhança do que ocorreu com outros partidos comunistas após o desmoronamento do bloco de leste.

Morreu em 2005 e o seu funeral foi uma enorme manifestação em Lisboa, com milhares de pessoas.

Carlos Carvalhas

A sucessão de Cunhal na liderança do PCP, em 1992, estava à partida garantida para Carlos Carvalhas, seu adjunto desde 1990.

O economista Carlos Carvalhas nasceu em São Pedro do Sul em 1942. Filiado no PCP desde 1969, Carvalhas foi secretário de Estado do Trabalho nos governos pós-25 de Abril.

Eleito eurodeputado em 1989, foi candidato do PCP às presidenciais de 1991.

Defensor do marxismo-leninismo, mas "não como um receituário", Carvalhas procurou evitar ruturas no PCP, mas foi acusado pelos "renovadores" de trair a vontade de renovação, por não ter dado seguimento ao "Novo Impulso", documento de 1998 assinado por figuras como João Amaral, Edgar Correia ou Agostinho Lopes, que abria o PCP a independentes e afirmava uma inédita "vocação de poder".

Nos anos da sua liderança, o PCP continuou a perder influência eleitoral e debateu-se com conflitos internos entre a linha ortodoxa do partido e vários militantes de destaque, que resultaram em sanções, expulsões e dissidências.

Jerónimo de Sousa

É o segundo secretário-geral do PCP operário, depois de Bento Gonçalves.

Operário metalúrgico de profissão, nasceu em Loures em 1947, aderiu ao PCP em 1974 e foi deputado à Assembleia Constituinte, permanecendo no Parlamento por mandatos sucessivos até 1992. Após 10 anos fora de São Bento, regressou ao hemiciclo em 2002.

Ao ser eleito, Jerónimo de Sousa era conotado com a ala "ortodoxa" do PCP, fiel à orientação marxista-leninista do núcleo duro, contestado pela ala "renovadora", que se constituiu em movimento autónomo.

Sob a sua liderança, viabilizou um governo PS no parlamento após as legislativas de 2015, ganhas pela coligação PSD-CDS, de direita, mas que ditaram uma maioria de deputados de esquerda no parlamento. O PCP chamou-lhe a "nova fase da vida política nacional", ou "geringonça".

Carlos Carvalhas e Agostinho Lopes de saída do comité central

O ex-líder do PCP Carlos Carvalhas, o antigo deputado Agostinho Lopes e o dirigente Carlos Gonçalves não integram a lista ao comité central que vai a votos no XXI congresso comunista, em Loures, foi hoje anunciado.

De saída do comité central está ainda o antigo secretário-geral da CGTP Arménio Carlos. Há 18 novos nomes, no total, na lista deste órgão, publicada hoje no Avante, jornal oficial do PCP.

O principal órgão entre congressos, a ser aprovado no congresso de sexta-feira, sábado e domingo, em Loures (Lisboa), foi reduzido dos atuais 144 para os 130 membros.

Não é dada qualquer explicação para a saída de Carvalhas, que foi líder dos comunistas de 1992 a 2004, de Agostinho Lopes, economista e dirigente desde a década de 1990, e de Carlos Gonçalves.

A lista foi aprovada na reunião do comité central, no passado fim de semana, em Lisboa, mas só hoje foi divulgada através do Avante.

Na entrevista à Lusa, publicada no domingo, Jerónimo de Sousa admitiu que a proposta para a composição do órgão máximo do PCP entre congressos preveja "uma redução" no número de membros, mantendo os critérios de "origem social".

Tradicionalmente, este órgão tem "uma ampla maioria de operários e empregados, com uma forte componente operária".

O secretário-geral afirmou o objetivo de fazer um rejuvenescimento no órgão, tal como já tinha acontecido no anterior congresso, com um reforço, que admitiu sempre "muito difícil", no número de mulheres.

O XXI congresso nacional do PCP realiza-se no Pavilhão Paz e Amizade, em Loures, sob o lema "Organizar, Lutar, Avançar - Democracia e Socialismo", com metade dos delegados (600) e segundo medidas sanitárias especiais devido à epidemia de Covid-19.

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