"Cristo também era radical." André Ventura, o deputado que se compara com Jesus

Começou o dia a rezar - e avisou os jornalistas que o ia fazer -, andou meio perdido nos corredores do Parlamento e obrigou uma deputada do CDS a levantar-se para se poder sentar. Eis os bastidores do primeiro dia do resto da legislatura de André Ventura como deputado.

Quando André Ventura entrou no plenário pela primeira vez, já estavam todos sentados. O deputado do Chega... chegou atrasado e ainda teve que percorrer quase toda a bancada do CDS para alcançar a cadeira - única - que lhe estava reservada. Na fila onde se senta Telmo Correia, João Almeida e Ana Rita Bessa, a deputada centrista foi a única que teve que de se levantar para facilitar a acomodação do novo colega. 'É a vida', deve ter pensado a deputada, que se limitou a encolher os ombros enquanto Ventura se sentava à sua esquerda, mas à direita de quem olha para o plenário de frente.

Se os atrasos de André Ventura não se repetirem, ou se os deputados do CDS chegarem depois dele, não será preciso fazer obras nos corredores do hemiciclo para deixar sentar o deputado do Chega. Ventura lembra: "lugar foi-me atribuído, não fui eu que o escolhi" e: "se houver cordialidade todos conseguem sentar-se." É tudo uma questão "de logística, não é política", recorda, sem resistir a deixar uma alfinetada aos seus colegas de bancada: "o CDS agiu com "má vontade", quem 'sai mal na fotografia' com a polémica dos lugares no hemiciclo são os centristas. "Não fui eu que comecei."

A agitação de políticos e jornalistas na zona dos Passos Perdidos vai aumentando à medida que a primeira manhã de Parlamento avança. André Ventura vai-se cruzando com alguns ex-colegas do PSD, cumprimenta a ex-ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa, e dá um aperto de mão rápido a André Silva. Mas, neste primeiro dia, a sua melhor companhia são mesmo as câmaras de televisão.

Qual 'aluno' no primeiro dia de 'aulas', confessa que provavelmente se vai perder na imensidão de corredores da Assembleia da República, mas sente-se em casa sempre que se liga a luz de uma câmara de televisão ou alguém lhe aponta um microfone. Ventura vai exercer o cargo em exclusividade - como defende que todos os deputados façam - mas quer manter o palco que a TV lhe dá através do comentário desportivo: "É um complemento na forma de expressão publica", defende - "não há nenhuma incompatibilidade".

Tudo bons vizinhos

A condição de partido de um deputado só, não permite ao Chega constituir uma bancada parlamentar, mas dá direito a duas salas no Parlamento: uma para André Ventura, outra para a assessoria, que ainda não existe. O deputado explica que ainda não tem equipa constituída, nem tão pouco chefe de gabinete.

As salas que foram agora atribuídas ao Chega, estavam, até há bem pouco tempo, ocupadas pelo CDS. As salas e tudo o que elas contêm, incluindo as impressoras: "Assunção, ficamos-te com a impressão", brinca um assessor, que ao inspecionar o caixote do lixo provoca um novo momento de riso ao deparar-se com um velho jornal onde consta a fotografia de Paulo Portas.

Está prestes a começar uma espécie de 'Querido, mudei o gabinete' pela mão de André Ventura, ordena, ainda que a arte não seja o seu forte. A começar pelos quadros nas paredes, ilustrações de figuras humanas abstratas, datadas de 1978: "Ainda por cima de um ano que nunca gostei", brinca o deputado. Mas porquê? "Foi um período conturbado da democracia..."

Como vizinhos, André Ventura tem o Livre e a Iniciativa Liberal. Joacine Katar Moreira chega entretanto, mas os dois novos deputados não se cruzam. Já teve oportunidade de cumprimentar a nova vizinha? "Ainda não..." Já não vai a tempo, a porta do gabinete do Livre é fechada a partir de dentro.

"Aos mornos, Deus vomita"

O dia era para ter começado às 8h30 mas, mais uma vez, André Ventura chegou 20 minutos atrasado à Igreja de São Nicolau, na baixa lisboeta. Àquela hora ainda havia quem aspirasse os altares. Acompanhado pela mulher, André Ventura escolheu um dos bancos a meio da ala direita, ajoelhou-se, uniu as mãos e rezou.

Foi "agradecer pela vida, por poder representar os portugueses, mas também pedir ajuda e proteção para o mandato que aí vem."

Assume-se um bom cristão, mas será que as propostas do Chega seguem os ensinamentos cristãos de amor ao próximo? "O próprio Jesus Cristo era radical em algumas coisas", argumenta, citando uma expressão bíblica que diz "aos mornos Deus vomita". Ventura refere-se ao livro do Apocalipse, capítulo 3 versículo 16: "Assim, porque és morno, e nem és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca". Metaforicamente, só faltarão três deputados para André Ventura se poder tornar numa espécie de cavaleiro do fim do mundo.

Garante que não chega ao Parlamento "para criar qualquer polémica" mas assume que quer "agitar as hostes", pegando em casos como o do negócio do lítio, por exemplo."O secretário de Estado [João Galamba] não consegue explicar e ninguém o confronta com isso. Agora vai ser confrontado e vai ter responder. Se isso vai gerar polémica, então acho que há muito tempo que os portugueses queriam que houvesse polémica no Parlamento." É a democracia a funcionar, justifica.

Para já, o único 'cavaleiro do Apocalipse' do Chega quer apenas incomodar o hemiciclo. A sua primeira proposta no Parlamento será a redução de deputados. Em entrevista à TSF na esplanada de um café, depois da oração matinal, André Ventura assume-se como radical e antissistema, mas refuta quaisquer rótulos de extrema-direita. Diz mesmo que até é capaz de acompanhar propostas da esquerda.

"Na generalidade da dita extrema-direita europeia, há uma lógica de estatização da economia brutal, de querer nacionalizar praticamente tudo, desde agências de seguros a prestações de serviços da eletricidade e energia, nós é precisamente ao contrário", diz, sublinhando os fatores económicos e não as questões relacionadas com, por exemplo, migrações.

"Se vier uma proposta da dita extrema-esquerda que melhore a vida dos nossos agentes de segurança, contem connosco para apoiar. Se vier uma proposta da dita esquerda que baixe os impostos aos portugueses, contem connosco para apoiar", exemplifica.

"Nós estamos aqui para fazer propostas, se querem dizer que são de extrema-direita, de direita conservadora, digam o que quiserem: para nós o importante é fazer propostas."

À saída para o almoço, fora do Parlamento, André Ventura gaba a sorte de Carlos I, eternizado numa estátua de pedra. "Um dia ainda hei-de ser eu." Cuidado que os jornalistas escrevem que disse isso, alerta o assessor. "E podem escrever, é verdade, eu disse."

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