Críticos internos no PAN "crescem à semana"? Lista opositora à direção conhecida "no final do ano"

Inês de Sousa Real desvaloriza as disputas internas, garante que a direção tem todas as condições para continuar à frente do partido e está focada no trabalho e nas conquistas do PAN.

Os opositores internos no Pessoas-Animais-Natureza (PAN) garantem que os membros do partido, críticos da atual direção, "crescem à semana" e estão a preparar uma lista com um projeto político alternativo, para concorrer à liderança, no próximo congresso. O movimento interno acusa a atual liderança de se sujeitar a ser "muleta" do Governo socialista, de descurar a bandeira ecologista do partido, e de querer bloquear a democracia interna.

Nelson Silva, antigo deputado do PAN, é um dos rostos desta oposição interna. Em declarações à TSF, afirma que o grupo "surgiu organicamente", depois das eleições legislativas - em que o partido, que chegou a ter cinco deputados, ficou reduzido, no Parlamento, a um deputado único.

Insatisfeitos com o desfecho eleitoral, afirmam que não houve "uma responsabilização por parte da direção", tendo sido chumbada a proposta de um congresso eletivo extraordinário para discutir os maus resultados.

"Achamos que um congresso extraordinário é o fórum ideal para tirar ilações relativamente ao rumo do partido, para relegitimar uma direção que, com a derrota nas legislativas, esvaziou a moção global de estratégia com a qual foi eleita", defende Nelson Silva, lembrando ainda o episódio do chumbo dos novos estatutos do PAN, pelo Tribunal Constitucional, em fevereiro - que obrigou o partido a retomar os antigos estatutos.

Em vez do congresso extraordinário, a direção do PAN preferiu ouvir os militantes, separadamente, em assembleias - levando, na altura, a que vários membros da comissão política nacional do PAN renunciassem aos cargos.

"Foi uma tentativa de bloquear a democracia interna", declara Nelson Silva. "Esta direção achou que era melhor fechar os filiados, separadamente, em salas, em que não existiu uma participação ativa entre os próprios filiados no debate."

"Eu pergunto: no século XXI, numa associação de natureza partidária, num Estado de Direito democrático, é esta a transparência e o nível de debate que queremos?", questiona. "O partido não é da direção, o partido é dos filiados."

Nelson Silva garante que a contestação está a multiplicar-se: "Cresce à semana, e essa é a verdade. Não somos uma "minoria ruidosa", nem tão pouco mais ou menos".

A atual direção é também acusada, por este grupo, de permitir irregularidades nas eleições das distritais - com 10 dos 20 elementos da comissão política do Algarve a demitirem-se, este mês, em protesto - e de estar a tentar controlar os delegados selecionados para o próximo congresso.

"Os delegados ao congresso são eleitos por lista nas assembleias distritais. Ora, se não existe debate político interno abrangente (...), então é muito fácil para as comissões políticas distritais controlarem as listas de delegados que apresentam a escrutínio, porque são os únicos que têm contacto com todos os filiados. Aquilo que nós vimos no Algarve foi um alerta daquilo que pode acontecer em várias distritais", afirma Nelson Silva.

Rui Prudêncio, antigo membro da Comissão Política Permanente do PAN, é outro dos nomes do partido a queixar-se de fraca democracia interna.

"O partido, neste momento, está muito fechado nos seus órgãos. Sendo um partido pequeno, devemos privilegiar as vias da democracia direta, e não tanto da democracia representativa, porque, no fundo, esses representantes são sempre os mesmos e depois presta-se a que o partido seja mais facilmente capturado por um certo caciquismo", alerta, em declarações à TSF.

Menos ecologista e "muleta" da maioria do PS?

Mas além das questões internas, para este movimento de filiados, também as opções do partido no Parlamento têm merecido reprovação.

"O partido está a perder a sua feição ecologista, que já teve anteriormente. Achamos também que o partido deve ter uma ação política mais exigente para com o Governo, até para se demarcar também daquela imagem que, às vezes, passa para a opinião pública, de que é uma "muleta" do Governo, uma espécie de "Os Verdes" do PS", nota Rui Prudêncio.

O grupo está, por isso, a preparar "um projeto político alternativo", para que o PAN volte a ser "a grande referência ecologista" no país, alegam.

"Queremos recuperar bandeiras que o PAN, claramente, tem perdido para outros partidos políticos (...), recuperar a democracia interna, desenvolver as estruturas do partido para dar mais autonomia às bases e fomentar o debate político entre os filiados, criar novos órgãos no partido, para que o PAN consiga fazer um trabalho político democrático, ativo e inclusivo", adianta Nelson Silva.

O conteúdo deste programa político, dizem, ainda está a ser desenvolvido, mas a lista que o representará e o nome de quem a encabeça, asseguram, deverão ser conhecidos já no final do ano, de modo a apresentarem-se no próximo congresso do PAN, que pelo que ditam os estatutos, terá de acontecer até junho de 2023.

Sousa Real fala em condições plenas de liderança e olha para futuro

Ouvida pela TSF, Inês de Sousa Real reage àqueles que têm criticado o partido, após a decisão de não realizar um congresso extraordinário. A porta-voz assegura que "o PAN fez o seu processo de auscultação interno" e que houve "uma franca e expressiva maioria que se pronunciou no sentido de não haver necessidade de um congresso eletivo".

A líder do partido desvaloriza os ataques, afirmando que "é normal que existam diferentes correntes" e que as críticas só demonstram que "a democracia no PAN está viva" e que "há espaço para diferentes visões se pronunciarem".

Inês de Sousa Real considera que a atual direção do PAN tem todas as condições para continuar à frente do partido e reitera que irá recandidatar-se à liderança.

"Tem sido esse o repto que me tem sido lançado internamente e, portanto, irei recandidatar-me, porque ainda tenho muito trabalho pela frente", confirma.

"Tanto eu como a direção que me acompanha somos líderes e dirigentes do PAN há muito pouco tempo, eu recordo que ainda não fez sequer dois anos, e, portanto, há de facto aqui condições para esta direção continuar no seu pleno funcionamento", alega.

Questionada sobre a realização do próximo congresso do partido, que pelas regras, terá de ser organizado no primeiro semestre do próximo ano, Inês de Sousa Real responde que "a seu tempo" dará nota de "quando" e "como" irá acontecer.

Para a líder do PAN, o que os eleitores esperam do partido é que esteja "focado nas causas e não perdido em questões internas", frisando o trabalho que têm em curso - e rejeitando a ideia de que o PAN esteja a ser instrumentalizado pelo Governo.

"Seria muito fácil demitirmo-nos de fazer o nosso papel e deixarmos a maioria socialista sozinha a tomar decisões e não tentar negociar e abrir a porta para que no Orçamento houvesse medidas que foram inscritas e que fazem a diferença na vida das pessoas", constata Inês de Sousa Real.

A porta-voz indica a necessidade de "manter a porta aberta" para o processo legislativo, onde o partido tem "importantes medidas em curso" que "não pode menosprezar" - desde a revisão constitucional, com a inscrição do crime de ecocídio no código penal, ao luto gestacional, passando pelo fim dos estágios profissionais não remunerados, mas também pela revisão do regimento, para garantir mais direitos aos deputados únicos.

"Há, de facto, aqui um sentido não só de Estado como de responsabilidade perante as pessoas", conclui.

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